25 de abril de 2017

primavera



passei uns meses sem saber se queria ou não a primavera deste ano. no verão passado ganhei uns ovos de bicho da seda e sabia que quando brotassem as amoreiras, tiraria os ovos do frio, esperaria que eclodissem, e alimentaria lagartas, no princípio minúsculas, que cresceriam a cada dia.
tenho questões com lagartas. destas questões antigas e inexplicáveis.
gosto dos silêncios, dos ciclos, dos casulos, admiro os fios de seda e as pequenas borboletas a reiniciar o movimento. mas enfrentar as lagartas em seus gestos de lagarta...
nesse momento devem ser umas duzentas, movendo patas minúsculas e bocas. são frágeis.
meu espanto repousa numa caixa de sapatos no balcão da cozinha. pequenos furos para não nos faltar o ar.
primavera estranha esta.

24 de abril de 2017

um poema de elisabeth bishop

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

(tradução de Paulo Henriques Britto)


One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

20 de abril de 2017

entre as tulipas sempre é primavera


vários caminhos diferentes vão me levando para a tradução de poemas de attila jozsef, nascido na hungria em 1905 e morto em 1937, sem que se saiba ao certo se acidente ou suicídio.
o primeiro caminho que me levou até ele foi meu pai. um dia conversando, selecionamos alguns poemas que poderiam ser um bom exercício de tradução conjunta. mas nao seguimos com isso. a vida leva, a vida traz, e isso agora já não será possível. não com meu pai, ao menos.
quando resolvi retomar, soube que havia uma tradução para o catalão. na rede de bibliotecas daqui só havia um exemplar, não emprestável, num lugar distante. procurei saber quem era o tradutor e ao saber que era de valencia, perguntei ao joan navarro, poeta e amigo, se não o conheceria. além de conhecer o eduardo verger, entrou em contato com ele, conversou, e poucos dias depois já me enviava um arquivo eletronico com o conteúdo do livro que estava esgotado.
devagarinho fiz minha própria seleção e comecei a tradução. traduzir é sempre difícil. o húngaro não é uma língua fácil.
aproveitei a viagem que fiz para visitar meu tio, irmão do meu pai, e perguntei a ele se poderia me ajudar a ver o que eu tinha incluído na minha seleção, conversar sobre alguns versos, expressões.
e ali, no apartamento pequeno de uma pequena cidade do interior da hungria, no avançado da noite, enquanto eu dizia das dúvidas, ele e minha tia comentavam o que está além das linhas, liam os poemas, quase sussurro. a dor de attila. e sua voz imensa. via meu tio e nele eu via também os gestos do meu pai. os papeis sobre a mesa sob a luz amarela noite adentro.
e nisso estou: na voz do meu pai. na voz dos meus tios. esse sussurro. e na minha própria voz, ainda perdida, que procuro emprestar para attila jozsef. e o seu grito.


18 de abril de 2017

poemas de yehuda amichai

Jericó la ultima vez

La mayor parte de nuestra vida es elegías por lo que hubo
y lamento por lo que no habrá.
Viajo de un lugar a otro,
balbuceos de rey te digo
en el canal del cuello, balbuceos de rey
sin reino. No lo olvides:
midbar y dibbur* vienen de la misma raíz
y bendición y maldición tiene el mismo sonido.

El agua que fluye del último invierno
resucita en otro verano.
La sombra pasa alrededor del árbol
en círculos callados.

¡Oh, planificación de jardines y planificación deagua!
¡Oh, planificación!, ¡oh plegaria!
Allí hay silencio, allí hay rosas
viajo sin cesar
soy un novio eterno.

Y alguna vez también Jericó será
la última vez.

*desierto y habla
El mar y la playa

El mar y la playa están siempre juntos. Los dos
quieren aprender a hablar, aprender a decir
una sola palabra. El mar quiere decir “playa”
y la playa quiere decir “mar”. Se acercan, llevan
millones de años acercandose a la palabra, a la pronunciación
de la palabra. Cuando el mar diga “playa”
y la playa diga “mar”,
llegará la redención al mundo,
volverá el mundo al caos.



