16 de abril de 2021

um nós, muitos nós

as palavras continuam caindo sobre mim, como ruínas, escombros. milhares de palavras na cabeça, na boca. e não sei organizá-las, para que façam sentido, para que encontrem o caminho e sejam resposta para dezenas de mensagens que me pedem respostas. na incapacidade, fico quieta, não em silêncio, porque o silêncio, sabe-se, não é este caos. toda palavra que não encontra um rumo é um ruido absurdo na cabeça, bagunça de papeis sobre a mesa, cansaço nos ombros.

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há mais de um ano mudei o nome do blogue para não ando a pé. e já nem é tão verdade. até ando a pé, sim. vou até a praia, porque está aqui perto. vou ao centro se preciso. mascarada e rígida como as velhas senhoras que buscavam fugir do pecado. buscavam? o que será que ia na cabeça delas ao pensar que fugiam, ao pensar em pecado, ao se pensarem rígidas. velha senhora. vou me tornando uma velha senhora. a tia da equipe disse uma amiga dia desses quando falou sobre o seu novo trabalho.

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ser tia. tive quatro tias. agora tenho duas. todas me trazem uma sensação de conforto, alegria, quebra dos hábitos que tínhamos em casa. a mais nova delas nos acolheu quando meu irmão mais novo nasceu. ou é assim que eu lembro. quando preparou o ovo mexido, deixou tostar um pouco a manteiga e o ovo mexido ficou meio marrom. diferente do ovo mexido que minha mãe fazia. lembro de sentar para comer, o garfo espetando um pedacinho de ovo e a lágrima escorrendo e pingando no prato. não estava bom. eu queria minha mãe. então ela disse que a gente poderia experimentar o suco de cenoura que tinha feito para filho, um bebê, nosso primo. o nó na garganta não passava. mas era tão linda aquela tia...

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ando com nó na garganta que não passa.

vejo muita gente já publicando o que produziu no último ano, cheio de conclusões e ideias claras. me sinto lenta demais. não consigo nem olhar para os textos destes últimos doze meses, desvio deles, me assustam. que dizer de tirar conclusões sobre onde tudo isso vai dar. ou o que isso vai impactar em nós, as marcas no corpo, os problemas de saúde física e mental, as crianças pequenas, os adolescentes, os velhos. tempos que nos roubaram diz uma amiga que, mais que tudo, queria estar agora com seu neto em uma outra cidade, para onde ela não pode ir. mesmo se pudesse, acho que ela preferiria ficar por aqui até ser vacinada. o medo do vírus é maior que a saudade do neto. o medo do vírus é o medo da morte. a nossa morte. a morte do outro. todas as mortes virão. é certo. mas não a queremos desse jeito. sem sequer uma mão dada à nossa.

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não tenho muito jeito com a coisa digital. reluto em assistir lives, em fazer videochamadas. ao mesmo tempo sei da alegria que é ao menos ver na tela do celular as pessoas que amamos e que estão longe. agora, todas as pessoas estão longe, mesmo aquelas que moram no quarteirão vizinho. não sei o que vai ser. quando o mundo todo migrar para o virtual e eu, aqui na vida concreta de cada dia, estiver cozinhando a minha comida, costurando minha roupa, escrevendo textos em caderninhos. infinitos caderninhos e minha letra linda e ilegível neles. datas e nomes, comentários e listas, restos de poesia perdidos, do que eu escrevi, do que eu copiei, do que eu busco relembrar. filmes que quero ver, endereços físicos aonde ir quando pudermos ir.

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máscaras.

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no final do mês vou conhecer – pela tela – o poeta edward hirsch que escreveu uma linda elegia para seu filho morto, gabriel. é um livro duro e lindo, que transcende a própria dor de um pai, que traz para o centro da história um menino que era um furacão e que numa noite de tormenta­­­ não voltou para casa. por três dias o pai e a mãe o procuraram. até o encontrarem no necrotério.  releio o livro pela enésima vez. não é sobre gabriel e sua morte. mas é sobre gabriel e sua morte e sua vida. única. incompreensível. desadaptada. irreverente. uma vez me disseram que a vida completa de alguém inclui sua morte. nascimento, existência e morte é o que compõe uma vida. e o que se pergunta para alguém que perde um filho assim numa noite de tempestade? o que se pergunta para alguém que soube reunir tudo de uma vida em setenta e seis poemas, como se fossem todos um mesmo e único longo poema? o que se diz? e o que se pede  a este homem? que leia sobre o velório? sobre a dor? sobre o que ele viveu há dez anos? dez anos não é nada. e já é um luto percorrido. já é um livro publicado, divulgado, traduzido. já se infiltrou na minha vida e na minha relação com meus filhos e sua possível morte. porque para morrer, sabemos, basta estar vivo.

quero e não quero que chegue este dia de abril.

