3 de abril de 2020

minha avó me vê


enquanto dou voltas no apartamento, subo e desço degraus inventados, me sinto um animal  na jaula. depois penso que se algum dia eu voltar a ir ao zoo, vai ser como se eu me reconhecesse em cada bicho. vou me observando. às vezes penso que estou serena e tranquila. outras vezes sei estou à flor da pele.
anoto-me. 

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dentre as anotações, as dos sonhos.
por exemplo, esta noite sonhei que precisava cuidar de dois chimpanzés filhotes, que eram irmãos e falavam muito. o lugar era árido, cheio de pedras grandes. na hora de dormir, os dois ficavam se cutucando e não dormiam. um deles veio deitar comigo e ficava pegando na minha orelha, no meu nariz e eu, querendo dormir, segurava a mão pequena do chimpanzesinho, mas ele não parava. então, apareceu a mãe deles, e enquanto ela falava comigo, olhei para ela e ela tinha os olhos da minha avó. depois entendi que ela era a minha avó. mas também era um chimpanzé. 

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o tema da pandemia também chegou nos meus sonhos. logo depois sonhei com um hospital, cuidados com doentes, gente que punha travessas de comida em cima das camas onde os doentes também estavam, todos com máscaras. e angústia. 

o bom e o ruim dos sonhos é que a gente sempre acorda. ou quase sempre.

2 de abril de 2020

listas da morte


aos poucos, chegam histórias de horror, como se a morte, qualquer morte, em meio a esta pandemia já não fosse suficientemente horrorosa, uma vez que quem morre não tem uma mão para segurar e quem fica não pode se despedir, não tem como viver o luto com serenidade. não há serenidade nestes tempos.
leio que como não há possibilidade de se atender todas as pessoas que precisam ser entubadas, em alguns países as equipes médicas já tiveram que tomar decisões duras entre uma vida ou outra. hoje também soube que uma mulher de 90 anos abriu mão do respirador para que outra pessoa mais nova pudesse usar, argumentando que já tinha vivido o suficiente. e morreu.
sei que há beleza neste gesto, mas sei também que é uma situação que não deveria existir: não faz sentido algum alguém ter que escolher entre a manutenção de uma vida ou outra, cada um é um, uma coincidência única no tempo e no espaço.
me faz  lembrar alguns casos nos campos de concentração nazistas, em que algumas pessoas de fora dos campos se ofereciam em troca de quem estava lá dentro. especialmente no lugar de crianças que seriam mortas. e a troca se fazia. como assim? se havia alguém que cuidava das mortes, e aceitava um voluntário para morrer no lugar de outras pessoas, como é que esse alguém  seguia matando, como é que não se dava conta do absurdo de contabilizar as mortes, do absurdo de matar?
mais recentemente o aplicativo de uma rede social também anunciava: para cada centavo que o usuário doasse, a empresa dona da rede social, também doaria um centavo. por que a empresa não doa de uma vez? por que fazer o usuário (em geral a ponta frágil e pobre de um grande mecanismo) se sentir responsável por uma coisa que não é sua responsabilidade? se a empresa tem dinheiro, que doe. ou que pague mais impostos. ou.
e sei também que não é o acaso  que vai definir as mortes nesta pandemia. há um cálculo concreto que leva em conta quanto se investiu em leitos de uti, em pesquisa, em políticas públicas de saúde em cada país ou região. é isso que definirá se haverá mais ou menos mortes entre as diferentes coletividades do mundo.
e quanto menos leitos de uti, mais será preciso fazer listas. não serão listas de desejos como fazem as crianças para lidar com a imensidão do mundo, mas listas perversas, que alguém terá que fazer, colocando vidas na balança: e que vida vale mais? e quem quer ser este alguém que vida segue viva e qual vida se acaba? quem quereria ser este anjo da morte. e, depois, quando ultrapassarmos esta voragem,  quem vai lidar com o pesadelo desta gente - dos que sobreviveram às custas de outras vidas, e dos que tiveram que tomar a decisão?
não há nada neste e nos próximos momentos que não diga respeito a todos nós.
acendo uma vela.
e espero.

