7 de maio de 2014
6 de maio de 2014
precipícios
no princípio, a palavra
pedra submersa na água
opaca do mundo
que não era:
só
depois
de haver pedra
depois de haver água
e palavra
um princípío
pedra submersa na água
opaca do mundo
que não era:
só
depois
de haver pedra
depois de haver água
e palavra
um princípío
25 de abril de 2014
no cravo
foi-se o tempo do paraíso vazio
corredores sem gente
pontos de silêncio e escuridão
volto a me perder nos desvãos de um hospital
as janelas claras enganam
meu joelho falha
quase caio
ao descer a escada
meu joelho dói
saber pisar
é arte
depois, o saber dizer
eu não sei
por todo lado academias de musculação
salões de beleza
pouco mercadinho, pouca padaria
nada de bibliotecas
penso nisso quando lembro
de um homem a predizer
o futuro este prazer de si mesmo
medo de tudo que não seja eu, que seja outro
o que não sei
e ao predizer futuros
em fortaleza de músculos
e beleza de tintas
não soube dizer como interromper o fluxo
ávido do tempo
como concentrar energia
neste corpo confuso
agora confuso
tão confuso
quanto não sei
o rosto dilacerado
cortado em mil
um olho que se abandona
brilho e busca
a mão que treme no lençol insano e busca a minha
a mão
e eu nunca saberei
como sair daqui
como seguir em direção ao paraíso
que já não está vazio
como na cegueira enxergar esta neblina espessa
como saber que não sei
bianca, é muito simples, só me diz se sim ou não
se sim tá ótimo
e se não
tá ótimo também eu procuro outro jeito
mas eu preciso, bianca, eu preciso saber
24 de abril de 2014
moda íntima no subsolo
não disfarço
meu peito caído à força da gravidade e do tempo.
depois,
ainda penso que sutiãs de recheios bojudos são mais difíceis de queimar.
o juiz – ou
seria uma juíza? – perguntou a respeito do assassinato com claros sinais de
violência: mas o que fazia ela num bar, à noite, sem sutiã?
como?
como se
calcula a (in) capacidade humana de conviver sem medo?
como se
calcula a lotação máxima de um ônibus de linha? se lugares para sentar, it´s
ok, mas quarenta e uma pessoas em pé? esta uma? se a mais, se a menos. alguém (quem?), de verdade, calcula?
e se quem
calcula contar mais de cem?
faz o quê?
explica pro
juiz pra juíza pro juízo que a culpa é dos cem. gente demais, é?
a culpa é
dela, da moça sem sutiã num calçadão do rio de janeiro.
é?
sutiãs
bojudos não disfarçam o peito arfante. que queima.
o medo, este convívio.
4 de abril de 2014
21 de março de 2014
tarde, tão tarde
quando ela
entrou, já quase ninguém no vagão, e mesmo assim falava alto, a contar uma
história como quem cumpre promessa, a promessa de contar mesmo para quem não quisesse ouvir, e ela começou a dizer meu filho errou,
errou sim, e foi preso, mas isso não quer dizer que não seja meu filho, e agora
que ele pagou, e está trabalhando, eu ainda não tenho dinheiro para comprar
gás, e que adianta ter arroz e feijão e óleo se não tem o fogo, e dizia também que
perdoava o filho, e pedia dinheiro, e emendava outra vez na explicação que
mostrava nos olhos uma loucura de quem já não sabe por onde ir ou o que pedir
para reaver o indescritível que perdeu, e ela dizia eu disse isso pra ele,
porque se é deus que tem que perdoar e deus perdoa, quem sou eu pra não
perdoar, e até que foi bom porque na hora que levaram ele, que algemaram ele,
que bateram nele, até ficar só um fiapo, eu não estava em casa, eu estava no
trabalho, e a vizinha disse que bateram com jornal, pra não deixar marca, por
dentro esmaga tudo e até hoje ele tem dor no estômago, mas está vivo e isso eu
digo e digo também que ele já pagou pelo que fez, ele e eu, que sou mãe, eu é
que não ia deixar ele apodrecer ali, estes dois anos, ia lá visitar e eu digo,
eu disse, eu conto aqui pra todo mundo ouvir, que visitar alguém que está na
cadeia, o primeiro dia, a primeira vez, é dar o primeiro passo pra dentro do
inferno, depois tem gente que se acostuma com ser tratado pior que cão de rua,
eu não me acostumei, não, e não vou esquecer, e então foram muitos passos naquele inferno, muita humilhação, e eu digo isso pra ele, pro meu filho: você já pagou
por alguma coisa que fez, mas eu, eu, cada noite que eu vou dormir e lembro, eu
continuo pagando, e por uma coisa que eu, a bem dizer, nem fiz.
e então, sentou em silêncio na minha frente, como quem faz um intervalo de existir.
e então, sentou em silêncio na minha frente, como quem faz um intervalo de existir.
13 de março de 2014
velásquez
aquela
pintura de velásquez, você a conheceu – ele me diz – presa no espelho do
banheiro por anos a fio, embora não fosse a pintura, fosse um cartão que
retratava a pintura sem as marcas da faca afiada de mary, a sufragista, a que disse – já presa e aflita – sem a calma meticulosa de quem corta delicadamente a tela
de um velásquez, vênus linda se olhando ao espelho – disse a sufragista - e foi
você quem me disse antes mesmo que eu lesse ou que me lembrasse (continuo não
me lembrando) do cartão no espelho do banheiro da casa junto ao largo – que assim
era preciso aniquilar a beleza da mulher mais linda de outros tempos para pedir
a liberdade da mulher mais bonita dos tempos de agora – que afinal também se
tornaram tempos de século atrás – de beleza rara e única de mulher que respira e
treme, que transpira e geme quando quer e não quando obrigada induzida
designada para, a beleza de quem se sabe plena de direitos – que se sabe com
esquerdos e todos os muitos lados que temos seres viventes, pulsantes tanto por
pensar quanto por sentir e mais que tudo por este ponto luminoso no mundo, este
onde estamos quem somos porque somos.
