22 de março de 2015


branco no branco. um ovo. e me lembro da história da vida do gigante que vivia sem medo tudo o que fazia porque sua vida não estava ali, no seu peito. sua vida estava guardada no fundo do mar, dentro da boca de um peixe que dormia numa gruta. dentro do peixe havia um baú, dentro do baú uma pedra, dentro da pedra um ovo, onde dentro uma vela acesa era a tal vida. a vida oculta. o gigante exposto e sua vida guardado segredo. isso que digo preto no branco, o escrever, é um pouco o avesso dessa vida de gigante. eu faísca dentro de um ovo dentro de uma pedra dentro de um baú dentro de um peixe dentro de uma gruta no fundo do mar e as palavras construídas aí: mundo afora. ou mundo adentro: do outro. o avesso do ovo. preto no preto.

19 de março de 2015

língua água

quando traduzo de uma outra língua para a minha língua-mãe, é como se essa outra língua fosse uma água que pego em balde, pote, copo. e, ao lançar esta água-língua sobre as palavras, elas se revelam e quase as posso ver, ler na minha língua-mãe. mas se, em vez de traduzir, quero construir e escrever e falar nesta outra língua-água, não me bastam o copo o pote o balde. nestas horas preciso me largar da margem língua-mãe para mergulhar no rio que é esta outra língua-água. é mais bonito nadar em rio que chafurdar em balde. num balde não se perde o pé. num rio as braçadas podem ser lentas, sempre posso ver o céu.

17 de março de 2015

pele das amêndoas



as amêndoas têm uma quase penugem. por dentro desta quase penugem
as amêndoas têm uma casca rugosa e áspera. por dentro desta casca rugosa
as amêndoas têm uma pele fina e delicada. por dentro desta pele
as amêndoas são brancas brancas. por vezes amargas.

nunca se sabe se a fragilidade é falta ou excesso, o gesto
que se contém porque não se sabe ou porque
sim, sabe.

no meio da tempestade a mulher sorri.
gosto de vir ao cassino, sabe? quase sempre perco.
acho bom assim. é a vida. nada me faltou.
fiquei viúva quando as crianças eram muito pequenas
agora: nora, genro, netos.
aos oitenta e um preciso respirar.
o do meio sempre está comigo, ótima companhia
e ninguém o entende muito bem
isso de transtorno mental
trabalhou contribuiu tem boa pensão
não paga aluguel sobrevive bem.
esquizofrenia:                
as pessoas  têm medo.

vim de outros extremos
onde a terra vale nada quando se quer guardar
oliveiras e amendoeiras
a terra vale muito se quiser comprar
quem é que paga?

no portal do anjo encontrei  o alfaiate da minha cidade
aquele que me ensinou, e era raro mulher neste ofício.
me viu e disse quero o teu cuidado nas minhas roupas.
fui. por muitos anos. agulha linha costura.
aqui na capital.
alimentei e criei meus filhos.
eduquei. na retidão.

tenho muito azar no cassino.
mas é como o azar desta chuva, e não digo.
outro dia foi o fêmur, muita água numa calçada.
hoje o motorista me deu este guarda-chuva.

este guarda-chuva é meu, senhora.

pois, que o leve, não é meu, o motorista insistiu.

digo que sim, que vi o homem insistindo, entregando.
ela dizia não é meu. e ela não soube o que dizer.

eles nos olham como olhassem duas ladras de guarda-chuvas chineses.

que nem deveriam ter dono, ela diz, quando os inquiridores se foram.
jamais um guarda-chuva deveria ser roubado. nem guardado numa casa num dia de chuva.
concordo. são de quem precisa.
ela pensa: e nem todos os guarda-chuvas chineses são ruins. há tantos bons quantos ruins.
em tudo. eu e você. dentro de mim e dentro de você.
veja a chuva quase parou, veja toda água quase vai pro mar.

vejo as folhas secas do inverno boiando nas poças.
um relâmpago atravessa o céu na horizontal. clarão.
outra vez a escuridão.

llavors quer dizer semente
llavors quer dizer então:
llavors
"Já viu o que é meter aqui, nos ferrinhos, uma vírgula, uma vírgula? Já viu isto, com os espacinhos, assim? Porque isto é um trabalho de artista. É preciso uma paciência…"

13 de março de 2015

extraer un g

no que parece ser a ponta seca de um galho seco de uma arvore seca, se prepara uma mini mini mini explosao. um pulsar minusculo. ela perguntou: se nao tem rima, pode ser um poema? mas se nem palavra....