Los caminos son nuevos

Los caminos son nuevos, los zapatos
comprados ayer mismo, pero la marcha
es antigua y heredada.
Entendimos la llúvia sólo
cuando ya era verano y en el mundo
discutían de pasado y presente y futuro.
En el lejano valle se firmó una alianza.
Fábulas de hombres
contadas a los zorros.


O touro

O touro retornou de seu trabalho diário na arena,
depois de tomar um cafezinho com os toureiros.
Deixou-lhes, num pedaço de papel, seu endereço
correto e o lugar da capa vermelha.
A espada está cravada em sua dura cerviz.
E quando chega em casa?
Agora está na cama
com seus pesados olhos judaicos.
Compreende que também ao aço
lhe dói penetrar a carne.
Em sua reencarnação pedirá para ser espada,
pelo menos a dor permanecerá.
("A porta fica sempre aberta, se não,
a chave estará sob o umbral")
Conhece a graça noturna
e a graça verdadeira.
Na Bíblia, figura entre os animais puros.
É muito puro, é ruminante
e seu coração está partido e dividido
como suas unhas.
Em seu peito estalam as tormentas,
acres, secas,
como se brotassem de um colchão arrebentado.


*
(tradução coletiva dos editores da Editora 7 Letras)







Quiero vivir hasta que las palabras en mi boca no sean más
que movimientos y consonantes, tal vez sólo movimientos, sonidos suaves.
El alma que llevo adentro es ahora la última lengua extranjera que estudio.
Y quiero vivir hasta que todos los números sean sagrados,
no sólo el uno, no sólo el siete ni solamente el doce o el tres,
sino todos los números, veintitrés los caídos en la batalla de Huleikahat,
diecisiete kilómetros hasta el lugar encantado, treinta y cuatro
noches, ciento veintinueve días de gracia, mil trescientos años
de velocidad de la luz, cuarenta y tres momentos de felicidad
(y el número de años de mi vida sigue siendo X). Una historia de cuatro mil
años en los cuarenta y cinco minutos del examen final de la escuela.
Y no hay número para las noches y los días —pero habrán de tenerlo.
Y hasta el infinito será sagrado y entonces descansaré un reposo eterno.




Las casas siguieron en pie. Los que rezaban
siguieron rezando. El enfermo se curó o murió.

El cerebro derramado en la arena siguió pensando. Einstein
se esforzó para recordar dónde había puesto el lápiz.

Los desiertos inventaron agua. El mar descubrió por primera vez
azúcar en la boca de una niña que se había ahogado en él.

El conductor de un taxi que llevaba a una novia a su boda jugó
a las cartas con su amigo que transportaba muertos.

En las cartas el rey se ve desde arriba y desde abajo
y también la reina y los demás. Y el mundo.




Estuvimos tan cercanos el uno del otro
Como dos números de una lotería
A un decimal de distancia,
Uno de nosotros ganará, tal vez.

Cómo es bello tu rostro y tu nombre impreso en ti
Como el empaque de una conserva maravillosa :
Fruto y nombre de fruto. Estás aún dentro ?

Vendrán los años, los días
Serán tan dulces como las noches
Y bellas para todos aquellos
Que no se preocupan más del tiempo.
Será entonces cuando sabremos.

17 de abril de 2017

um poema de adelia prado

No meio da noite

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos”.
Doía como um prazer
Vendo que eu não mentia ele falou:as mulheres são complicadas.
Homem é tão singelo.Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,singela, singela, comecei a repetir singela
A palavra destacou-se novíssima como as buganvílias do sonho.
Me atropelou.
— O que que foi? — ele disse.
— As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,até ficar singela e dormir de novo.

16 de abril de 2017

um poema de ruy belo

Não sei nada

Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu – eu e os meus irmãos – sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar – e de se ficar – pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.

