28 de fevereiro de 2018

sem pé



minha mãe comentou que estava jogando fora papeis, organizando umas coisas, e no meio disso tudo tinha encontrado a foto de um tio tataravô. ela disse que ao ver a foto tinha se lembrado de mim. pedi que me mandasse a foto. não há muitas fotos de antepassados assim tão distantes e eu não localizava bem quem poderia ser aquele tio tataravô. ela disse já te mando. e mandou. e quando peguei a foto nas mãos, vi que era uma foto em preto e branco de uma urna destas em que se guarda cinzas. liguei de volta e disse mãe, a foto é de uma urna funerária, como é que você pode me achar parecida com o tio tataravô? ela respondeu não disse que você fosse parecida com ele, disse que a foto me fez lembrar de você, mas é por conta da escultura de esquilinho da tampa da urna. olhei e havia mesmo um esquilinho na tampa e talvez a minha cara de espanto fizesse o esquilinho naquele momento ter cara de mim.

19 de fevereiro de 2018

planck lenght


apagando umas notas no telefone, encontro uma palavra que não sei quem não sei quando me pediu para anotar, e buscando imaginar quem poderia ter sido, faço uma busca rápida na enciclopédia virtual e, entre palavras que ao intuir que me dizem tanto mas que não entendo nada, encontro um parágrafo que leio e releio até os olhos se encherem de lágrimas tanto pelo esforço quanto pela dificuldade de compreender e reconheço a capacidade destas palavras de me levarem para um outro mundo, como quando alguém com muita fome pensa árvores mas não pensa rúcula, e num tempo em que não consigo pensar palavras nos temas que antes me interessavam mas que agora me deixam quase apática, a descrição da visualização do comprimento de planck me comove, pois como não me comoveria imaginar – imagine – um ponto de pó de 0,1 milímetro, que é mais ou menos a menor coisa que nós humanos conseguimos ver a olho nu, pois imagine este ponto minúsculo ampliado para o tamanho de todo o universo observável e, ao olhar para todo este universo amplo, imagine um pequeno ponto de 0,1 milímetro, que mais exatamente está dentro do que antes era, em si, um ponto de 0,1 milímetro mas que agora se refere ao universo todo, pois este ponto - o comprimento deste ponto dentro do ponto - é que tem o nome que anotei quando não sei, mas agora claramente sei que quem me pediu um dia foi menor que uma partícula destas, como todos, sei, fomos num princípio assim pequenos mas poucos, bem poucos, foram assim tão mínimos dentro de mim.

13 de fevereiro de 2018

janusz korczak


“A criança que você pôs no mundo pesa cerca de dez libras. É feita de oito libras de água e de um punhado de carbono, cálcio, nitrogênio, sulfato, fósforo, potássio e ferro. Você deu à luz a oito libras de água e duas libras de cinzas. Assim, cada gota de seu filho era o vapor da nuvem, o cristal da neve, da bruma, do orvalho, da água da nascente e da lama do esgoto. Milhões de combinações possíveis de cada átomo de carbono ou nitrogênio.
Você apenas reuniu o que já existia.
Olhe a Terra suspensa no infinito.
O Sol, seu próximo companheiro, está a cinqüenta milhões de milhas.
Nosso pequeno planeta não é mais que três mil milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas.
Sobre esta fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos.
Sobre estes continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais – o ruído dos homens.
Entre estes milhões de homens, está você, que deu à luz a um homem a mais. O que é ele? Um galhinho, uma poeira – um nada.
É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.
Mas este nada é irmão das vagas do mar, do vento, do relâmpago, do Sol, da Via Láctea. Este grão de poeira é irmão da espiga de milho, da relva, do carvalho, da palmeira, irmão de um passarinho, do filhote de leão, de um cãozinho.
Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e que rejeita.
Este grão de poeira encerra em seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o universo, faltando apenas as suas dimensões.
É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele”.