11 de março de 2015

nem digo



nem digo plantar colher
digo comprar comida crua e transformar em alimento, pão

nem digo fiar e tecer ou cortar e costurar
digo fazer barras, firmar botões, consertos pequenos. fechar vãos

não, nem fazer filhos digo
cuidá-los

nem ser o tempo que envelhece
mas guardar estes últimos momentos

não digo nunca remover pedras se é poeira que se deposita todo dia
se a roupa suja se a louça se alguém tem que fazer as compras ver se as calças se os cabelos as orelhas se os modos

todo este trabalho digo invisível, e não digo mas lembro não pago, experimente
o mundo, como é, depende dele

não viver no abandono de serpentes
não ser ninho de vespas
não ter que comer insetos
e quanto aos desertos não passar a vida atravessando areia quente e seca

digo: experimente a água, está fresca

na toalha xadrez ela deposita um copo vidro e transparente
a água do copo lentamente distorce a visão que tenho de suas mãos – ásperas
depois oferece um café
arruma um vasinho de violetas africanas, a penugem das folhas. tira as flores murchas. amassa entre os dedos

a tarde no silêncio da tarde
já termina o sol:
suspira:

...

8 de fevereiro de 2015

falsa musa

às vezes isso que chamam musa se senta do outro lado da mesa, nos olha e em nada nos inspira. nesses dias, vejo a maquiagem desfeita, sei a farsa, tenho ideias e nenhuma se sustenta. o ar entra. o ar sai. também o ar que se respira às vezes, veja só, é falso. nestas vezes, me levanto discretamente, abro a porta da cozinha e olho o céu. chamo os meninos pra comer pão de queijo, e quando ela, falsa musa, estende a mão, digo: não, você não. e volto a olhar o céu sem nuvens. uma infusão de cardamomo e gengibre faz o ar de inverno ficar mais leve. por aqui ainda não inventaram o requeijão e as cozinhas não têm porta pro quintal.

15 de janeiro de 2015

desejos de dezembro

aprender uma língua quase morta
contornar um câncer com sabedoria
controlar os medos sem pressa
cortar os vestidos muito longos
desviar dos pedágios
guardar anéis
livrar-se do excesso de livros
ser portátil

depois
levar os bois
levar os porcos
levar os gansos
a pastar
ensinar aos filhotes o caminho da casa
no inverno calcular metros cúbicos de madeira
entre os tijolos preparar a renda dos lençóis

meu pai relê o mundo em sua velhice
melhora-o
ameniza-o
o mundo áspero e os espinheiros que somos
uns para os outros
as valas que nos tornamos todos

minha mãe oculta-se do mundo
diz que mal se lembra

para os dois, o medo dos aviões do inimigo
e a planície
os bombardeios

as crianças sabem melhor os perigos
é uma questão de olfato
e sentem mais frio nos pés

os velhos não gostam dos ventos em amplos espaços
e atravancam suas casas internas
com coisas nas quais tropeçam a cada manhã
depois dizem
meu pé lateja
não sai água da torneira
na minha idade muitos já morreram

os tapetes não têm vísceras
os quadros são nuvens cinzas
onde piso é o onde vivo
se existo sou um abraço,
sem abraço, um naufrágio.

