24 de dezembro de 2013
10 de dezembro de 2013
quase nada anda a pé
quase nada, dos irmãos fábio moon e gabriel bá (10 pãezinhos), são tiras de pura poesia. este é o quase nada no.240. no blogue deles (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/) pode-se acompanhar não só as tiras publicadas mas também os caminhos por onde eles andam, os processos de criação, etc. é deles também o lindíssimo daytripper.
3 de dezembro de 2013
28 de novembro de 2013
e pauso
transito e retransito a cidade em largas avenidas
dia noite dia
mais e mais as árvores me fazem pensar grandes pulmões:
vejo a folhadia noite dia
mais e mais as árvores me fazem pensar grandes pulmões:
e faz o pequeno milagre da vida
23 de novembro de 2013
dois tempos
por fim silencia o motor de um barco no peito por onde o vento escapa
a respiração retoma o humano ritmo sonolento, filhote nasciturolado a lado como for
lado a lado nisto que quase muro
lado a lado nesta, esta corda estendida, bamba6 de novembro de 2013
além do horizonte
escalo a cerca: sete metros
escalo outra: outros metros
subo e desço
mais uma cerca e caio
perco pés e quase
braços
noção
movimento
quase perco aquilo que penso
não ter e quero ganhar
a vida:
por ela me escondo
bicho na gruta no dia
para ganhá-la
não há quem venha me alimentar
bicho
quem venha me salvar
bicho
deste escuro
deste medo
desta fome
deste abismo
que não quero estas cercas
que me separam do paraíso
eu e minha multidão
meu abandono
eu o invisível que somos sem lugar
que por tudo isso
arrisco me escondo
enfrento
para viver escalo: sete metros
a multidão segue: outros metros
subo e desço
mais uma e caio
perco os pés e grito
que neste silêncio sigam
e por um momento - um curto momento -
já sei morrer
11 de outubro de 2013
carpas na laje
eu tinha dezessete . ele
tinha uma brasilia. eu tinha pressa de tudo e ele me pediu um cigarro.
que eu não tinha. nem fogo. ele tinha mãos de dedos longos. eu tinha
cabelos desgrenhados. nenhum tema em comum. e então veio o pretexto. me
lembro de ligar do orelhão da porta da faculdade pra saber se podia
encontrar. e eu fui. encontrei. era uma tarde de sol, era uma conversa
na laje, era uma vida já tão doída, tão sozinha. as nossas. um beijo não
dado na laje na tarde de sol, eu lembro. os muros brancos no em volta,
os vasos. a pele, os cabelos, o medo.
cada conquista minha tem uma pequena dedicatória a esse homem.
cada conquista minha. minhas conquistas eu não tenho.
o que sou eu me esqueço.
as carpas nas águas nos pés do museu. a feira de antiguidades.
os leões no simba safari.
um beijo no meio de uma construção.
um orelhão na
rodoviária e a notícia triste, infinita. tudo preso numa memória
nebulosa de dor. numa memória nebulosa de desejo e cinzas
tudo tudo adormecido.
e mais três vezes passou uma eternidade.
sete anos é muito pouco quando se tem quase cinquenta. sete anos é uma
eternidade quando se tem dezessete. foram sete anos de eternidade. toda
eternidade dentro de mim, no desejo que não se materializava desejo, o
abraço que não se permitia ir até o fim abraço. o branco no branco, o
espelho. os compassos de espera. era sempre um compasso de espera. ele
vinha, ele ia. eu ia. eu voltava. eu nunca mais ouvia falar.
cada conquista minha tinha uma pequena dedicatória a esse homem.cada conquista minha tem uma pequena dedicatória a esse homem.
a luz do sol na janela do quarto num sábado à tarde.
o alto de um prédio onde uma antena pisca.tudo tudo adormecido.
e mais três vezes passou uma eternidade.
ele
passou os braços pela minha cintura, num abraço antigo. ali eu era a
mesma menina de tempos atrás. e só então eu soube que ele tinha muito,
muito mais medo da vida do que eu.
10 de outubro de 2013
9 de outubro de 2013
aula de voo
O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.
Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defende o que pensa saber
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de seu casulo.
Até que maduro
explode em voos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.
Mesmo o voo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.
O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
e de suas certezas.
É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa
a nos mostrar que para o voo
é preciso tanto o casulo
como a asa.
(Mauro Luis Iasi)
7 de outubro de 2013
teoria das superfícies mínimas
no momento mesmo em que me catalogaram - você é uma mulher boa - tudo ficou perdido, todo mito, nesta definição de ponta de dedos, boca nenhuma. e o todo se tornou fracasso: um fracasso leve aéreo, fracasso aerado, musse quase suflê, a bondade em pequenas bolhas esparsas. dentro de cada bolha o oco. a bondade, ali, onde você não se diz. mas alguém sempre se diz. alguém se deixa existir. no colorido das bolhas, o conflito entre ondas de luz antes brancas que se refletem entram ressurgem na superfície, que se constroem e se destroem milhares de tons em incidências desproporcionais ao atravessar a fina pele da parede daquilo onde nada há.