3 de fevereiro de 2018

no caminho de pedras




"el arco de las alianzas ha penetrado en mi nido con todo su colorido se ha paseado por mis venas y hasta la dura cadena con que nos ata el destino es como un diamante fino que alumbra mi alma serena"

10 de janeiro de 2018

na ausência de paisagem




"Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar de sua variedade, ausência de paisagem.
Essa ausência concede a ele sua realidade.
Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.
Não se pode pretender que o deserto seja uma distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real distância e não-distância absoluta por causa de sua ausência de marcas. Ele tem, como limites, os quatro horizontes, sendo o que os liga e os separa. Ele é sua própria separação onde ele se torna lugar aberto; abertura do lugar. Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Não se pode, tampouco, pretender que ele seja o término, uma vez que ele é, igualmente, o começo.
(Edmond Jabès, Este Homem Absurdo, em tradução de Caio Meira)

3 de janeiro de 2018

líquidos, luzes, lentes, escuros.



era um tempo de fotografar, revelar o filme, ampliar.

naquele dia eu tinha pressa, muita pressa.
uma reunião linda de catadores num galpão e até a luz era mágica.
antes de viajar, precisava revelar, selecionar umas fotos, ampliar e entregar.
as fotos já estavam ali, eu sabia.
só faltava a parte manual de enrolar o filme na espiral, meter no pote, líquido um, líquido dois, líquido tres. secador. voilá. depois a luz no papel, outra vez líquido um dois e tres. secar.

entrei no quarto escuro, abri o filme, enrolei na espiral. estranhei por um momento que tudo tivesse sido tão fácil. em geral, na insegurança e no tato a gente sentia se a ponta estava presa no miolo da espiral. e notei que não precisei usar o tato, que dava pra ver que tudo estava perfeitamente encaixado...

nunca mais me esqueci daquelas fotos. da cara das pessoas, da luz, dos pontos de poeira brilhando no galpão sombreado.
também alguns livros. que não li até o fim e permanecem suspensos.
abraços que não foram dados.

há quem diga se fosse colorida seria mais bonita a foto.
há quem diga ponha maiúsculas e mais gente vai ler.
outros: eu, sim, me despedi.

dentro de mim silencio: o imperfeito, o incompleto, o impermanente.
já nem digo: esquecer.

2 de janeiro de 2018

dois ursos



esta é uma história inuit. houve um tempo em que eu a repeti várias noites seguidas. porque me pediam.

havia dois ursos, o preto – wakini - e o cinza – wakinu.

eles eram amigos.  wakini ficou muito tempo juntando um pote de mel e veio wakinu e roubou o mel. eles brigaram e wakinu ganhou a briga.

o chefe da tribo não achou justo que o que tinha roubado o mel também tivesse ganho a briga e expulsou wakinu. mas wakinu não era mau, ele só gostava muito, muito de mel, e ficou muito triste. todos ficaram com pena dele, mas ele tinha que ir embora. e ele foi. foi chorando muito, chorando, chorando cada vez mais.

ele andou muito dias chorando e chorando. ele só andava e chorava, não via nada, não comia, não bebia, não nada. só andava e chorava. até que depois de muitos dias andando e chorando, no meio das lágrimas ele começou a ver um monte de estrelas brilhando. wakinu achou tão bonito todas aquelas estrelas juntas e foi seguindo por aquele caminho.

e enquanto seguia por aquele lindo caminho de estrelas, ele, que era um urso grande e pesado, foi se sentindo cada vez mais leve, mais leve, como se dançasse...

bem nessa hora, o wakini que estava lá na aldeia se sentindo muito triste, olhou para o céu e viu. viu seu amigo andando por aquele lindo caminho de estrelas. e chamou todo mundo e disse: vejam, vejam, é wakinu.

e todos na aldeia vieram ver e olhando para cima viram como wakinu, seguindo por aquele lindo caminho de estrelas, sacudiu seu pelo que se iluminou e do seu pelo caíram pontos luminosos enchendo ainda mais o caminho de estrelas.

nunca mais wakinu foi visto na aldeia. mas todos sabem que no fim daquele lindo caminho de estrelas, ele encontrou um pote enorme de mel.

29 de dezembro de 2017

abacate



(gary snyder)

O Dharma é como um abacate!
Algumas partes tão incrivelmente maduras,
Mas são boas.
E outras, duras e verdes
Sem muito sabor, 
Como para os que gostam dos ovos muito cozidos.

E a pele é fina,
O enorme caroço redondo 
No centro,
É tua própria Natureza Original --
Pura e suave,
Quase ninguém o quebra em dois
Ou tenta ver
Se crescerá.

Duro e resvaladiço,
Parece como
Se tivesses que plantá-lo - mas então
Sai disparado entre os
                     dedos --
Se escapa.