26 de março de 2017

um poema de fernando ferreira de loanda

Poema dos cinquenta anos

Vejo o tempo passar, perder-se, frio,
caminhando felino como um gole de água,
ou um leopardo e evaporar-se.
O amanhecer da grande cidade
e o canto dos pássaros valorizo;
e o pão e o café na mesa posta,
a erva daninha e a formiga,
coisas, sutis talvez,
sem importância para os que
me cercam: envelheço.
Cuido dos cactos, do loureiro e da goiabeira,
respondo cartas, queimo livros antigos e amigos.
Camões e Pessoa, Gullén e Vallejo fazem maior minha ilha.
Compromisso, sem que o assumisse,
só com a morte,
o demais para o diabo.

25 de março de 2017

um poema de gloria fuertes


La vida es una hora,
apenas te da tiempo a amarlo todo,
a verlo todo.
La vida sabe a musgo,
sabe a poco la vida si no tienes
más manos en las manos que te dieron.
Al final escogemos un lugar peligroso,
un pretil, una vía,
la punta de un puñal donde pasar la noche.

24 de março de 2017

um poema de herberto helder

"Poemacto I"

Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Uma vara canta branco.
Uma cidade canta luzes.
Penso agora que é profundo encontrar as mãos.
Encontrar instrumentos dentro da angústia:
clavicórdios e liras ou alaúdes
intencionados.
Cantar rosáceas de pedra no nevoeiro.
Cantar sangrento nevoeiro.
O amor atravessado por um dardo
que estremece o homem até às bases.

Cantar o nosso próprio dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo.
Ao nome que sangra.
Que vai sangrando e deixando um rastro
pela culminante noite fora.
Isso é o nome do amor que é o nome
do canto. Canto na solidão.
O amor obsessivo.
A obsessiva solidão cantante.
Deito-me, e é enorme. É enorme levantar-se,
cegar, cantar.
Ter as mãos como o nevoeiro a arder.

As casas são fabulosas, quando digo:
casas. São fabulosas
as mulheres, se comovido digo:
as mulheres.
As cortinas ao cimo nas janelas
faíscam como relâmpagos. Eu vivo
cantando as mulheres incendiárias
e a imensa solidão
verídica como um copo.
Porque um copo canta na minha boca.
Canta a bebida em mim.
Veridicamente, eu canto no mundo.

Que falem depressa. Estendam-se
no meu pensamento.
Mergulhem a voz na minha
treva como uma garganta.
Porque eu tanto desejaria acordar
dentro da vossa voz na minha boca.
Agora sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
Porque essa estrela canta no sítio
onde vai ser a minha vida.

Queimais as vossas noites em honra
do meu amor. O amor é forte.
Que coisa forte que é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
entramos para o interior da loucura.
As cadeiras cantam os que estão sentados.
Cantam os espelhos a mocidade
adjectiva dos que se olham.
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.

Imagino o meu corpo, uma colina.
Meu corpo escada de estrela.
Nata. Flecha. Objecto cantante.
Corpo com sua morte que canta.
Imagino uma colina com vozes.
Uma escada com canto de estrela.
Imagino essa espessa nata cantante.
Uma que canta flecha.
Imagino a minha voz total da morte.
Porque tudo canta e cantar é enorme.

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.

22 de março de 2017

rota de fuga, fuga

(interseção aparente de duas ou mais retas paralelas para quem observa num dado momento)

não importa aonde vá, desde que possa fugir se preciso. uma porta, uma estrada, um pensamento qualquer coisa a nos tirar deste um lugar concreto para outro, abstrato. esteja atenta aos caminhos. ao entrar – navio, avião –, repare, a primeira coisa: aqui coletes, ali saídas, luzes, apitos. direções. máscaras de oxigênio cairão puxe uma afixe. primeiro, você. depois, quem precise respire naturalmente não entre em pânico. e, no entanto, um mínimo sinal ou equívoco de máscaras sobre nossas cabeças, emergência e já o desespero busca rotas que nos conduzam à. não leve nada, deixe as chaves na bolsa livros óculos dentaduras deixe os sapatos de salte sobre a asa do avião. feche os olhos.

quando abro
(o tema é repetido por outras vozes que entram sucessivamente entrelaçando-se. enquanto a primeira desenvolve um acompanhamento contrapontista as restantes chegam, uma a uma, iniciando sempre com o mesmo tema até se utilizarem todas. fosse pequena, seria uma fugueta, se abre uma rota)
é a hora do perigo.