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andamos tão cheios da morte.

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há vinte e cinco anos o massacre de eldorado de carajás. um soco no estômago. e o soco ainda hoje segue sendo socado, por todo o corpo da nossa existência.

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o primeiro morango do ano está quase maduro. o pepino e o tomate já têm pequenas flores. todos os alhos e cebolas estão florindo também. e o alho poró que mal cresceu já tem a bolinha na ponta da haste pronta a explodir num mini crisântemo roxo ou esverdeado.

às vezes, há abelhas. vêm atraídas pela capuchinha, eu acho. que parece uma grinalda, um sol se estendendo em pétalas laranjas e amarelas.

os também gerânios florescem.

a vida insiste, insiste, segue, urgente e ritmada ao mesmo tempo.

e os dias passam. 

e nós...

15 de abril de 2021

olhai as aves do céu


 

tenho deixado bem delimitados os diferentes espaços digitais. aqui (e me repito, eu sei), publico textos que já não publico em outros lugares. mas poucas vezes tenho posto fotos que, por sua vez, só publico no instagram, como esta foto que aí se vê. é de ontem, publiquei hoje.

ali, só pus a foto, sem explicações.

depois, fiquei pensando que o olhar rápido dos cliques e laiques e dedo rolando a barra para repassar todas as notícias do mundo e da vida dos outros talvez não dê conta do tudo que vi além da árvore e do céu azul e das aves no chão.

o que eu queria registrar, e me parece que ficou mais discreto que tudo, era a dúzia de maritacas nos galhos ainda pelados. distantes umas das outras, apoiavam-se numa pata  e com a outra pata levavam pedaços de pão pro bico. parei pra olhar e me dei conta que os pães tinham sido dados para os pombos, no chão, onde eles disputavam entre si os nacos. de repente, baixava voando uma maritaca, fazendo estardalhaço, e levando para o alto dos galhos o pedaço de pão. na medida que a maritaca comia o pão, caíam migalhas que os pombos voltavam a disputar entre si. pombo também voa. e havia muitíssimos mais pombos que maritacas.

à esquerda da foto, se se olhar com atenção, pode-se ver várias barracas de acampamento, talvez se repare também em objetos acumulados. é uma comunidade de pessoas sem casa que se instalou ali desde o começo desta crise sanitária. cada dia há mais pessoas. não fazem barulho, ocupam discretamente os muros da praça. ao lado de um hotel. que é este prédio que aparece à esquerda da foto. branco, alto. e vazio. como estão praticamente todos os hotéis e apartamentos de turismo da cidade.

o que não aparece na foto, mas vejo todos os dias da minha janela, são os enormes guindastes que continuam derrubando quarteirões inteiros de vilas de casas baixas e predinhos para levantar hotéis e edifícios de escritórios.

a foto é isso. os pombos conseguem uns pedaços de pão, as maritacas vêm e roubam. quando devoram o pão, caem as migalhas, e as pombas disputam entre si. sem olhar pro alto da árvore, sem se dar conta que são muitas mais que as maritacas.

queria dizer tudo isso de um modo mais poético, que ultrapassasse a linguagem didática. mas estou seca, puro didatismo oco. afinal, quem sou eu para ensinar o quê a quem?

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estou aprendendo a escrever letra para música. não é fácil porque as palavras no meu mundo são as que constroem sons e ritmos e ideias. na letra da canção a palavra entra de outra maneira, não sendo quem ela quer ser, nem sempre na sua potência máxima.

por isso, exatamente por isso, me interessa. sair do lugar de poder e enveredar pelo espaço frágil daquilo que não se sabe e que depende de outras coisas mais para existir.