1 de abril de 2020

nos dias cinzas


antes, parecia que os dias ensolarados pioravam a sensação de estarmos fechados em casa. mas agora que já passaram tres dias cinzas, frios e chuvosos, acho que os dias de sol pelo menos davam ânimo para tocar o cotidiano.  além disso, com a chuva, é como se as folhas das árvores crescessem mais rápido e,se seguirem neste ritmo, daqui a pouco não veremos nem os vizinhos na hora dos aplausos. as figuras já difusas se reduzirão a uma cumplicidade sonora. e só.

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se isso fosse uma guerra, haveria o dia em que a paz seria declarada e todos teríamos a falsa ilusão de tudo voltar ao normal. ainda que nunca tenha havido nenhuma normalidade. mesmo porque a imagem das pessoas saindo às ruas para comemorar o final de uma guerra, desde que me chegam notícias de guerras de verdade, só me parece possível em filmes. quando se declara o fim de uma guerra, está tudo tãp destruído e ninguém nunca é vencedor.
e como isso é um vírus, não uma guerra, não haverá um armistício, um cessar fogo decretado. não se suspenderá a quarentena num momento específico, a partir do qual poderemos sair pras ruas, nos ver e abraçar e compartilhar espaços, como se nada tivesse acontecido. não. se a quarentena caiu de um momento a outro sobre nossas vidas, sair da quarentena será lento. e ainda vai demorar. o pior ainda não chegou. nem nesta cidade nem no mundo.
não quero pensar no pior.

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enquanto isso damos voltas na jaula, inventamos paisagens e procuramos adivinhar o que acontece nos lugares do mundo onde nenhum de nós está.

31 de março de 2020

onde a vista alcança


é o medo da morte que nos faz ficar em casa.
por mais voltas que dê meu pensamento, é nesta conclusão que chego. a morte é a única força que nos imobiliza tão rapidamente.
aqui, por exemplo, nos primeiros dias ainda passava um carro de polícia chamando a atenção de quem estava na rua. mas, agora, faz tempo que não passa ninguém. nem por isso as pessoas saem. não acho que seja solidariedade, não. acho que é medo, mesmo. da morte.
as notícias são suficientemente vagas e aterrorizantes para deixar claro que o vírus pode atingir qualquer um, que as estatísticas procuram explicar em que casos é uma doença fatal, mas de vez em quando aparecem as exceções e fica mais do que óbvio que todos podemos ser alcançados e não haverá lugar suficiente nos hospitais. daí que o nosso medo de que os hospitais fiquem superlotados é o medo de precisarmos de hospital e não encontrarmos lugar. nós e nossos .... (e no lugar dos pontinhos você pode completar com filhos, pais, amigos, irmãos...) como costuma ser a solidariedade: alcança as pessoas que estão de alguma forma no nosso entorno.

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penso na trilogia do kieslovski: azul, vermelho e branco. (no brasil ficou conhecida por a liberdade é azul, a igualdade é branca e a solidariedade é vermelha. ou alguma coisa assim.) gosto sempre de ver os três filmes em sequência e na ordem em que foram feitos. por mais vezes que já tenha visto os filmes, sempre que chego no final do vermelho, me dou conta do quanto  kieslovski me desmonta e me expõe à minha pequenez: como todos os personagens conhecidos se salvam, a sensação que se tem é de um final feliz, e não nos importamos com a mega tragédia que mata milhares de pessoas, que não conhecemos. quando a gente sonha algumas coisas “para o mundo” em geral sonha só até onde a vista alcança.
esse momento em que cada um de nós está trancado num quadrado e vendo só o que as telas nos deixam ver,  me dá um pouco de claustrofobia, porque a vista alcança pouco.