20 de março de 2017

um poema de nikola madzirov

Depois de nós


Um dia alguém dobrará nossas mantas
e as enviará pra lavanderia
pra limpar delas até o último grão de sal,
abrirá nossas cartas e as ordenará por datas
e não pelas vezes que foram relidas.

Um dia alguém moverá os móveis do teu quarto
como peças de xadrez no início de outra partida,
abrirá a velha caixa de sapatos
em que guardamos os botões caídos dos pijamas
e as pilhas ainda não usadas e toda a fome.

Um dia voltaremos a ter dor nas costas
pelo peso das chaves de um quarto de hotel
e a desconfiança com que o recepcionista
nos entrega o controle remoto.

A compaixão alheia nos acompanhará
como a lua acompanha um menino perdido.

19 de março de 2017

um poema de ingeborg bachmann

Todos los días

Ya no se declara la guerra,
se prosigue. Lo inconcebible
se ha hecho cotidiano. El héroe
permanece alejado de los combatientes. El débil
ha avanzado hasta las zonas de fuego.
El uniforme de diario es la paciencia,
la condecoración, la mísera estrella
de la esperanza sobre el corazón.

Se concede
cuando ya no pasa nada,
cuando el fuego nutrido ha enmudecido,
cuando el enemigo se ha hecho invisible,
y la sombra del armamento eterno
oscurece el cielo.

Se concede
por abandonar las banderas,
por el valor ante el amigo,
por revelar secretos indignos
y desacatar
toda orden.

18 de março de 2017

17 de março de 2017

um poema da pintora agnes martin

La mente imperturbada 
(Agnes Martin, pintora, quando convidada para uma conferencia, apresentou este poema)

