6 de maio de 2014

precipícios

no princípio, a palavra
pedra submersa na água
opaca do mundo
que não era:

depois
de haver pedra
depois de haver água
e palavra
um princípío

25 de abril de 2014

no cravo



foi-se o tempo do paraíso vazio
corredores sem gente
pontos de silêncio e escuridão

volto a me perder nos desvãos de um hospital
as janelas claras enganam
meu joelho falha
quase caio
ao descer a escada
meu joelho dói

saber pisar
é arte
depois, o saber dizer

eu não sei

por todo lado academias de musculação
salões de beleza
pouco mercadinho, pouca padaria
nada de bibliotecas

penso nisso quando lembro
de um homem a predizer
o futuro este prazer de si mesmo
medo de tudo que não seja eu, que seja outro

o que não sei

e ao predizer futuros
em fortaleza de músculos
e beleza de tintas
não soube dizer como interromper o fluxo
ávido do tempo
como concentrar energia
neste corpo confuso
agora confuso
tão confuso

quanto não sei

o rosto dilacerado
cortado em mil
um olho que se abandona
brilho e busca
a mão que treme no lençol insano e busca a minha
a mão

e eu nunca saberei

como sair daqui
como seguir em direção ao paraíso
que já não está vazio
como na cegueira enxergar esta neblina espessa
como saber que não sei


bianca, é muito simples, só me diz se sim ou não
se sim tá ótimo
e se não
tá ótimo também eu procuro outro jeito
mas eu preciso, bianca, eu preciso saber



24 de abril de 2014

moda íntima no subsolo



não disfarço meu peito caído à força da gravidade e do tempo.
depois, ainda penso que sutiãs de recheios bojudos são mais difíceis de queimar.
o juiz – ou seria uma juíza? – perguntou a respeito do assassinato com claros sinais de violência: mas o que fazia ela num bar, à noite, sem sutiã?

como?

como se calcula a (in) capacidade humana de conviver sem medo?
como se calcula a lotação máxima de um ônibus de linha? se lugares para sentar, it´s ok, mas quarenta e uma pessoas em pé? esta uma? se a mais, se a menos. alguém (quem?), de verdade, calcula?
e se quem calcula contar mais de cem?
faz o quê?
explica pro juiz pra juíza pro juízo que a culpa é dos cem. gente demais, é?
a culpa é dela, da moça sem sutiã num calçadão do rio de janeiro.

é?
sutiãs bojudos não disfarçam o peito arfante. que queima.
o medo, este convívio.

21 de março de 2014

tarde, tão tarde



quando ela entrou, já quase ninguém no vagão, e mesmo assim falava alto, a contar uma história como quem cumpre promessa, a promessa de contar mesmo para quem não quisesse ouvir, e ela começou a dizer meu filho errou, errou sim, e foi preso, mas isso não quer dizer que não seja meu filho, e agora que ele pagou, e está trabalhando, eu ainda não tenho dinheiro para comprar gás, e que adianta ter arroz e feijão e óleo se não tem o fogo, e dizia também que perdoava o filho, e pedia dinheiro, e emendava outra vez na explicação que mostrava nos olhos uma loucura de quem já não sabe por onde ir ou o que pedir para reaver o indescritível que perdeu, e ela dizia eu disse isso pra ele, porque se é deus que tem que perdoar e deus perdoa, quem sou eu pra não perdoar, e até que foi bom porque na hora que levaram ele, que algemaram ele, que bateram nele, até ficar só um fiapo, eu não estava em casa, eu estava no trabalho, e a vizinha disse que bateram com jornal, pra não deixar marca, por dentro esmaga tudo e até hoje ele tem dor no estômago, mas está vivo e isso eu digo e digo também que ele já pagou pelo que fez, ele e eu, que sou mãe, eu é que não ia deixar ele apodrecer ali, estes dois anos, ia lá visitar e eu digo, eu disse, eu conto aqui pra todo mundo ouvir, que visitar alguém que está na cadeia, o primeiro dia, a primeira vez, é dar o primeiro passo pra dentro do inferno, depois tem gente que se acostuma com ser tratado pior que cão de rua, eu não me acostumei, não, e não vou esquecer, e então foram muitos passos naquele inferno, muita humilhação, e eu digo isso pra ele, pro meu filho: você já pagou por alguma coisa que fez, mas eu, eu, cada noite que eu vou dormir e lembro, eu continuo pagando, e por uma coisa que eu, a bem dizer, nem fiz. 
e então, sentou em silêncio na minha frente, como quem faz um intervalo de existir.

13 de março de 2014

velásquez



aquela pintura de velásquez, você a conheceu – ele me diz – presa no espelho do banheiro por anos a fio, embora não fosse a pintura, fosse um cartão que retratava a pintura sem as marcas da faca afiada de mary, a sufragista, a que disse – já presa e aflita – sem a calma meticulosa de quem corta delicadamente a tela de um velásquez, vênus linda se olhando ao espelho – disse a sufragista - e foi você quem me disse antes mesmo que eu lesse ou que me lembrasse (continuo não me lembrando) do cartão no espelho do banheiro da casa junto ao largo – que assim era preciso aniquilar a beleza da mulher mais linda de outros tempos para pedir a liberdade da mulher mais bonita dos tempos de agora – que afinal também se tornaram tempos de século atrás – de beleza rara e única de mulher que respira e treme, que transpira e geme quando quer e não quando obrigada induzida designada para, a beleza de quem se sabe plena de direitos – que se sabe com esquerdos e todos os muitos lados que temos seres viventes, pulsantes tanto por pensar quanto por sentir e mais que tudo por este ponto luminoso no mundo, este onde estamos quem somos porque somos.