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na cortina de blackout do quarto há um pontilhado de buraquinhos. quando o sol nasce, fica parecendo uma constelação. no inverno o sol nasce depois que a gente já se levantou. mas quando vem a primavera, os dias amanhecem cada vez mais cedo e ao ver a constelação inevitavelmente cantarolo zeca baleiro: um céu cheio de estrelas feitas com caneta bic num papel de pão. e fico um tempo pensando na dificuldade que seria traduzir isso, explicar o tanto de coisa que tem aí nessa letra. nem as estrelas são as mesmas. nem a caneta. que dizer do papel de pão?

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meu filho chegando aos dezoito e eu ainda me pergunto como-quando vou saber dizer da dor que me atravessava naqueles dias? como se explica para um filho o medo de uma mãe de perdê-lo ao nascer, ou tempos depois vendo-o na corda bamba se afastando muitos passos e querer que ele se virasse, que me visse, que quisesse fazer parte deste mundo, do meu mundo. como explicar que o que quero é perdê-lo como toda mãe perde os filhos: um pouco a cada dia, no desaparecimento natural das vidas, distanciando-se e ganhando-o na proximidade lenta que se impõe entre o tempo de semente e o de ser isso que dizem um adulto.

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tenho evitado o tema da covid. ainda que tudo  aqui (e aqui quer dizer casa, cidade, país, mundo, texto, pensamento, poesia, vida) seja sobre esse monotema e seus desdobramentos. alguns dias amanheço com o desejo de recusa: negar que isso tudo exista, fingir que é uma armação pra gente ser manipulado e controlado, escapar deste controle e deixar de usar máscara, abraçar, fazer festa. esquecer. basta chegar nas notícias do dia e tudo em mim se contrai e tudo em mim volta para a ideia de um cuidado do mundo. tenho rezado, sabe-se lá para quem, que tenhamos alguma luz pra sair disso tudo. e nem é sair do vírus, do contágio. é sair desta encalacrada de mundo plástico, branco, racista, consumista, superficial, machista, patriarcal, capitalista em que estamos metidos, matando-nos como se nada. como se o outro fosse um número supérfluo, sobrante. só o eu é que vale e importa. como ultrapassar estas fronteiras ásperas que nos construímos se já não me sinto pertencente a nenhum lugar? como voltar a me sentir pertencendo a todo e qualquer lugar?

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e quando tudo parece impossível, me lembro de uma amiga querida que me disse da última vez que estivemos juntas: tenho olhado para o movimento de mulheres negras e me deixo guiar por elas. penso nisso e escrevo: “mergulho na negra densidade do que se prepara para nascer”. e sigo.

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10 de abril de 2021

um primeiro passo

dia destes fez dezoito anos que defendi minha dissertação de mestrado. o que eu me lembro melhor deste dia é que na véspera tínhamos ouvido o coração do chico pela primeira vez. aquele galopar infinitamente apressado de um cavalo. e nem nome ele tinha ainda. foi arroz, foi feijão, foi caju, tatu, macaco. na medida em que crescia. e só quando nasceu é que a gente soube que era o chico. mas naquele dia da defesa ninguém sabia ainda que em mim batiam dois corações. mesmo assim, só aquilo importava e todo o resto era irrelevante. minha orientadora chegou vinte minutos tarde e enquanto isso um dos professores da banca ficou ensinando palavras em polonês ou russo para os que estavam ali comigo esperando, enquanto eu esperava outras esperas.

depois de todos estes anos ainda me surpreendo quando alguém me procura por conta do tema do meu mestrado, disseminação de inovações em gestão pública. na época, trabalhava num projeto que divulgava experiências inovadoras e eu estava convencida de que quanto mais divulgássemos as experiências que íamos sistematizando, mais prefeituras poderiam implementá-las. e estudava justamente isso, com um referencial teórico que mostrava o quanto de divulgação era importante, bem como fontes de financiamento, para que as experiências fossem disseminadas. o foco para mim e para o projeto que eu coordenava eram as experiências em si. na banca de qualificação, um professor me desbancou totalmente e me sugeriu ler latour 2000, com o seu ciência em ação,  como referência para olhar as experiências de gestão pública.

a construção do conhecimento é um processo lento. e eu achava que entendia como as coisas funcionavam. por isso foi ainda mais difícil ler latour e rever o meu ponto de vista. avançava devagar e a vida em volta disparava.

