2 de janeiro de 2018

dois ursos



esta é uma história inuit. houve um tempo em que eu a repeti várias noites seguidas. porque me pediam.

havia dois ursos, o preto – wakini - e o cinza – wakinu.

eles eram amigos.  wakini ficou muito tempo juntando um pote de mel e veio wakinu e roubou o mel. eles brigaram e wakinu ganhou a briga.

o chefe da tribo não achou justo que o que tinha roubado o mel também tivesse ganho a briga e expulsou wakinu. mas wakinu não era mau, ele só gostava muito, muito de mel, e ficou muito triste. todos ficaram com pena dele, mas ele tinha que ir embora. e ele foi. foi chorando muito, chorando, chorando cada vez mais.

ele andou muito dias chorando e chorando. ele só andava e chorava, não via nada, não comia, não bebia, não nada. só andava e chorava. até que depois de muitos dias andando e chorando, no meio das lágrimas ele começou a ver um monte de estrelas brilhando. wakinu achou tão bonito todas aquelas estrelas juntas e foi seguindo por aquele caminho.

e enquanto seguia por aquele lindo caminho de estrelas, ele, que era um urso grande e pesado, foi se sentindo cada vez mais leve, mais leve, como se dançasse...

bem nessa hora, o wakini que estava lá na aldeia se sentindo muito triste, olhou para o céu e viu. viu seu amigo andando por aquele lindo caminho de estrelas. e chamou todo mundo e disse: vejam, vejam, é wakinu.

e todos na aldeia vieram ver e olhando para cima viram como wakinu, seguindo por aquele lindo caminho de estrelas, sacudiu seu pelo que se iluminou e do seu pelo caíram pontos luminosos enchendo ainda mais o caminho de estrelas.

nunca mais wakinu foi visto na aldeia. mas todos sabem que no fim daquele lindo caminho de estrelas, ele encontrou um pote enorme de mel.

29 de dezembro de 2017

abacate



(gary snyder)

O Dharma é como um abacate!
Algumas partes tão incrivelmente maduras,
Mas são boas.
E outras, duras e verdes
Sem muito sabor, 
Como para os que gostam dos ovos muito cozidos.

E a pele é fina,
O enorme caroço redondo 
No centro,
É tua própria Natureza Original --
Pura e suave,
Quase ninguém o quebra em dois
Ou tenta ver
Se crescerá.

Duro e resvaladiço,
Parece como
Se tivesses que plantá-lo - mas então
Sai disparado entre os
                     dedos --
Se escapa.

 

25 de dezembro de 2017

poema de natal

(vinícius de moraes)




Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

14 de dezembro de 2017

em velhecer

uma vez que a todos nos espera a morte, mais cedo ou mais tarde, envelhecer é uma dádiva, não é uma maldição. mas então por que ao chegar aos cinquenta é mais comum ouvir puxa, mas você não parece ter tanto (embora saibamos todos que nem sempre isso se diz com sinceridade, mas por convenção social) do que ouvir que bom que deve ser chegar aí. é bom chegar aqui. nem todos chegamos. nem todos chegarão. e é um sorteio, nao é um merecimento. e ao mesmo tempo é nada. comparado aos duzentos mil anos do ser humano sobre a face da terra ou os quatro bilhões de anos da própria terra, viver cinquenta ou setenta ou noventa é irrisoriamente indiferente. e no entanto.

1 de dezembro de 2017

quanto

quanto é preciso que envelheça uma galáxia para que contenha um pouco de vida? olhe o céu. e nós aqui, quanto envelhecemos até que enfim estejamos submersos em um pouco de vida? ventos de areia, como rios passando sobre a pele. serpentes cósmicas. há alguma coisa que não estamos vendo. por não conhecer.

17 de julho de 2017

o que tangencia o divino


meu pai separou três livros que eu tinha deixado emprestados com ele. e outros dois, que queria me dar. um deles, de poesia. george popescu. leio: “a poesia não deve mudar o mundo nem sequer melhorar a condição humana, tampouco ser uma alternativa, mas simplesmente uma medicina naturans, uma saída do círculo impossível do destino. a poesia destrói a ilusória escala de valores ditados pela moda, inverte o avesso mediante o retorno da tradição, recusa o perigoso jogo de dados e assume apenas um único risco: um halo por meio do qual a luz da Palavra é filtrada, quando esta se encarna dentro de um verso que tangencia o divino”. dizem que escrevia muito bem. o meu pai.

9 de junho de 2017

um poema de rick noguchi - em obras

O oceano dentro dele
Depois que Kenji Takezo tomou um caldo,
A turbulência da espuma confundiu
Seu senso de direção.
Ele inspirou
Quando deveria ter
Prendido firme. Por acidente, engoliu
O Pacífico. A água entornou pela sua garganta,
Uma cascata azul que ele não pode ver.
Ele sentiu em seu estômago
A vida pesada do oceano.
Não foi divertido, mas ele riu
Quando um cardume fez cosquinhas em suas costelas.
Ele foi para casa, o surf não montável,
Já não estava lá,
A água pesou em sua barriga.
Naquela noite, enquanto dormia, a maré se moveu.
Os longos braços da lua
Alcançaram-no, de dentro dele
libertando o Pacífico.
Quando acordou na manhã seguinte,
Deitava numa poça de oceano que era dele.


The Ocean Inside Him
After Kenji Takezo fell from a wave,
The turbulence of whitewash confused
His sense of direction.
He breathed in
When he should have
Held tight. By accident, he swallowed
The Pacific. The water poured down his throat,
A blue cascade he could not see.
He felt in his stomach
The heavy life of the ocean.
It wasn’t funny, but he giggled
When a school of fish tickled his ribs.
He went home, the surf not rideable,
It was no longer there,
The water weighted in his belly.
That night, while he slept, the tide moved.
The long arms of the moon
Reached inside him pulling the Pacific free.
When he woke the next morning,
He lay in a puddle of ocean that was his.