24 de outubro de 2014

os dentes do tempo

sonhei com s. eu a visitava em seu apartamento no rio, como era nos primeiros dias, sem muitos móveis, tudo um pouco desordenado. ela mesma me abria a porta, estava arrumada para sair, com suas roupas punks anos 80. toda ela um tanto translúcida. então eu perguntava se tudo estava bem e ela, com um sorriso um tanto desanimado, mas nunca desesperado, respondia que sim, e que eu desse uma olhada no quarto. no quarto, sobre a cama, ela mesma, ali, morta. o corpo de certa forma já se desfazendo. moscas. ouvi r. chegar feliz. pronta pra sair também. eu perguntava o que faríamos com o corpo de s. e s. respondia: deixa lá mesmo, já foi... e o final do sonho, como tantos, se desvanece, se perde, entre o nonsense total e a sensação remota do que li ontem, de que não necessariamente o ser humano está aí para ser feliz. e, se nos isentarmos deste imperativo, pode até ser que um lampejo de felicidade nos tome.

24 de setembro de 2014

e, de repente, estanco

Um homem e sua vida (Yehuda Amichai)

Não. Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.
O Eclesiastes está enganado acerca disto.
Não há o tempo de amar e o tempo de odiar.
Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante,
rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
planejar e confundir, e comer e digerir...
Que a História leva anos e anos para se fazer.
e um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra esquece,
quando esquece ama, quando ama começa a esquecer.
E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador.
Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.
Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo
para tudo.

traducao carlito azevedo

23 de setembro de 2014

para reaprender os contornos do planeta



“Andar é cair para a frente. Cada passo é uma queda interrompida, um colapso evitado, um desastre contido. Por isso, o ato de andar é também um ato de fé. Um milagre em dois tempos – um ritmo binário, com um momento de contenção e outro de liberação.”

Paul Salopek, na National Geographic Brasil de dezembro de 2013, início de seu primeiro relato de um trajeto de 33 mil quilômetros a ser percorrido a pé. Serão sete anos na rota do homo sapiens da África à Terra do Fogo: “Ando para reaprender os contornos do planeta. Ando para ver o que há mais além. Ando para lembrar.”

2 de setembro de 2014

vinte e quatro por segundo

pode ser voce
pode ser eu
esta
mulher estrangeira
vinte e quatro quadros por segundo
nestes tempos pixels
película música fala
uma trilha incompreensível

suspiro

a pele branca sob a burca
a pele negra
quase nua
contagem regressiva
o pé na areia quente
o corpo que existe e se move
lento
a língua

um plano longo
tarkovski a regar a árvore
seca
nossos olhos secos
seus
meus
saber este corpo
suas regras
saber seus ciclos
incompreendê-los

seu vazio

o pensamento raso
quadro a quadro
fotograma
o tempo alucinado

a cidade nao nos existe

25 de agosto de 2014

ah

se soubesse dizer o que quero, não escarafuncharia a terra este monturo de palavras que construímos. unhas sujas, cabelos desgrenhados, cansada. quando durmo, descanso, as unhas seguem sujas sem que eu tenha dito o mundo que me deságua.

25 de junho de 2014

desta vez

me ocupei de uma velha embarcação. e do tempo a navegá-la.







El amor
Las palabras son barcos
y se pierden así, de boca en boca,
como de niebla en niebla.
Llevan su mercancía por las conversaciones
sin encontrar un puerto,
la noche que les pese igual que un ancla.
Deben acostumbrarse a envejecer
y vivir con paciencia de madera
usadas por las olas,
irse descomponiendo, dañarse lentamente,
hasta que a la bodega rutinaria
llegue el mar y las hunda.
Porque la vida entra en las palabras
como el mar en un barco,
cubre de tiempo el nombre de las cosas
y lleva a la raíz de un adjetivo
el cielo de una flecha,
el balcón de una casa,
la luz de una ciudad reflejada en un río.
Por eso, niebla a niebla,
cuando el amor invade las palabras,
golpea sus paredes, marca en ellas
los signos de una historia personal
y deja en el pasado de los vocabularios
sensaciones de frío y de calor,
noches que son la noche,
mares que son el mar,
solitarios paseos con extensión de frase
y trenes detenidos y canciones.
Si el amor, como todo, es cuestión de palabras,
acercarme a tu cuerpo fue crear un idioma.

Luis García Montero