foi quando fizemos uma coletânea de 125 destas experiências, e o livro foi impresso em tiragem de best-seller, enviado para todos os municípios, com divulgação na imprensa, repercussão no congresso nacional e o escambau. pouco depois, fui parar numa pequena cidade do interior, para avaliar um projeto. enquanto entrevistava o prefeito, fiquei muito feliz de ver um exemplar na estante bem atrás da mesa. acho que por uma vaidade besta falei do livro, que parecia muito manuseado, perguntando quais experiências eles tinham implementado no município. foi um banho de água fria quando ele disse: nenhuma. devo ter feito uma cara lamentável porque logo ele se explicou dizendo que não era um livro para tirar uma experiência em concreto e replicar, mas era um livro que inspirava. por exemplo, se havia um problema específico na área de saúde, alguma experiência de algum outro município na área de assistência social, por exemplo, poderia dar boas ideias para se chegar numa solução local.

e apesar da minha decepção, foi quando entendi que o caminho tinha que ser outro. e passei a focar muito mais nos diversos sujeitos envolvidos num processo para compreender como se dava a disseminação de experiências.ou seja, lá estava o latour do professor que tinha me desbancado.

ainda hoje tem muita gente que acha que divulgar alguma coisa é falar sobre ela, convencendo as pessoas como se estivéssemos dentro de um anúncio publicitário dos anos 50 do século passado. e não só em ciência ou gestão pública, também em relação a livros. muita gente ainda acredita que a venda em grandes tiragens de um livro tem a ver com o quanto se anuncia um livro e a qualidade da obra. e nem sempre. há grandes livros que venderam muito pouco e há livros que venderam milhões de exemplares mesmo sem serem grandes livros e sem serem muito divulgados. depende muito mais de quem está envolvido no processo e quais os interesses que há no entorno. mas não estudei nada disso para saber dizer.

sei que no dia da defesa, quando com meus dois corações batendo, consegui explicar tudo o que eu tinha pesquisado e pensado e concluído, foi mais para mim mesma que expliquei o alcance do projeto no qual tinha estado envolvida naqueles últimos dez anos e no qual seguiria envolvida por mais algum tempo. até deixar a gestão pública num segundo plano e me enveredar pela poesia. que é um campo totalmente novo para mim. 

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não voltei a pensar muito naquele dia, naquela defesa, naquele tema. me ocupei do novo que vinha: não é fácil mudar de ramo aos quarenta.

esta semana, me lembrei daquele coraçãozinho disparado no escuro de mim, e pensei que os dezoito anos passaram como um tufão: rápido e intenso e de alguma forma lento no momento de sua duração. tanta coisa foi há um vida. aliás, há muitas vidas.

e estou de novo num começo. nunca sei ao certo o que é. mas de novo buscando aprender. de novo querendo descobrir os mecanismos que movem os processos, os gestos. 

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me convenço de que só sei começos. tudo o mais que há no mundo, todo o resto, para sempre desconheço. 

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é bom também. o mundo precisa de quem dê o primeiro passo, ou um primeiro abraço.

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era bom que a gente desse um chega também nesse projeto de morte que segue, se alastra. mas não sei por onde (começo).

9 de abril de 2021

cuidado

é tão difícil cuidar.

nem digo da essência do cuidado, digo de tempo para.

o dia, de todos nós, tem vinte e quatro horas. umas oito a gente passa dormindo. um pouco mais, um pouco menos, uns dias mais outros dias nada. de seis a oito trabalhando para ter renda e pagar a casa, a comida, a água, eletricidade,  conexão com o mundo e etcéteras que queiramos meter aí. umas duas horas preparando a comida e comendo. uma hora mais ou menos para questões de higiene pessoal e da casa. na melhor das hipóteses foram dezessete horas nisso. faltou passear o cão, limpar a caixa do gato. faltou fazer compras. faltou fazer alongamento, musculação, corrida, bicicleta. digamos vinte horas. sobram quatro. nestas quatro horas é que podemos cuidar. de nós. dos que vivem conosco. das pessoas que amamos. se vamos conversar (por telefone, que seja) ou mandar uma carta (com notícias e reflexões) já será pelo menos uma hora. se sair pra um café, não será menos de duas horas. um almoço ou um jantar, quatro. o que significa que num dia poderemos cuidar de mais uma, duas ou quatro pessoas, a depender do tipo de atividade escolhida (e possível). cuidar não é aparecer uma vez na vida de alguém. significa uma presença mais constante. de algumas pessoas cuidamos diariamente. de outras, semanalmente. de outras, ainda, uma vez ao mês. há também aquelas que, por mistérios da vida, cuidamos pouquíssimas vezes no ano e mesmo assim se sentem cuidadas. voltando para os cálculos: se no máximo consigo cuidar de quatro pessoas ao dia, na semana serão vinte e oito. para abrir espaço para cuidados ocasionais, vamos reduzir este número para vinte, e teremos oito vãos de cuidados no mês. ou, deixemos quatro cuidados mensais, dois cuidados anuais e dois cuidados esporádicos. por mais matemáticas que façamos, não é possível ter um milhão de amigos e cuidar.