14 de fevereiro de 2014

formigueiro

sob o sol, os bichos mortos
cheiro de corpos em putrefação

sob as lápides
contaminações de lençóis freáticos
a líquida lição
de quem algemado se suicida
um tiro na cabeça o homem do camburão

há quem incinere os ossos
e a fumaça manterá na memória
o tempo agudo de um semáforo que mal dá tempo ao tempo

a paciência do mundo é amarrar um menino negro
a paciência é o poste
e açoitá-lo – o menino
a paciência nenhuma
a revolver o estômago
a reviver  o pesadelo
mítico
de meninos medos maldições e misérias

essa bruta recusa de qualquer plural

13 de fevereiro de 2014

trinta quintilhões de anos

dizem que os cristais têm memória melhor que a dos elefantes. por mais que se afaste o cálice, nem por isso ele esquece. e não esquecer o sangue nos salva. de que precipícios, de que abismos?

31 de janeiro de 2014

na noite

alguma coisa me diz que há alguma coisa que não estou vendo. a cegueira é minha, estendida, espero que todos estejam de olhos cerrados, como os meus. a guerra também é minha. serei quem mata serei quem morre, no mesmo gesto, no incêndio, na bandeira branca, não importa. algo me diz: mantenha os pés no chão. e retroceda, quando for a hora. quando é a hora? os pés sabem. as mãos se perdem. não se perca. a guerra não é de ninguém. não há guerra. também as bandeiras brancas. existem? e o fogo e os olhos. e as coisas que vejo sem vê-las.

quem tem mãe não faz filosofia, diz o menor de todos, e este filosofar em si me surpreende. pergunto se conhece algum filósofo. diz um nome e acrescenta: aquele dos figos e a carta. o filósofo dos figos. o filósofo da carta. que por certo teve mãe, penso. como teve sua batalha pública tão particular, e perdeu os pés quando se soube menos cego e mais sozinho.

há alguma coisa que vejo quando o silêncio me toma. quando estendo as mãos no ar morno do escuro da noite imóvel. aquela mesma noite que me abria quase punhaladas na pele, e era alegria a minha, e eram punhaladas na pele da minha mãe que chorava - água gotejando entre as flores - o pai que já não estava. a alegria dela nenhuma. cada uma, pedras pontiagudas sob os pés. pisávamos, ambas, delicadamente, os cristais.

24 de janeiro de 2014

em outro voo - II

uns dias,
o pequeno barco no mar
grande

outros dias, o mesmo barco,
largo rio que leva

outros, ainda, nada de barco, sou o rio
fluido
um pouco perdido contido
em margem

ou, mesmo, a água que vai

ou talvez só a margem
de bosta e capim
pisoteado pelo gado
em seu desvio de cercas

depois
nada, nem
mar barco rio água margem,

essa, a bosta seca sob a mosca

21 de janeiro de 2014

arisco

de dia me ocupo. à luz ofuscante do sol abro trilhas e percorro caminhos. sigo. areia pedras musgo húmus. planto, replanto, colho e alimento. de noite olho estrelas e constelações. reafirmo rumos. é sempre a mesma a lua, e sempre muda. a mesma a paisagem onde nasce, e outra. muda a paisagem, muda a sombra, a profundidade da água e a força que gera o vento, a velocidade. na turbulência, me perco. se tudo intenso, firmo os pés. escrever é riscar a pele.

10 de dezembro de 2013

quase nada anda a pé




















quase nada, dos irmãos fábio moon e gabriel bá (10 pãezinhos), são tiras de pura poesia. este é o quase nada no.240. no blogue deles (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/) pode-se acompanhar não só as tiras publicadas mas também os caminhos por onde eles andam, os processos de criação, etc. é deles também o lindíssimo daytripper.

28 de novembro de 2013

e pauso

transito e retransito a cidade em largas avenidas
dia noite dia
mais e mais as árvores me fazem pensar grandes pulmões:
vejo a folha
mas é o invisível que respira
e faz o pequeno milagre da vida

23 de novembro de 2013

dois tempos

por fim silencia o motor de um barco no peito por onde o vento escapa
a respiração retoma o humano ritmo sonolento, filhote nascituro
revolteio
um pequeno guerreiro os músculos do corpo repousam
a energia do universo se condensa neste ponto de luz
intenso
me dá tua mão e vamos
lado a lado como for 
lado a lado nisto que quase muro
lado a lado nesta, esta corda estendida, bamba

6 de novembro de 2013

além do horizonte



escalo a cerca: sete metros
escalo outra: outros metros
subo e desço
mais uma cerca e caio
perco pés e quase
braços
noção
movimento
quase perco aquilo que penso
não ter e quero ganhar
a vida:
por ela me escondo
bicho na gruta no dia
para ganhá-la
não há quem venha me alimentar
bicho
quem venha me salvar
bicho
deste escuro
deste medo
desta fome
deste abismo
que não quero estas cercas
que me separam do paraíso
eu e minha multidão
meu abandono
eu o invisível que somos sem lugar
que por tudo isso
arrisco me escondo
enfrento
para viver escalo: sete metros
a multidão segue: outros metros
subo e desço
mais uma e caio
perco os pés e grito
que neste silêncio sigam
e por um momento - um curto momento -
já sei morrer