La gente cree que pintar tiene que ver con el color
Es fundamentalmente composición
La composición lo es todo
La imagen clásica –
Dos fuentes Tang tardías, una con la imagen de una flor,
otra vacía – la forma vacía se proyecta hacia el cielo
Es la forma clásica – un peso más ligero
Mi trabajo es anti-naturaleza
La montaña de los cuatro elementos
No pensarás en forma, espacio, línea, contorno
Sólo una sugerencia de la naturaleza otorga peso
leve o intenso
ligero como una pluma
si eres lo bastante ligero, levitas
Cuando digo que vive, está inspirado
vivo
La inspiración y la vida son equivalentes y proceden del
exterior
La belleza es penetrante
la inspiración es penetrante
Decimos esta rosa es bella
Y cuando es destruida hemos perdido algo
por lo que esa belleza se ha perdido
Cuando la rosa es destruida nos afligimos
pero en realidad la belleza es libre
y una mente libre lo percibe
La rosa representa a la naturaleza pero no es la rosa
la belleza es libre, es inspiración – es inspiración
El cultivo de la sensibilidad, la respuesta a la belleza
En la primera infancia, cuando la mente no ha sido perturbada
la inspiración es más común
el niño pequeño sentado en la nieve
la educación de los niños – el desarrollo social contradice
el desarrollo estético
La naturaleza es conquista, posesión, comida, sueño, procreación
No es estética, no el tipo de inspiración que me interesa
La naturaleza es la rueda
Cuando sales de la rueda observas el exterior
Das la espalda a la confusión
Nunca descansas en la naturaleza, es algo hambriento
Todos los animales están uncidos al hambre
No es que no crea en que hay que comer
tan sólo quiero distinguir entre
arte y comida
Me gusta esta pintura porque puedes entrar en ella y descansar
La satisfacción del apetito resulta imposible
La satisfacción del apetito es frustrante
Por eso siempre es mejor tener un poco de hambre
Así contradices la necesidad
No estoy a favor del ascetismo
Pero el truco absoluto en la vida es hallar descanso
Si hay vida en la composición, ésta estimula tus instantes vitales
tus instantes felices, tu cerebro es estimulado
San Agustín dice que la leche no viene de la madre
Pinté un cuadro llamado Milk River
Las vacas no dan leche si carecen de hierba y agua.
El tremendo sentido de esto es que los pintores no pueden ofrecer
nada al observador
La gente recibe lo que necesita de una pintura
El pintor no tiene que morir por responsabilidad
Cuando tienes inspiración y representas la inspiración
El observador hace la pintura
El pintor hace la pintura
El pintor no tiene la responsabilidad de estimular sus necesidades
Es un dilatado proceso
Ningún sufrimiento es innecesario
Todo es iluminador, así es la vida
El ascetismo es un error
Buscar el sufrimiento es un error
pero lo que llega hasta ti en libertad te ilumina
Solía pintar montañas aquí, en Nuevo México, y pensaba
que la llanura era todo
solo la llanura
Si dibujas una diagonal, queda suelta en ambas puntas
No me gustan los círculos – demasiado expansivos
Cuando dibujo horizontales
observas este gran avión y tienes la sensación de que
te expandes por encima de él
Todo puede ser pintado sin representación
No creo en las influencias
A menos que seas tú, tú mismo siguiendo tus propias huellas
Por qué, nunca llegarás a ninguna parte
No creo en lo ecléctico
Creo en la repetición
Creo que es un retorno al clasicismo
El clasicismo no tiene que ver con la gente
y este trabajo no versa sobre el mundo
Llamamos idealismo al clasicismo griego
El idealismo parece algo por lo que esforzarse
Ellos no se esforzaron por el idealismo
Seguid lo que Platón tiene que decir
Los clásicistas son personas cuya búsqueda da la espalda al mundo
Representa algo imposible en el mundo
Una perfección imposible en el mundo
Es muy poco subjetivo
El ideal en América es el hombre natural
El conquistador, aquel capaz de acumular
Aquel que supera las desventajas, fuerza, valor
Mientras la inspiración, el arte clásico, depende de la inspiración
Las sílfides – dependo de las musas
Las musas me socorren
Existe en la mente
Antes de representarse en papel existe en la mente
El punto – no existe en el mundo
Lo clásico es fascinante
un período clásico
es clásico porque es impersonal
lo desvinculado e impersonal
Si alguien se interna en las montañas, eso no es desvinculado
e impersonal, tan sólo rememora
Lo desvinculado e impersonal se relaciona con la libertad
Esa es la respuesta a la inspiración
La mente imperturbada
Platón decía que todo cuanto existe no son sino sombras