cuidar parece fácil, mas não é. é uma opção. entre mil outras opções que a vida nos oferece. posso assistir um filme ou cuidar de alguém. posso também assistir o filme cuidando. é verdade.

às vezes, por exemplo, cuidamos de algumas pessoas nos sonhos. passamos horas com elas enquanto dormimos, dando um olé naquelas oito horas de sono que tínhamos desconsiderado no início dos cálculos. mas, pensando bem, isso não vale como cuidado porque ainda não conheci ninguém que decidisse o que quer sonhar. ou, pode valer, sim, desde que o sonhador relate ao sonhado, com calma e tempo tudo o que havia no sonho. o cuidado, neste caso, não terá sido o sonho, mas o tempo do relato, de ocupar-se de contar. fazer o outro saber que é lembrado e cuidado.

também dos mortos a gente segue cuidando: reviro fotos, pensamentos, conversas. e eles também nos cuidam. não sei como nem sei explicar, mas sei. e isso por enquanto me basta.

meu pai sempre se despedia dizendo: cuide-se. e eu me cuido.

7 de abril de 2021

do pequeno ao mínimo

o pé de pepino vai crescendo lenta e delicadamente, folhas e gavinhas de uma quase não matéria. difícil acreditar que será capaz de se estruturar e florescer e aguentar o crescimento de um fruto, por menor que seja o pepino. o frio voltou e não sei como protegê-lo. preciso protegê-lo? sei tão pouco de proteção. e tempo. e cuidado.

a capuchinha plantada no vaso onde fui deixando o composto orgânico cresce vigorosa e já não tenho coragem de tirá-la do lugar onde está, apesar das rodinhas sob o vaso pesado. sobe por todo lado, se mete no meio da mangueira e da torneira, sob a pia, e segue determinada, sabe-se-lá até onde, as flores entre o verde: laranjas, amarelas, amarelo clarinho. até uma ou outra flor vermelha apareceu. ocupa o olhar. faz companhia para o alecrim e suas florezinhas lilases, para o calanchoe vermelho-sangue e as florezinhas delicadas da rúcula que cresceu com muito sol.

o limoeiro se encheu de botões mas nem todos os botões se abrirão. cada dia vou catando os botões de flor perfumados. guardo num vidrinho com vinagre, para me lembrar dos inúmeros botões que se perdem para que haja ao menos um limão. e para temperar a salada com vinagre com perfume de flor de limão.

também os morangos florescem e o miolhinho amarelo da flor vai crescendo em tufinho verde, que logo se mostra um pequeno morango sem cor mas já com o formato que terá quando crescido e os pontinhos, os mil e um pontinhos cobrem cada um dos frutos que pendem pra fora dos vasos.  melhor assim, porque os morangos que crescem sob as folhas em geral são devorados por lesmas e caracois que a gente sabe que existem mas não sabe onde se escondem de dia.

plantei umas batatas, sem muita esperança de ter batatas. mas sem querer jogar fora o broto que apareceu nas batatas que dormiam no escuro. o cachorro revirou uma das batatas plantadas. não sei se comeu, se mastigou ou se só removeu e deixou no mesmo lugar.

preciso comprar terra para completar as caixas plásticas que peguei outro dia na rua, abandonadas. aqui abandona-se muita coisa nos dias da semana que a prefeitura passa pra recolher móveis e objetos de grandes dimensões. nem tudo é aproveitável. mas estas caixas plásticas serão boas para plantar coisas de horta, que não sobreviverão ao inverno. as plantas perenes é que pedem vasos perenes. e mesmo assim pedem para mudar de vaso. o que também não é fácil de fazer: mudar uma planta de vaso. é como mudar de casa. às vezes a gente custa a acomodar as raízes, a entender onde é que vai encontrar água e alimento. as raízes das plantas se desorientam quando a gente troca o vaso. um dos alecrins, por exemplo, e uma muda de limão que venho acompanhando há uns anos, se ressentiram da última troca de vasos. não sei se se recuperarão. também eu às vezes acordo no meio da madrugada e ainda penso que é numa casa com jardim que vivo e há um gato passeando no escuro, entrando e saindo pela janela. mas não, há muitos anos não há gato, janela nem casa. e é outro o país. as raízes, onde estão?

