não sei a língua dos anjos.
nunca beijei nenhum.
a vida passa mais devagar e a gente vê
***
teu coração baterá cerca de tres bilhões de vezes e três bilhões de intervalos silenciosos haverá na sua vida. o som e o silêncio alternando-se como um ponto de bordado visto do lado direito e do avesso. qual dos lados fica em silêncio?
quem adivinharia as fomes da minha avó? quem veria as fomes da minha mãe? uma neblina densa nos cega e não vemos as crianças na beira de um mundo que se esfacela.
minha avó dizia para minha mãe que dizia para mim e minhas irmãs: não olhe para o lado ruim da vida, e desviávamos a vista do medo, do assédio, dos acidentes. vivíamos docemente instaladas num coração que nada vê por não conhecer as sombras.
foi preciso um raio, um talho na pele inflada e túrgida, para que a ferida purgasse os vermes, os venenos, os estupros, a dor.
para que, enfim limpa, a ferida fosse fome.
a fome que move o mundo, não a que o mata e nos devora desde dentro.
noite destas sonhei que uma lagarta verde incrustada no meu antebraço esquerdo era meu pai me lembrando alguma coisa que assim que acordei já não sabia mais o que era.
amanheci descompassada com o dia, ainda me arrastando dentro do sonho enquanto buscava com pressa alcançar o tempo que se antecipava e rompia copos e ritmos, os ritos e as palavras gentis.
quando enfim eu disse como aquela que disse que iria ela mesma comprar as flores ainda que não fossem flores que eu quisesse, quando eu disse vou eu mesma, e saí, nas ruas vi que nos braços esquerdos de todas as pessoas havia uma lagarta verde incrustada como lembrança de alguma coisa que nossos pais tinham dito não se esqueçam, e nós nos esquecemos.
umas crianças imóveis com o olhar meio morto esperavam nas calçadas enquanto nós nos mantínhamos ocupados tentando decifrar o mistério das lagartas.
não reparamos nas crianças, nem notamos que pouco a pouco todos nos dissolvíamos numa neblina densa. no ar o cheiro das carnes que apodrecem depois da explosão.
sentado ao meu lado
aprende as palavras pela repetição.
abro a janela e, quando entra o sol, digo: que dia bonito...
e ele repete: bonito...
e a palavra ecoa: bonito...
dias depois, sentados diante da mesma janela,
comento: que dia azul!
e ele repete: azul!
na minha mesma entonação de felicidade.
passa muito tempo até que
diante de uma caixa de tintas,
separando uma delas, diga: azul bonito.
eu repito concordando: esse azul é mesmo bonito
e guardo em mim um lampejo de alegria.
terão passado mil anos quando finalmente diz
que gosta, mesmo, é do rosa
e dos dias cinzentos de chuva.
e nós duas sorrimos.
aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a minha avó, que aprendeu com a guerra, a cozinhar com o que se tem em casa, não desperdiçar e aproveitar o que se pode encontrar: na geladeira, nos armários, no quintal, na beira dos caminhos. parece simples, mas exige uma certa arte para combinar sabores, cores, consistências. às vezes fica muito bom. outras vezes nem tanto. e umas poucas vezes chega a ser difícil de engolir. porque nem tudo combina com tudo. algumas vezes nos vencem o ódioi, o mofo ou as bactérias.
ultimamente me vejo fazendo poesia assim, aproveitando restos, palavras, silêncios* que não couberam em nenhum texto, canção, carta que eu tenha escrito. então, reúno tudo o que sobra, ponho sobre a mesa e busco um ritmo, uma imagem, uma estrutura que os conecte e nos ajude a estar “um milímetro de ar acima do chão”**. não é fácil. tenho falhado sistematicamente nisso de reunir estas palavras que sempre são tratadas como as sobras das sobras, aquilo que ninguém quer.
quando ele começou a falar, também começou a perguntar "por quê?" de tudo, tudo. e nunca mais parou de perguntar. a vida levou por caminhos nem sempre fáceis de compreender, mas ao olhar para trás vê-se muita beleza. dia desses foi sua formatura numa graduação dupla de física e filosofia na universidade de st andrews, no reino unido. foi bem emocionante. um tanto pela graduação com as cerimônias que gostam de lacrimejos, e um outro tanto, bem maior, por ver alguém se fazendo, se formando gente, se buscando e se encontrando, um processo contínuo de formação e perguntas. muitos que aquí me lêem me conhecem bem antes do chico ser., depois o conheceram na barriga, acompanharam a aventura de nascer, crescer, respirar, seguir respirando. e se ele vai se tornando quem é, isso também é resultado de quem está nas nossas vidas, dos que passaram e já não estão, dos que permanecem, de todos que deram pitaco, que deram apoio ou bronca, que cuidaram, que educaram, que alimentaram, e, principalmente, de todos que tiveram paciência para ajudá-lo, se não a encontrar respostas, ao menos encontrar os caminhos que o levem às respostas e aos porquês.
como digo sempre, as crianças não são da mãe e do pai, são do coletivo humano que somos. a este coletivo agradeço todo o apoio para chegarmos até esse momento com esta nossa cria.
