3 de janeiro de 2018

líquidos, luzes, lentes, escuros.



era um tempo de fotografar, revelar o filme, ampliar.

naquele dia eu tinha pressa, muita pressa.
uma reunião linda de catadores num galpão e até a luz era mágica.
antes de viajar, precisava revelar, selecionar umas fotos, ampliar e entregar.
as fotos já estavam ali, eu sabia.
só faltava a parte manual de enrolar o filme na espiral, meter no pote, líquido um, líquido dois, líquido tres. secador. voilá. depois a luz no papel, outra vez líquido um dois e tres. secar.

entrei no quarto escuro, abri o filme, enrolei na espiral. estranhei por um momento que tudo tivesse sido tão fácil. em geral, na insegurança e no tato a gente sentia se a ponta estava presa no miolo da espiral. e notei que não precisei usar o tato, que dava pra ver que tudo estava perfeitamente encaixado...

nunca mais me esqueci daquelas fotos. da cara das pessoas, da luz, dos pontos de poeira brilhando no galpão sombreado.
também alguns livros. que não li até o fim e permanecem suspensos.
abraços que não foram dados.

há quem diga se fosse colorida seria mais bonita a foto.
há quem diga ponha maiúsculas e mais gente vai ler.
outros: eu, sim, me despedi.

dentro de mim silencio: o imperfeito, o incompleto, o impermanente.
já nem digo: esquecer.

2 de janeiro de 2018

dois ursos



esta é uma história inuit. houve um tempo em que eu a repeti várias noites seguidas. porque me pediam.

havia dois ursos, o preto – wakini - e o cinza – wakinu.

eles eram amigos.  wakini ficou muito tempo juntando um pote de mel e veio wakinu e roubou o mel. eles brigaram e wakinu ganhou a briga.

o chefe da tribo não achou justo que o que tinha roubado o mel também tivesse ganho a briga e expulsou wakinu. mas wakinu não era mau, ele só gostava muito, muito de mel, e ficou muito triste. todos ficaram com pena dele, mas ele tinha que ir embora. e ele foi. foi chorando muito, chorando, chorando cada vez mais.

ele andou muito dias chorando e chorando. ele só andava e chorava, não via nada, não comia, não bebia, não nada. só andava e chorava. até que depois de muitos dias andando e chorando, no meio das lágrimas ele começou a ver um monte de estrelas brilhando. wakinu achou tão bonito todas aquelas estrelas juntas e foi seguindo por aquele caminho.

e enquanto seguia por aquele lindo caminho de estrelas, ele, que era um urso grande e pesado, foi se sentindo cada vez mais leve, mais leve, como se dançasse...

bem nessa hora, o wakini que estava lá na aldeia se sentindo muito triste, olhou para o céu e viu. viu seu amigo andando por aquele lindo caminho de estrelas. e chamou todo mundo e disse: vejam, vejam, é wakinu.

e todos na aldeia vieram ver e olhando para cima viram como wakinu, seguindo por aquele lindo caminho de estrelas, sacudiu seu pelo que se iluminou e do seu pelo caíram pontos luminosos enchendo ainda mais o caminho de estrelas.

nunca mais wakinu foi visto na aldeia. mas todos sabem que no fim daquele lindo caminho de estrelas, ele encontrou um pote enorme de mel.

29 de dezembro de 2017

abacate



(gary snyder)

O Dharma é como um abacate!
Algumas partes tão incrivelmente maduras,
Mas são boas.
E outras, duras e verdes
Sem muito sabor, 
Como para os que gostam dos ovos muito cozidos.

E a pele é fina,
O enorme caroço redondo 
No centro,
É tua própria Natureza Original --
Pura e suave,
Quase ninguém o quebra em dois
Ou tenta ver
Se crescerá.

Duro e resvaladiço,
Parece como
Se tivesses que plantá-lo - mas então
Sai disparado entre os
                     dedos --
Se escapa.

 

25 de dezembro de 2017

poema de natal

(vinícius de moraes)




Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

14 de dezembro de 2017

em velhecer

uma vez que a todos nos espera a morte, mais cedo ou mais tarde, envelhecer é uma dádiva, não é uma maldição. mas então por que ao chegar aos cinquenta é mais comum ouvir puxa, mas você não parece ter tanto (embora saibamos todos que nem sempre isso se diz com sinceridade, mas por convenção social) do que ouvir que bom que deve ser chegar aí. é bom chegar aqui. nem todos chegamos. nem todos chegarão. e é um sorteio, nao é um merecimento. e ao mesmo tempo é nada. comparado aos duzentos mil anos do ser humano sobre a face da terra ou os quatro bilhões de anos da própria terra, viver cinquenta ou setenta ou noventa é irrisoriamente indiferente. e no entanto.

1 de dezembro de 2017

quanto

quanto é preciso que envelheça uma galáxia para que contenha um pouco de vida? olhe o céu. e nós aqui, quanto envelhecemos até que enfim estejamos submersos em um pouco de vida? ventos de areia, como rios passando sobre a pele. serpentes cósmicas. há alguma coisa que não estamos vendo. por não conhecer.