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uma amiga querida estava grávida de pouco e perdeu o bebê. embora isso seja resumo demais para a tristeza dela e minha. às vezes a gente quer tanto, tanto alguma coisa que parece a coisa mais simples do mundo e não consegue. e é tão difícil entender por que não se consegue se pra outras pessoas aquela coisa vem de forma tão simples, quase sem esforço. às vezes quero dizer para minha amiga deixar de pensar em tudo isso. depois, em seguida, antes mesmo de dizer não pense, eu digo: pense, pense muito. faça seu luto. é preciso fazer os lutos, reconhecer o buraco em que estamos, avaliar o que nos resta e pensar uma maneira de seguir. o luto não evapora, não passa, não é verdade que estas coisas passam com o tempo. não passam. ganham novos lugares e, como as pedras que vão rolando no fundo do rio, vão se tornando uns seixos redondos, que são bons de pisar, de pegar na mão.

(ultimamente têm me aparecido de repente memórias de infância que eu nem sabia que tinha. quando escrevi sobre as pedras no fundo do rio lembrei de um riacho não sei onde que tinha muitos destes seixos redondos e a gente pondo os pés ali naquela água gelada e nem era pouca água ou eu é que era muito pequena e qualquer riozinho já me chegava na cintura. me veio a sensação do pé no fundo do rio, a água fria, o sol batendo na água, o cheiro do mato em volta. se eu pudesse, faria uma foto desta memória pra sair perguntando: você também esteve lá? onde era esse lá? e quando?)

os filhos que não tivemos. as filhas. as pessoas que o mundo não conheceu. a pessoa que nunca seremos.

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os dias passam. se por aqui tudo parece se organizar na medida em que as árvores voltam a ficar verdes, na medida em que as sementes escondidas brotam onde menos se esperava e há flores por todo lado, cada matinho, cada moita, tudo floresce, sempre com pressa porque o inverno não vai esperar e até lá há que se dar fruto, por lá o mundo parece se esfacelar, aprofundando a fissura entre ricos e pobres. porque não há um aqui e um lá. não há um sul e um norte. é tudo um mesmo momento de um mesmo mundo que afundará se insistirmos nas fronteiras entre o que sou eu e o que não sou eu. entre o meu e o que não é meu. entre os meus semelhantes e os meus diferentes. que aflição que isso me dá.

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vários amigos comentam que não conseguem mais entrar nas redes sociais porque é como enfrentar um cemitério que avança seus muros sobre os espaços que antes eram plantações. sempre fomos esta fossa comum de mortes? os grandes genocídios não nos dizem nada enquanto não são os meus semelhantes os que são assassinados?

quero ir para o brasil. não é um querer voltar para um território específico. é querer estar numa situação muito particular, de encontro, alegrias, abraços. de possibilidades. um exílio sanitário, este. um exílio pandêmico. tenho saudade de pessoas que amo. e que é impossível abraçar agora.

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escombros. ruínas. ruptura. são as palavras que me ocupam, que se instalam. por mais que eu insista na urgência de buscar outras: ombros, risos, sutura. logo uma notícia mais que leio e uma resignação mais que constato... e crescem os abismos entre o que somos e o que queremos ser, entre o que projetamos como futuro político e coletivo e o que de verdade fazemos e decidimos em nossas vidas. por que é tão difícil conectar, planejar, transformar o modo de ver e viver?