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uma amiga me escreve que agora, que não sai de casa, tem todo o tempo do mundo para olhar as plantas e assim pode acompanhar uma folhinha de manjericão crescendo aqui, um galinho de hortelã ali.
é, talvez seja tempo pra isso, mesmo, ver o que cresce em surdina. e se ficássemos todos em silêncio saberíamos o som do crescer das nossas unhas e cabelos. muito além de onde a vista alcança.

suspiro.

30 de março de 2020

imagens de cavalos nas planícies nevadas


no final de semana fiquei pensando que isso, este confinamento, é um tipo de exílio, um estar fora do território em que normalmente se vive, e não porque não queremos seguir onde estávamos, mas porque não podemos. não podemos estar no espaço comum, sob o risco de nos matarmos uns aos outros, de provocarmos um colapso no sistema. ou em nós mesmos.
o exilado sempre se pergunta se não deveria voltar para o lugar de onde saiu, se pergunta sempre se a lembrança que tem da falta de condições para estar vivo não seria fruto da sua imaginação, se pergunta se de verdade estava ameaçado, uma vez que as maiores ameaças à vida humana são quase sempre invisíveis ou difusas. do que é que escapamos quando nos exilamos? e quando nos isolamos, o que é que encontramos. nem todo mundo se exila ou se isola porque quer.
na guerra, por exemplo, há campos de refugiados, há campos de concentração, campos de prisioneiros, campos de trabalhos forçados, sanatórios para tuberculosos, hospitais de campanha onde se morre sem um último gole de água. e há os campos de batalha. há muito produzimos grandes campos de batalha: extensões imensas de territórios  abandonados à própria sorte. que medo é este agora de que o sistema colapse se a vida de tanta gente há tanto tempo está colapsada, pessoas isoladas em ilhas de impossibilidades.
ilhas. é isso. é como se estivéssemos em ilhas desertas. ainda que o imaginário da ilha deserta nos desperta listas: quem você levaria, os livros, os filmes, os objetos, as comidas, robinson crusoé e sexta-feira, a ilha do tesouro, a ilha perdida, o que temos concretamente é quem lute contra ratos, outros contra fantasmas. alguns sozinhos, quase todos acompanhados. uns buscando manejar o tédio, a maioria buscando dar conta de não enlouquecer no espaço reduzido demais para tanta gente e pouca comida.
amontoados ou sozinhos, neste momento, repare, tudo o que sabemos do mundo nos chega pelas telas: de computador, de televisão, de celular. de presencial, no máximo a tela da janela que mostra a explosão silenciosa da primavera neste hemisfério, ou dias mais secos e azuis no sul, ou ainda os dias sempre quentes e úmidos, sempre do mesmo tamanho para quem está na linha do equador.
procuro nas telas imagens de outras janelas.
uma amiga, por exemplo, resolveu fotografar o fim da tarde de cada dia da varanda da sua casa. gosto de saber que verei a variação de dias que parecem sempre iguais.espero que ela prossiga.
há quem fotografe tudo o que ve a partir da própria janela: os vizinhos, os espaços vazios.
e há também imagens das janelas do mundo.
como uma foto que vi logo no começo da epidemia: um grupo grande de pessoas com máscaras sanitárias montadas em cavalos correm no meio da neve. li na legenda que eram representantes do governo chinês indo para regiões remotas para avisar do covid19. desde que vi a foto me pergunto se levar a notícia não seria o mesmo que levar o vírus, uma vez que não sabemos se este vírus atravessa planícies nevadas a cavalo.se sei o que está acontecendo já estou também de alguma maneira implicada no que sei?
me lembrei da história de uma família que ficou várias décadas isolada num lugar remoto da sibéria, sem saber que a guerra já tinha acabado e o mundo, não. 
sei que pessoas morrerão sozinhas em suas casas. sei que há pessoas de quem ninguém sente falta. sei também que a vida passa. a vida passa, atravessa a gente, e segue sendo vida, sempre um mistério.
no mais das vezes, já não sei nada.