17 de dezembro de 2012

porto (de rio)


o desejo um mundo e como um mundo um círculo seu beijo me afasta de mim num longo caminho e quanto mais distante mais próximo de mim eu sigo seu corpo meu navio

11 de dezembro de 2012

receitas vegetarianas - como matar uma galinha

queria que esse cachorro fosse meu, pensou. alguém disse ele já é seu. entendeu que há muito seu pensamento não se continha espaço quintal próprio de pensamento e escapulia pelo buraco que se abria boca na cerca. é preciso mantê-la ocupada, a boca: palavra ou comida preenchem o vão. como ninguém disse nada, entendeu que ao abrir o portão pro pensamento o pensamento preferiu o galinhar em círculos o ciscar, ignorando o mundo fora.
uma galinha. percorreu o terreno com os olhos a mais gorda a nem tão velha. foi em sua direção como se passeio e a galinha a ciscar. buscou milho no cesto da porta da oficina e o milho quirera a se aproximar da galinha a galinha a se aproximar milho comida até que a ciscante ali próxima. então ele se abaixou e com a mão firme e segura num movimento rápido pegou a galinha pelos pés – os dois – e os pés dela presos entre os dedos dele de nós e ela nada. a galinha cabeça virada mundo abaixo nem se movia mais, esforço nenhum a olhar o mundo em seus olhos miúdos, nem um cisco.
pegou uma corda ali mesmo meio barbante, prendeu nos pés da galinha – os pés juntos – e logo a pendurou num galho da goiabeira onde nenhuma fruta. a galinha pendida, o sangue a se juntar na pequena cabeça a zonzear a galinha que já não cisca. alguém gritou pai, vai matar a galinha? ele pensou a lâmina lisa fio e firmeza no pescoço da galinha. o sangue a se esvair. e a galinha pendurada à espera. não respondeu.
cada vez que ela pedia preciso comprar umas roupas, e nunca, ainda que fosse, dizia calcinhas ou sutiãs, ele sabia, na palavra, que ela outra vez encantada­. para nenhum dos dois era fácil dizer coisas e só assim se diziam. como ela disse uma vez  nunca mais eu quero ir. ou nunca mais eu quero ver. e era um lugar que ela já tinha gostado tanto. agora nos olhos da galinha ele via o mesmo nunca mais quero de outras horas. eram muitos os nunca mais ao longo dos dias que viveram juntos.
galinha, por exemplo, não chora. seus olhos brilhantes são secos, ásperos e agudos. não há lágrimas nos olhos da galinha que pende da árvore. não há constatação do medo. vê o mundo do avesso e não se espanta? vê o mundo ou o mundo um conjunto de tons e cinzas que são terra e mato e sementes outra vez terra palha a juntar ninho. o que a galinha vê.
ele, quando pode, chora. por dentro também, e também os olhos, fora. vê a galinha e sua ausência de medo. as penas douradas quase. a pele sob a penugem. a espera. galinha pendida sobre o mundo. ele olha. também espera. não está pendido sobre o mundo? ou o mundo. o que ele vê além da galinha? os passos no quintal o cão que ele queria já sendo seu. o menino brincando nos blocos perto da oficina. a memória de uma filha quando era menina e esperava e buscava e brincava que era maior que o mundo. como ele agora. como a galinha que não se sabe mundo. ele espera. a galinha espera. a filha já não espera. ela também senhora de netos avó meio gorda e meio plácida de dedos todos doces. aquele menino ali, gerado no fio que ela, por ela, vida engendrada e espera.
sem notar, sabe que decide. pega a faca. rasca a faca na pedra grande de amolar. um lado. outro lado e ali o fio no metal. um frio a galinha pendida. a faca de lado e ele bate no pescoço da galinha para o sangue ainda mais pulsante, segura a cabeça e a puxa para o chão. na delicadeza, o estiramento de um arco a faca ponta flecha morte a disparar galinha. quando antevê, repensa. solta a cabeça da galinha, alivia o tenso do pescoço também dela. a galinha olha. quando uma galinha olha, um frango, um pinto que seja, a vida tem outro seguimento. nada de sangues a se derramar.
contempla a galinha ainda um tempo, depois desamarra a corda da goiabeira, desata os nós dos pés tortos e rudes e esporas da galinha que tonteia tonteia e por fim se equilibra na fronteira entre a espera a morte o movimento retomado o pé na terra. lá vai a galinha que segue galinha em circulação e sangue: um pé outro pé um cisco.
ele também rareia a mão no ar e vai buscar frescores na horta chuchus, abobrinhas, tomatinhos, cebolinhas, manjericões. e mornidões: uns ovos . se senta junto à mesa tosca e torta do puxadinho lá no fundo, a picar e picar coisas. depois, acende a boca de fogo única daquele fundo vazio de casa, e numa frigideira a frigir. o branco das cebolinhas em rodelas os tomates metades abobrinhas em fatias finas o chuchu pedacinhos e mais frigia. enquanto frigiam, batia os ovos e depois os acrescentava, revirava tudo, a frigir. depois o manjericão em seu aroma de verde inunda o mundo todo pensamento.
o menino vem para comer ao seu lado. mergulhado num  silêncio estranho de meninos.
dá uma garfada e sabe – meu pensamento já foi lobo devorando carneiros raposa comendo coelhos o gato um rato vaca pastando sol galinha ciscando o meu pensamento. meu pensamento.
o menino, uma garfada mastigando e outra já no ar a boca cheia olhos olhos diz: vô, aquela galinha ali ciscando, aquela galinha, ela sabia que ia morrer?

10 de dezembro de 2012

ventos




é preciso abrir o coração. se não o fizer, nós o faremos, eles dizem.
um pequeno vão sob as costelas, aquelas, as mesmas que um dia o deus dos homens usurpou para criar uma eva que também não sou.
e tudo isso que afinal eles dizem veneno eles dizem proibido – pode ser – nem preenchem vazios repare – pode ser – o seu contrário que abrem espaços do que não somos ainda que pareçam expandir-nos.
é preciso. eles dizem: isso, do coração. e nós o faremos.

4 de dezembro de 2012

sobretudos



num balão a leveza está sob os pés. 
pendidos num cesto de vime o vento não nos venta, leva. 
quando dentro do vento sem resistência, o vento não é vento. 
somos sobretudo um mesmo movimento, o tempo sobre a face da terra. 
sobre tudo o que é a terra.