1 de abril de 2021

e o que parece morto respira

gosto da páscoa. da ideia da páscoa, quero dizer. não da concretude de enxurrada de ovos de páscoa no supermercado, esta aflição que tentam nos empurrar a todo custo.

antes, não gostava. muitas vezes, quando criança, se meu aniversário caía na sexta-feira da paixão, era uma tristeza só. nem por ser aniversário o almoço era mais que arroz ovo e tomate. e nada de música. nem de falar alto. festa, nem pensar. a alegria que se mantinha, e que nada podia impedir, era a das rosas que eu ganhava. um ramalhete enorme, na memória o ramalhete é sempre maior do que eu.

depois, ao crescer e mudar de cidade, vivendo na periferia, aprendi a beleza da páscoa, da ideia da ressurreição. se as igrejas enchem na sexta-feira santa para ver o jesus morto, a gente escapava para celebrar a festa da madrugada do domingo, um amanhecer de panos se desdobrando, a vida sendo sempre maior que a morte. porque páscoa é isso: lembrar que a vida é maior, muito maior que a morte. que a vida ultrapassa a própria morte. o que parece morto respira.

morando no hemisfério norte, a páscoa faz todo o sentido do mundo. o domingo de páscoa é o primeiro domingo depois da primeira sexta-feira de lua cheia depois do equinócio da primavera. é quando os dias voltam a crescer, as folhas explodem numa delicada renda verde entre os galhos que pareciam mortos, e a noite é de lua. a luz da lua, o fim do inverno, a possibilidade pulsante de seguirmos existindo.

no hemisfério sul, o cristianismo chegou sem se adaptar. e fica uma festa estranha: celebrar a vida quando tudo começa a ficar meio parado, meio morto. páscoa no sul deveria ser em setembro. assim como o natal, se fosse para sintonizar com a lógica original, deveria ser em junho.

mas nem tudo tem lógica. o cristianismo, por exemplo, não tem lógica alguma. disseminar-se pelo mundo por imposição de um imperador romano. não há cristianismo algum na imposição, na obrigação de acreditar. acreditar é muitas vezes a única coisa que nos faz seguir, é a crença na existência de caminhos que faz ter ar e horizonte. não há como alguma coisa imposta ajudar a respirar.

recuso o cristianismo. mantenho a alegria da ressurreição, celebro a festa do fogo, do túmulo vazio. exercito o amor, eu o construo. longe, longe da tortura, do descaso, da resignação diante da injustiça. se é pra ser páscoa, que seja uma passagem destes tempos de fronteira e guerra para outros, em que cada um possa viver bem no cantinho da terra que escolher para si. e que tudo se renove a cada primavera.

ainda tenho fé.

e como nos lembra o grande gil: a fé não costuma faiá...

27 de março de 2021

noves fora, noves dentro

 e aqui estamos.

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amanhã é meu aniversário. completo os cinquenta e quatro. que é múltiplo de nove e como gosto dos aniversários e dos múltiplos de nove, vou celebrar. ainda estamos na mesma pandemia. como tenho pés em muitos lugares, os muitos lugares onde tenho pés me deixam alternadamente aflita com o que esta pandemia quer dizer. talvez eu devesse dizer que tenho os pés no mundo e estou aflita há tanto, na verdade bem antes da pandemia, com o que o nosso estar no mundo está querendo dizer. ontem li uma história tão áspera, de uma crueldade tão, tão absurda, que não consegui ir além. eu sabia que era uma história, que não era um relato necessariamente real, mas a maldade tem andado tão à tona, que não duvidei da história. e chorei. chorei. estes choros que a gente não tem como parar. não chorei na história. não era uma história de chorar. chorei depois, como quando já passou o susto, o acidente, o enterro, sabe? e a gente chora.

***

daí uma amiga me diz que ficou emocionada com a história de um papagaio que fugiu de casa há uma semana e hoje foi encontrado e devolvido. para descrever o papagaio a família disse que ele gostava de cantar “alabaré” (que é o “eu louvarei”) e la cucaracha (que é uma música sem tradução para o português). minha amiga chorou quando soube da história com final feliz. e no áudio do whatsapp ela cantou o alabaré. e quase foi minha vez de chorar de novo. porque estamos assim todos tão despedaçados, fragmentados, os nervos à flor da pele.