abro o enorme catálogo, entre as últimas letras do alfabeto, vejo a foto: eu, boa mulher que me dizem, na mão escondo uma faca, entre os dentes, as unhas são garras, no anel, veneno, no meu olho cavo a bolha da bondade se esfuma, se esvanece, murcha.
sem luz.
as bolhas do plástico bolha que envolve o catálogo de fracassos me distraem dos meus horrores, da minha incapacidade de olhar o mundo e ver. o mundo. enquanto me distraio e não vejo, pequenas bolhas vazias buscam entre sais e ácidos a menor área para tanto volume nenhum. e me esvaio - líquido pingo - entre as páginas o que não se sabe que sou. lanço o outro aos infernos, querendo, boba, ir direto ao céu. mas é na terra que se firma os pés e bem ali se põe as mãos, alguém diz, sem ser iridescências nasço avessos de escuridão.
1 de outubro de 2013
27 de setembro de 2013
no limite entre pedra e musgo
asperamente: o lamber de cada letra que a palavra é que a palavra não é sua irrealidade sua realidade tocar o que a palavra quer ser e não quer dizer seu futuro gozo de palavra muda: sua glória sua nudez de palavra em concha a concha: passar os dedos neste oco que a palavra também é reorganizá-la em seu úmido e ouvir na palavra – seca – seu coração desritmado sentir na palavra - cega – sua pupila dilatada o céu da palavra que não se sabe palavra que agoniza sozinha sob a noite estrelada
25 de setembro de 2013
24 de setembro de 2013
hoje: quatro
"O perder-se por esses labirintos, que aos neófitos pode parecer uma ocupação estéril, me parece muito mais prática e com os pés no chão do que investir aos trancos, como um cordeiro, contra circunstâncias estranhas a nós, que se conjuram para nos complicar o lado puramente utilitário de nossa vida que é, sem dúvida, o mais real e inapreensível, dada sua elementar e irremediável idiotice. Para essas especulações dinásticas nada mais propício, pelo menos no meu caso, que o mormaço ardente do trópico, que costuma aguçar meus sentidos e minha inteligência até os limites do visionário e delirante. É aí que o calor e a umidade se conjuram para estabelecer uma noite com ambiente de caldeira e o sono vem, como uma guilhotina aveludada e piedosa, que nos deixa à margem de esquecidas regiões da infância ou de obscuros meandros da história, povoados por figuras que vivemos como fraternas presenças inefáveis."
(Álvaro Mutis, Ilona chega com a chuva. Tradução: Josely Vianna Baptista)
18 de setembro de 2013
17 de setembro de 2013
lamparina no canto do quarto
a árvore inveja o vento
que inveja a casa
que inveja o mar.
que inveja a casa
que inveja o mar.
a árvore pode ser barco
a casa pode ser barco
um fareja o outro
mar e barco
como um cão fareja o dono
às vezes todos esses se abandonam
sendo o que são
sem pensar
então, nesse único instante, o barco se sabe peixe
e a árvore se reduz a semente
16 de setembro de 2013
nada zen
a partir daquele momento, perscruto o mar como um radar busca o navio inimigo, e uma tensão discreta substitui a calma anterior da contemplação. espero: quero adivinhar seu caminho em profundezas de pedra, quero conhecer seu fôlego para que o trajeto dos meus olhos cruze o seu trajeto e eu veja despontar cabeça ou nadadeiras no instante mesmo em que meu dedo apertar um gatilho. ainda que o disparo não a mate, eu e ela morremos um pouco – a tartaruga – quando reduzo sua existência, antes ampla e leve contemplação, a uma inscrição fotográfica: tartaruga recortada do horizonte, amputada pelo meu olhar, meu cálculo, minha visão restrita de mundo.
15 de setembro de 2013
13 de setembro de 2013
mil novecentos e setenta e sete ou through hardships to the stars
então eles teriam perguntado o que você colocaria numa
mensagem para não sei onde, para não sei quando, para não sei quem, e você
poderia ter dito que pensava colocar umas fotos, talvez umas músicas, talvez
uns desenhos, talvez, sem saber o que poderiam querer dizer estes tantos não
saber, até se dar conta que você era justo o cara que pensava na possibilidade
de tudo ser possível, embora todo possível também pudesse ser impossível, e
elaborou uma lista, de sonhos, mas também de realidades, e pensou nos lugares
mais lindos da terra, e pensou nos pescadores portugueses, e pensou nos pássaros,
e pensou no som do vento, e pensou no som da água, e pensou em coisas sublimes,
e pensou em outras, banais, e pensou no tempo que devora o espaço, e pensou no
espaço que devoraria a nave antes mesmo que você se imaginasse depositado em
cinzas ou terra, e pensou nas grandes caravelas atravessando mares, depois, por
fim, pensou na estupidez do humano, um pequeno e minúsculo humano, que também não
sobreviveria, e não teria seu nome inscrito em lugar algum, pois seu poder foi não
deixar o sol dos beatles ir pro espaço, talvez um dia tornando verdade um outro
registro desse disco de ouro, a partir deste momento considerado interestelar: many
people comin' from miles around to hear you play your music 'till the sun go
down maybe someday your name will be in lights... sayin' johnny b. goode
tonight...
9 de setembro de 2013
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