3 de maio de 2018

ao sol


dia desses, sentada ao sol na praça do rei, me dei conta que fazia figuração pras fotos dos turistas. eu e umas tantas pessoas, nosso intervalo  de um dia qualquer e ninguém se pergunta  quem somos por que esperamos por que um de nós chora num canto quem é este mendigo. os turistas chegam, sobrevoam, riscam de sua lista “praça do rei”.  há grupos de turistas instalados em alguns pontos da cidade. olhando com atenção é possível notar que os grupos parecem permanecer, mas a cada vez são outros. os turistas, todos tão iguais. eles vão, a gente fica, sentado nas escadarias da praça do rei num intervado de um dia qualquer. fazendo figuração. entre eles, há adolescentes de pernas desproporcionais, movendo-se, como bandos de pombas quando se joga umas migalhas de pão. o gótico. o tempo. penso na morte. nesse exato momento ao sol sei que figurantes, adolescentes e turistas evitam pensar na morte. porque sempre evitamos o pensamento morte entre um cigarro e outro uma foto e outra um dia e o seguinte mesmo que os sonhos a cada noite se tornem pesadelos e horror. neste, e em todos os momentos, queremos ser sempre eternos. sorrisos congelados. fumaça de cigarros. na praça do rei. ao sol. 

no centro de são paulo um prédio desaba. eram cento e cinquenta famílias. quarenta e nove mortos e há quem condene os que não voltaram para salvar seus bichos.

23 de abril de 2018

baba yaga baba vanga


nas montanhas de rupite, na bulgária, antes da primeira guerra, nasceu uma menina. crescia como todas as meninas. até que uma tempestade a arrastou por quilômetros. foi encontrada num bosque, os olhos, que haviam sido azuis, ficaram cheios de pó e areia.  cegos. cegos para o mundo tal como o vemos. em sua cegueira, começou a dar notícia de futuros, vivos e mortos. em seus olhos fechados ela via fora do tempo, além do tempo. antes de morrer, ela diz: uns anos mais e faremos pactos construindo uma sociedade comunista em que a natureza será recuperada. que trezentos anos mais e saberemos o que é viajar no tempo, que a terra não será mais habitável mas os humanos seremos bilhões e imortais e poderemos falar com deus. no ano cinco mil este universo terá fim.
buscava uma foto que vi no consultório do dentista mas que na hora não me pareceu tão marcante e agora. nas primeiras páginas da revista, havia a imagem de uma medusa muito delicada, que a um simples toque se pulveriza. na foto, a medusa -  ou eram muitas medusas? – parecia uma galáxia luminosa mergulhada na escuridão, ou parecia as fotos que se divulgam quando se anuncia galáxias distantes e sabemos que estas fotos foram coloridas artificialmente, para que acreditemos, tanto quanto pintam as fotos do sol – que é branquíssimo – usando tons de amarelo e laranja, para que não duvidemos do que os olhos não veem.

14 de abril de 2018

orides

quando na adolescência o umbigo é enorme, me lembro de achar que eu é que tinha nascido em tempos ásperos. o tempo era de pobreza e ditadura no brasil, ocupação soviética na hungria (de onde minha família tinha saído), a guerra fria como uma lâmina sobre o pescoço do mundo. o mundo injusto. o mundo em guerra. e nas histórias que ouvia, me surpreendia que houvesse amor na guerra. que pudesse haver quem se apaixonasse quando tudo bombas e escombros, que tivesse filhos na fome, que cantasse na dor, que escrevesse poesia nos horríveis tempos da guerra. depois, bem depois me dei conta que o mundo está todo o tempo em guerra. em guerras. no meio das guerras nascemos e morremos e, de uma ponta a outra, a vida.
cresci e os pés no chão me lembram o tamanho que sou. o tamanho de todo ser vivente, existente. a guerra, as guerras, e a gente canta. a gente ama, tem filhos ou não tem, cuida de uma planta, um bicho. cada um percorre os dias, o ar entra e o ar sai dos pulmões. no meio disso que vemos guerra, é possível abrir espaços para o que não é guerra. sementes de espaço-tempo de não guerra.
pensando nisso é que consegui me organizar para ler poesia nestes tempos. ler orides.
porque alguém um dia entrou estrangeiro numa livraria em são paulo, pegou um livro quase ao acaso e o abriu. e o leu. e alguma coisa ecoou. o poema de orides escrito muitos anos antes sobreviveu como uma semente de possibilidades.
e pelos caminhos que a vida nos leva, estou aqui, vivendo o momento em que a obra de orides é traduzida para o catalão por aquele um alguém que a encontrou ao acaso.
mesmo que os tempos sejam de guerra, respiro e cuido sementes.
 

“Semeio sóis
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.
Não me importa a colheita.”
(Orides Fontela)

5 de abril de 2018

falta de censo


tantas pessoas morrem e a gente não sabe quantas nascem fazem parte da nossa vida e a gente nem: uma luz se acende no andar de cima se apaga quarto ao lado ninguém vê os dias que passam manhã tarde noite um café um passeio na praia a gente não sabe a cara do vizinho quem vive perto quem vem de longe as luzes que se apagam que se acendem no inverno mais cedo no verão este calor e há quem sinta frio e há também quem diga eu sinto eu desisto. quantas pessoas. quem sabe.

18 de março de 2018

na pressa


muitos cegos desciam as escadarias do metrô em fila indiana. o primeiro deles conduzido por um cão. ultrapassei-os na minha pressa. depois, sentada à espera do trem, eles me rodearam e se sentaram também. fechei os olhos para saber o que sente um cego entre outros cegos à espera na multidão. quando veio o trem nos levantamos todos e seguimos. para que eu não me perdesse, um deles me deu a mão. agora que subimos escadas, sei o cheiro do dia claro, alguém com pressa nos ultrapassa, vou de mão dada, seguimos aquele que leva o cão. cegos entre cegos, nos guia o arfar desse cão.

13 de março de 2018

tanto lugar num



a cada manhã o mundo é outro. quando se mora diante de uma árvore observando-a a cada dia, isso é mais claro. nem por isso evidente. a gente olha o mundo todo dia mas quase só vê o que já pensa saber, só o que sabe que verá. quando era criança e deitava na poltrona de cabeça para baixo, gostava de imaginar como seria pisar o teto, desviar das lâmpadas, atravessar as portas. pisar o céu. os muitos lugares num lugar só.

28 de fevereiro de 2018

sem pé



minha mãe comentou que estava jogando fora papeis, organizando umas coisas, e no meio disso tudo tinha encontrado a foto de um tio tataravô. ela disse que ao ver a foto tinha se lembrado de mim. pedi que me mandasse a foto. não há muitas fotos de antepassados assim tão distantes e eu não localizava bem quem poderia ser aquele tio tataravô. ela disse já te mando. e mandou. e quando peguei a foto nas mãos, vi que era uma foto em preto e branco de uma urna destas em que se guarda cinzas. liguei de volta e disse mãe, a foto é de uma urna funerária, como é que você pode me achar parecida com o tio tataravô? ela respondeu não disse que você fosse parecida com ele, disse que a foto me fez lembrar de você, mas é por conta da escultura de esquilinho da tampa da urna. olhei e havia mesmo um esquilinho na tampa e talvez a minha cara de espanto fizesse o esquilinho naquele momento ter cara de mim.