3 de janeiro de 2023

no texto dos outros

(Edmond Jabés)

Um dia me dei conta que uma coisa me importava mais que as outras: como me definir como estrangeiro?

E isto foi o objeto do livro que intitulei Um estrangeiro com um livro de bolso sob o braço.

Em seguida me dei conta que, em sua vulnerabilidade, o estrangeiro podia contar tão somente com a hospitalidade que o outro poderia oferecer.

Assim como as palavras se beneficiam da hospitalidade da página em branco, e o pássaro da hospitalidade incondicional do céu.

E é o objeto deste livro.

Mas o que é a hospitalidade?



2 de janeiro de 2023

quando eu ainda era surda



nas noites de ano novo me lembro sempre de uma vez em que os meninos eram pequenos e estávamos na casa dos meus pais,. da varanda da casa, olhando pra direção do mar, dava pra acompanhar a explosão dos fogos de artifício. os meninos não estavam acostumados a ficar acordados até bem tarde, tinham aflição com multidão e muito barulho. estar ali, sentados no aconchego da casa e poder ver no céu o espetáculo dos fogos, era uma boa solução. eu já sabia que os cães não suportam estes barulhos, mas andava ainda um pouco surda pra o que não fosse animal humano. e por estar um pouco surda, podia assistir a explosão de cores no céu.

meu pai tinha sido químico. e sempre gostou de explicar as coisas pra nós. também nessa noite, olhando as cores que explodiam, ele explicava pros meninos que elemento químico gerava cada uma daquelas cores. nunca entendi muito bem como se faz um fogo de artifício, como se organiza os intervalos entre as luzes, mas naquela noite eu sabia exatamente o nome de cada um dos elementos químicos que geravam explosões em cor.

com o tempo me esqueci disso também.

com o tempo permaneceu a sensação do aconchego daquele ano novo. estar entre as pessoas que eu amava e ver nos olhos o brilho de aprender a grandeza do mundo e de se alegrar com a explosão da luz.

agora, que já sou surda aos sons, me comove a memória.

1 de janeiro de 2023

dois mil e vinte e três

o ano começou quieto, lento. como um riozinho que mal se vê entre pedras e folhas caídas. o brilho da água. o murmúrio. o que vem depois a gente nunca sabe.

o tempo é sempre um presente que vai se abrindo aos poucos e aos poucos vai se revelando. abre-se a primeira aba de papel e parece uma estatueta de elefante. não, não é. abre-se outra aba e o que parecia uma estatueta de elefante é a ponta de uma tampa de um bule talvez. mas, não. outra parte do papel se desdobra e o que parecia a ponta de uma tampa de um bule é o encosto de uma poltrona, ou é o portal de uma cabana, ou a porta, simples e direta, de um túnel escuro e frio.

o tempo, este presente que vai se desdobrando, nunca deixa de nos surpreender.

que 2023 seja um presente bom. mas se for escuro e frio, que seja também bonito porque "iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás"...