Para una persona desvinculada la complejidad de la vida arraigada
es como el caos
Si no amas el caos eres un clasicista
Si lo amas eres un romántico
Alguien dijo que toda emoción humana es una idea
La pintura no tiene que ver con ideas o emoción personal
Cuando pintaba en Nueva York no lo tenía tan claro
Ahora tengo muy claro que el objeto es libertad
no libertad política, que es un eco apenas
no libertad respecto a las costumbres sociales
sino libertad respecto al dominio y la esclavitud
libertad respecto a lo que te aniquila
libertad para el acierto y el error
En el Génesis, Eva comió la manzana del conocimiento
del bien y del mal
Si renuncias a la idea del bien y del mal
nada logras
Tan sólo te liberas de todo
libertad respecto a las ideas y la responsabilidad
Si la inspiración te anima te abres al acontecer
no podrás vivir la vida moral, obedecerás al destino
no podrás vivir la vida inspirada y seguir las convenciones
no podrás hacer promesas
El futuro es una página en blanco
Fingí abismarme en la página en blanco
Buscaba mentalmente la página no escrita
Si me mente se vaciaba era capaz de verla
No pinté el avión
Tan sólo esbocé la línea horizontal
Luego descubrí las otras líneas
Pero tuve claro que amaba la línea horizontal
A continuación pinté dos rectángulos
composición correcta
si hemos de darles la razón
No puedes evadirte de tu tarea
Ellos llegan en un equilibrio interior
como si añadir algo fuera innecesario
La gente mira un color que no está ahí
nuestras respuestas son estimuladas
Las pinto bajo una luz directa
En aquel momento ignoraba exactamente por qué
había pintado esos rectángulos
De Isaías, acerca de la inspiración:
“Sin duda, la gente es hierba”
Bajas hasta el río
eres como yo
flota una hoja de naranjo
eres como yo
Entonces pinto esos rectángulos
Toda la gente era como esos rectángulos
Son como la hierba
Ese es el camino a la libertad
Si imaginas que eres un grano de arena
conoces las edades de la roca
Si imaginas que eres una roca
la roca del tiempo escindida de mí
déjame ocultarme en ti
No has de preocuparte
si imaginas que eres una roca
se extinguen todos tus problemas
Es un consuelo
La arena es mejor
Eres mucho más pequeño que un grano de arena
Somos tanto más insignificantes
Estas pinturas abrazan la libertad respecto a las inquietudes del mundo
lo mundanal
No la religión
No tienes que ser religioso para que te inunde la inspiración
La senilidad es rememorar con nostalgia
la senilidad es falta de inspiración en la vida
El arte aviva inspiraciones y despierta sensibilidades
es la función del arte
Cuando se le presentaba un problema, el chico
extraía la roca del lodo
se convertía en roca
invocaba una visión de la quietud
La idea es independencia y soledad
nada religioso en mi retiro
la religión desde mi punto de vista
tiene que ver con esta hierba
La hierba disfruta la caricia del viento
Disfruta de las evoluciones del viento
La hierba pensó que el viento es un gran consuelo
además acerca las nubes de lluvia
De hecho debemos todo lo que somos al viento
Deberíamos contar al viento nuestra gratitud
quizá si caemos y nos humillamos
Podremos obtener más – podremos evitar el sufrimiento
Eso es religión
soledad e independencia de una mente libre
Nada de lo que sucede en tu vida concede inspiración
Cuando tus ojos se abren
percibes belleza en todo
Blake tiene razón en que no hay diferencia
entre la cosa entera
y una sola cosa
Liberarse del sufrimiento
el sufrimiento es necesario para liberarse del sufrimiento
Primero debes encontrar el motivo por el cual sufres
Mi pintura versa sobre la impotencia
Somos ineficaces
En una gran pintura una brizna de hierba equivale a poco
Las preocupaciones se desprenden de ti cuando crees eso
el orgullo queda abolido cuando piensas eso
El remordimiento es algo que comprendo bien
La ola entera
se aplica a la vida, la ola
Igual que en el inicio, no había división
ni separación
No mires las estrellas
Entonces tu mente irá libremente – mucho, mucho más allá
Atraviesa la lluvia con la mirada
las gotas son insulares
Intenta recordar lo anterior a tu nacimiento
El conquistador luchará contigo
si no hay nadie más alrededor
Estoy constantemente tentada a pensar que puedo salvarme
observando mi mente descubro qué la habita
haciendo aflorar los pensamientos observo cómo
se disuelven
Puedo ver mi ego y ver sus intenciones
Puedo ver que soy yo y es impotente como toda naturaleza
impotente en el proceso de disolución del ego, de sí mismo