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não há tragédia que me fará deixar de celebrar a vida, as vidas. não digo festa. festa nenhuma, nem reunião de amigos, nem nada especial, mas dentro de mim estarei feliz. viver cinquenta e quatro anos, estar inteira, amar e ser amada é como uma miniestufa nos dias de inverno. as plantas protegidas do frio, do vento forte, as plantas criando entre elas um espaço amável, vivível. como não celebrar isso? e se não celebramos o pouco, o miúdo, toda possibilidade de futuro desaparece. quando penso que não há mais saída por não haver nada que me aconchegue, que me aqueça agora, não há por que seguir. talvez isso chegue um dia. ainda não. ainda penso em ondas que vão e vem, em pêndulos, em lobos que alimentamos ou deixamos de alimentar, em processos de construção em massa, de estabelecer espaços de alegria que possam se expandir.

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a primeira vez que alguém fez meu mapa astral, confesso que fiquei um pouco decepcionada. dizia que a minha vida seria marcada pelo amor. e o amor naqueles dias me parecia uma coisa piegas e eu não queria ser piegas, queria ser alguém poderoso para transformar o mundo. ser uma grande jornalista me parecia mais coerente com o meu desejo de transformação (a ingenuidade tem destas coisas). e o amor... o que é que se faz com o amor? era o que eu me perguntava, frustrada e com vontade de descrer daquele mapa. a vida passando, outras leituras do mapa e sempre aquilo se mantendo: o amor.

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neste balanço dos últimos tempos o amor deixou se ser um incômodo. e a transformação do mundo deixou de ser um tema. não estou no mundo para transformá-lo, mas porque estou no mundo, o mundo se transforma. e vai se transformar de acordo com os movimentos que eu fizer enquanto o percorro. não deixa de ser uma responsabilidade, mas não é uma carga, e não há nada que possa ser apressado. é viver cada dia, cuidar do em volta, cuidar dos seres que estão próximos de alguma maneira. e o que é esse cuidado se não o tal amor que antes me parecia piegas?

***

então, sou esta, a que aprende a amar aos  poucos, ao longo da vida, percorrendo o mundo a pé, sem pressa. e descobrindo os mil desdobramentos que pode haver neste amor, que é este cuidar.  sei não dou conta de tudo. sei que não sei bem onde ponho os pés e os olhos. sei que viver estes tempos é incômodo, nos traz muitas perguntas novas, pouquíssimas respostas, sei que às vezes me paraliso, me desmobilizo, finco os pés como se fosse árvore, mas nem por isso crio raízes nem floresço.

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mas sou. neste tempo e neste espaço. e me lembrar disso é que é fazer aniversário. eu faço. um a cada ano. e que haja festa.

25 de março de 2021

rascunhos

sobre os meus filhos penso que não verei quem eles são porque ser é coisa de uma vida inteira e só acaba quando termina e mesmo querendo ver quem eles terão sido não quero ver seu fim.

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corte sangue cicatriz imobilidade medo depressão do corpo choro lágrima dor tristeza ansiedade raiva

buscar estratégias para se sentir melhor

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fratura ruptura rompimento corte quebra interrupção

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papel plástico ráfia e juta

catigut

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sutura comissura coser os lábios de uma fissura pontos costura linha reta que junta entre si os élitros dos insetos coleópteros linha de junção das voltas da espiral nas conchas bivalves rafiar – tecer guarnecer de fios fazer carícias ou afagos –rafia ideia de sutura (cardiorrafia) afagar ameigar acariciar

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cerzir coser sutilmente de modo que a costura seja imperceptível entretecer refazer a urdidura para que a trama avance tecer tramar como a neve conecta pouco a pouco toda as coisas numa única superfície branca

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cicatriz tecido fibroso sinal de ferida ou chaga curada vestígio que folhas ou ramos quando caem deixam na haste vestígio de estrago dano destruição

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estigma cicatriz que perdura abertura do pistilo por onde entra o pólen orificio lateral da traqueia dos insetos

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lágrima gota líquida dos olhos

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há alguns anos registrei o olhar de vários bichos em cativeiro. quem é que repara? todos tão tristes.

suricato flamingo macaco

elefante gorila girafa

búfalo hipopótamo tartaruga

dragão de komodo arara periquito

e uma gaivota que se pensava livre  porque devorava um pão mofado nas ruas de barcelona

romper e rasgar

uma baleia majestuosa atravessando as águas do ártico

na nadadeira esquerda um chip

um anel na pata do pinguim

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nas geleiras há sementes que esperam

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o espanto não tem pálpebras

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nossos corpos, instante a instante na paisagem do tempo, são um tipo de ruptura e uma espécie de cicatriz.