contar uma história sempre nos pede uma decisão de onde recortar o tempo vivido, onde dizer aqui começa e onde o aqui termina. esta é uma história bem pequena, de um acontecimento que quase não tem importância para o momento-mundo que vivemos, e ao mesmo tempo é uma reserva de não-inferno, porque são estas reservas que nos fazem seguir respirando e buscando uma nova maneira de estarmos vivas.
há alguns meses alguém me mandou uma mensagem perguntando se poderia me apresentar uma proposta de um projeto coletivo que envolvia poesias e joias. minha primeira reação foi: será que eu conheço esta pessoa e não me lembro dela? e a segunda reação foi pensar que eu não sou alguém que se interesse muito por joias, se joias forem ouro e pedras preciosas. sou mais de tucum e outras sementes, contas de vidro e miçangas. mesmo assim, fiquei curiosa e topei receber o convite.
não, eu não conhecia a pessoa que tinha me convidado.
a proposta era simples: vinte e duas palavras disparadoras para vinte e duas joalheiras que dialogariam com vinte e duas poetas. o resultado final de cada parceria seria uma obra composta por uma joia e um poema.
não costumo escrever poesia por encomenda, acho dificílimo. mas como tem sido difícil escrever, e os diálogos sempre me levam a lugares inesperados (e eu gosto disso) topei.
minha parceria seria uma joalheira alemã. e nossa palavra disparadora seria “mãos”.
escrevi para ela propondo um café para que nos conhecessemos, imaginando que vivia na mesma cidade que eu. me respondeu em outra língua, explicando que não sabia escrever na língua que eu tinha escrito e que morava bem longe de mim. faríamos tudo por escrito.
como dependeríamos de um mecanismo de tradução, decidimos que cada uma escreveria em sua língua materna, para que o texto fosse fluido: ela em alemão e eu em portugues. (sim, eu sei, os mecanismos de tradução não são perfeitos mas seriam suficientemente bons para esta correspondência que inspiraria uma joia e um poema.)
e foram várias semanas de trocas, pensamentos, ideias em torno de mãos, de heranças, de origens, do significado da continuidade, do nos vermos refletidas nas que vieram antes de nós, nas que nos são contemporâneas, no que sentimos sobre palavras, pedras, joias.
sempre que eu enviava o meu email, sabia que em algum momento entraria um “liebe veronika” e eu conheceria um pouco mais da “querida julia”.
ela não sabia bem que joia fazer. me explicou a origem das pedras que usava, eu comentei um pouco do meu jeito de escrever. mandei para ela o meu poema “as mãos da minha mãe”, porque me parecia que tudo o que eu poderia dizer sobre mãos estava ali.
e na medida que o tempo passava, algumas palavras foram ganhando mais presença na nossa troca de correspondencia. e eu comecei a guardar estas palavras, uma lista, como quando eu escrevi as letras para as composições do remo.
ela me mandou fotos das pedras e das suas mãos trabalhando as pedras.
também eu compartilhei fotos das minhas mãos.
vi seu sorriso.
e revi tudo tudo tudo o que para mim querem dizer as minas - a nossa história de colonia e escravidão, as serras peladas, as violências, as misérias, o desmatamento e tudo tudo tudo que acompanha. a desigualdade no mundo. mas pensei também no quanto tudo isso é decisão. decisão: caminhar ou não no escuro à procura de luz.
e escrevi uma primeira versão.
e julia me mandou uma primeira ideia do que faria com as ágatas.
avancei no meu poema enquanto ela avançava na joia que seria composta por duas partes, que poderiam ser levadas pela mesma pessoa, como quem cruza as mãos sobre o peito, ou levadas por duas pessoas diferentes, que se dão as mãos, que se conectam e conectam seus destinos.
ela me mandou fotos da joia pronta e eu mandei o poema traduzido para o ingles (porque os tradutores automáticos não sabem traduzir poesia) e mandamos as duas partes da obra - joia e poema - para a galeria onde seria a exposição.
no final de maio, na abertura do 22 Mudanzas na Galeria Amaranto, fui lá ver joia e poema expostos juntos, formando um todo no meio de outras obras.
sempre me emocionam as ações conjuntas, alguma espécie de coletivo. escrever pode parecer muito solitário, mas nunca é. a origem é uma multidão e o destino também. mesmo quando a gente acha que está escrevendo pra gaveta.
uns dias depois da abertura da exposição, houve um recital, com a presença de várias das joalheiras e várias das poetas. e foi muito bonito. uma casa com quintal e árvores que me lembrava a casa onde morei quando as crianças eram pequenas, gente amorosa, bem humorada, querendo ver e saber e escutar. eu sabia que julia não viria. mas foi como se estivesse. botei no meu peito uma parte da joia e marta, uma amiga que se dispos a ler o poema em castelhano, botou a outra metade em seu peito. um broche de ágata conectando linhas e luzes, cruzando caminhos. e um poema que fala disso, de mãos.
não sei bem onde esta história começou nem onde vai terminar, mas o que eu tinha para contar agora era isso, esse momento diáfano no meio do caos. e as nossas mãos.
agradeço à marina gurman e à grego garcia pelo convite.
e à julia obermaier pela parceria.
se quiser conhecer as obras que compõem o 22 Mudanzas, visite:
https://amarantojoies.blogspot.com/2025/05/22-mudanzas.html