Puedo ver que su principal intención es la conquista y la destrucción
del ego, de sí
y sólo puede ir y volver en una batalla constante con sí mismo
reiterándose
Sería una batalla eterna si todo dependiera del ego
porque no destruye y no es destruido por sí mismo
Es como una ola
se conforma a sí mismo, se precipita para no llegar a lugar alguno
se estrella, retrocede y se recompone
se eleva orgulloso
se apresura a una conquista imaginaria
se estrella, frustrado
retrocede arrepentido y contrito
reúne sus fuerzas con una nueva determinación
Individual y colectivamente idénticos
niño entrenado en el orgullo y el patriotismo
fortaleciendo el espíritu nacional
lanzándose a la conquista
Victoria y derrota y frustración
retirada y arrepentimiento
el mayor orgullo
la rueda de la vida
orgullo
conquista
Victoria derrota frustración
contrición arrepentimiento
resolución
orgullo
Más personas son las que a temprana edad descubren al conquistador en sí mismas
y buscan la forma de superarlo mediante otro proceso
la verdadera derrota del ego en la que no tomamos parte
La disolución del ego en la realidad, como al principio
como era antes de vivir desvinculados e insulares
el proceso que llamamos destino
en el que somos los materiales que han de disolverse
Comemos
procreamos
Morimos
Observamos el proceso y reconocemos el sufrimento como la derrota del
ego en el proceso del destino
Podemos renunciar al orgullo, conquista, remordimiento y resolución
inevitablemente, mientras el destino se despliega
Mecida en la montaña puedo descansar
Soledad y libertad son idénticas
bajo toda hoja caída
Otros no existen realmente en soledad, yo no existo
no pensar en otros aun cuando están allí, ninguna interrupción
un místico y una persona son lo mismo
Noche, intemperie, errancia
Yo, como el venado, observé
hallando lo que mengua
viviendo en lo que mengua
vivir es pastorear
la memoria, rumia
alejarse de todo
abandonarlo todo
abandonarlo todo
no a mí, ya no,
ego retirado, errancia
en la monntaña
no más conquistas, ningún enemigo para nadie
ego retirado, errancia
ningún amigo, maestro, esclavo
todos los opuestos muertos al mundo y él mismo sin responsabilidad
tal vez ahora pueda disfrutar de la navegación
aventuras en la oscuridad
muy excitante
Bestias que parecen yacer muertas
Él es muy suave
No buscaré aventura pero podría suceder, supongo
La acción inspirada es destino
nuestros pies son los senderos de la rectitud
los senderos que nuestros pies siguen están trazados
Como los ríos corren hacia el mar
y la planta crece hacia el sol
así fluimos y crecemos y existimos
El éxtasis juega con ángeles sílfide
Mientras oteo en mi mente y nada descubro
Las sílfides han capturado a la bestia y la cepillan
un sol muy agradable, eso es el destino
como acicalarse
La idea
La súbita realización de la destrucción de la inocencia por el ego
En la soledad no hay consuelo
pensando en los demás y en mí misma, incluso las plantas
Me inquieto al instante
porque mi soledad ha sido interrumpida
soledad, inspiración
Hacia el oeste, bajando la montaña
Soy nada absolutamente
Lo otro sucede
la purificación de la realidad
es todo cuanto sucede
cuanto sucede en ese proceso
no la naturaleza, la disolución de la naturaleza
El error consiste en pensar que cumplimos
un papel en el proceso
Hasta donde podemos pensar, mostramos resistencia
Advierto que no tengo nada que ver con el proceso
Es muy agradable
El todo de todo, realidad, mente
el proceso del destino
como el océano que desborda
como un solemne viaje sin perturbaciones ni objetivos
Soledad
al margen de la naturaleza
sonriendo
Todos son elegidos y todos lo saben
también animales y plantas
Sólo el todo del todo
Todo es eso
Toda acción y pensamiento infinitesimal forma parte de
una maravillosa victoria
“libertad en la montaña, un destello de victoria”
Parece que ganamos y perdemos,
pero en realidad no hay pérdida
El contoneo de un gusano es tan importante como el asesinato de un
presidente


Traducción: Antonio F. Rodriguez y Lola Nieto

16 de março de 2017

um poema de gary snyder

Para los niños

Las altas colinas, las cuestas,
de estadísticas
están ante nosotros.
la subida escarpada
de todo, sube,
sube, mientras todos nosotros
bajamos.

El siglo que viene
o el siguiente,
dicen,
habrá valles, pastos,
nos podemos encontrar allí en paz
si llegamos.

Para subir estas cumbres venideras
una palabra para ti, para
ti y para tus hijos;

estad juntos
aprended las flores
id ligeros


Tradução: Jose Luis Regojo

(La isla de la tortuga, kriller71ediciones)