6 de março de 2014
14 de fevereiro de 2014
formigueiro
sob o sol, os bichos mortos
cheiro de corpos em putrefação
sob as lápides
contaminações de lençóis freáticos
a líquida lição
de quem algemado se suicida
um tiro na cabeça o homem do camburão
há quem incinere os ossos
e a fumaça manterá na memória
o tempo agudo de um semáforo que mal dá tempo ao tempo
a paciência do mundo é amarrar um menino negro
a paciência é o poste
e açoitá-lo – o menino
a paciência nenhuma
a revolver o estômago
a reviver o pesadelo
mítico
de meninos medos maldições e misérias
essa bruta recusa de qualquer plural
13 de fevereiro de 2014
trinta quintilhões de anos
dizem que os cristais têm memória melhor que a dos elefantes. por mais que se afaste o cálice, nem por isso ele esquece. e não esquecer o sangue nos salva. de que precipícios, de que abismos?
31 de janeiro de 2014
na noite
alguma coisa me diz que há alguma coisa que não estou vendo. a
cegueira é minha, estendida, espero que todos estejam de olhos cerrados,
como os meus. a guerra também é minha. serei quem mata serei quem
morre, no mesmo gesto, no incêndio, na bandeira branca, não importa. algo me diz: mantenha os pés no chão. e retroceda, quando for a
hora. quando é a hora? os pés sabem. as mãos se perdem. não se perca.
a guerra não é de ninguém. não há guerra. também as bandeiras brancas.
existem? e o fogo e os olhos. e as coisas que vejo sem vê-las.
quem
tem mãe não faz filosofia, diz o menor de todos, e este filosofar em si
me surpreende.
pergunto se conhece algum filósofo. diz um nome e acrescenta: aquele dos
figos e a carta. o filósofo dos figos. o filósofo da carta. que por
certo teve mãe, penso. como teve sua batalha pública tão particular, e
perdeu os pés quando se soube menos cego e mais sozinho.
24 de janeiro de 2014
em outro voo - II
uns dias,
o pequeno barco no mar
grande
outros dias, o mesmo barco,
largo rio que leva
outros, ainda, nada de barco, sou o rio
fluido
um pouco perdido contido
em margem
ou, mesmo, a água que vai
ou talvez só a margem
de bosta e capim
pisoteado pelo gado
pisoteado pelo gado
em seu desvio de cercas
depois
nada, nem
mar barco rio água margem,
essa, a bosta seca sob a mosca
22 de janeiro de 2014
21 de janeiro de 2014
arisco
de
dia me ocupo. à luz ofuscante do sol abro trilhas e percorro caminhos.
sigo. areia pedras musgo húmus. planto, replanto, colho e alimento. de
noite olho estrelas e constelações. reafirmo rumos. é sempre a mesma a
lua, e sempre muda. a mesma a paisagem onde nasce, e outra. muda a
paisagem, muda a sombra, a profundidade da água e a força que gera o
vento, a velocidade. na turbulência, me perco. se tudo intenso, firmo os
pés. escrever é riscar a pele.
24 de dezembro de 2013
10 de dezembro de 2013
quase nada anda a pé
quase nada, dos irmãos fábio moon e gabriel bá (10 pãezinhos), são tiras de pura poesia. este é o quase nada no.240. no blogue deles (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/) pode-se acompanhar não só as tiras publicadas mas também os caminhos por onde eles andam, os processos de criação, etc. é deles também o lindíssimo daytripper.
3 de dezembro de 2013
28 de novembro de 2013
e pauso
transito e retransito a cidade em largas avenidas
dia noite dia
mais e mais as árvores me fazem pensar grandes pulmões:
vejo a folhadia noite dia
mais e mais as árvores me fazem pensar grandes pulmões:
e faz o pequeno milagre da vida
23 de novembro de 2013
dois tempos
por fim silencia o motor de um barco no peito por onde o vento escapa
a respiração retoma o humano ritmo sonolento, filhote nasciturolado a lado como for
lado a lado nisto que quase muro
lado a lado nesta, esta corda estendida, bamba6 de novembro de 2013
além do horizonte
escalo a cerca: sete metros
escalo outra: outros metros
subo e desço
mais uma cerca e caio
perco pés e quase
braços
noção
movimento
quase perco aquilo que penso
não ter e quero ganhar
a vida:
por ela me escondo
bicho na gruta no dia
para ganhá-la
não há quem venha me alimentar
bicho
quem venha me salvar
bicho
deste escuro
deste medo
desta fome
deste abismo
que não quero estas cercas
que me separam do paraíso
eu e minha multidão
meu abandono
eu o invisível que somos sem lugar
que por tudo isso
arrisco me escondo
enfrento
para viver escalo: sete metros
a multidão segue: outros metros
subo e desço
mais uma e caio
perco os pés e grito
que neste silêncio sigam
e por um momento - um curto momento -
já sei morrer
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