20 de maio de 2022

nós, os pobres

os ricos dizem:

meu bisavô sabia muito

construiu um teatro


ou: este tratado é obra do meu avô

que também era sábio




eu digo:

meu pai sabia o medo

não me salvou da noite

me deu a mão, esteve ao meu lado

-- lado a lado --

até que se acabasse a escuridão.


 

só isso eu sei.

9 de maio de 2022

a pedra que nasci

tem gente que sempre sabe o que está plantando e já faz planos para a colheita. tem gente que até calcula quanto será colhido, para quem entregará os frutos. eu, eu nunca sei o que planto, nem se terei colheita ou quando. para toda semente ou broto ou muda que me chega busco um lugar, um cantinho de vaso, um pedaço de chão. revolvo a terra, rego, evito excesso de pragas, alimento. às vezes as mudas morrem. nem sempre a semente nasce. tudo pode passar ao longo do tempo. mas quase nunca fico pra ver. de vez em quando volto por um lugar onde sei que joguei sementes e vejo frutos. também não sei se é mesmo a semente que joguei que frutificou. pode não ser. e pode ser. me alegro pelo fruto. ou pelo verde. ou pela sombra ampla da folhagem. uma vez cheguei a ver um ninho e os filhotes nos ramos de uma árvore que cuidei até crescer. outras vezes esperei rúculas e rabanetes – tão simples – e só folhinhas mirradas que logo secaram. na verdade, nunca sei. e está bom assim também. o tempo é lento e ninguèm vê a pedra quando nasce.

4 de abril de 2022

fazê-la habitável



nos dias de isolamento por causa da covid, há umas semanas, perdi uma parte da mostra de marguerite duras na filmoteca. descobri que numa determinada plataforma estava disponível um filme dela que eu não tinha visto. le navire night. uma mulher telefona para um homem no meio da noite e eles começam uma relação que sempre será por telefone, noites adentro, sem nunca se encontrarem. e o filme é a conversa entre duas pessoas que não vemos, contando esta história, o desenrolar desta história.

como todo filme dela, também este me impressionou. estando tudo à flor da pele, por conta da covid, não só me impressionou como me deu vontade de desmontar o filme, de certa forma devorar a narrativa, cada palabra. mastigar.

encontrei um caderno ainda em branco e revi o filme, anotando todas as palavras ditas. o barco noite avançando num mundo sem amor, construindo o desejo sem imagem. minhas imagens agora são o caderno com a minha letra, apropriando-me das palavras de outra pessoa, engolindo e ruminando, regurgitando e cuspindo de volta para ver se alcanço o núcleo, o caroço, talvez a semente. isso, a semente, porque é tudo muito delicado, construção de penas no vento. ossatura de passarinho.



***



continuo escrevendo letras para músicas. um exercício difícil.

na adolescência escrevia poesia em versos. não que fossem grande coisa. tudo a se jogar fora, exercícios. o principal foi concluir que eu não queria os versos na minha poesia. a poesia sem versificar. uma opção para não afastar quem não gostava de poesia. no fim das contas, afastam-se quase todos: os que gostam de poesia porque não encontram ali os versos, os que gostam de prosa porque não encontram ali a narrativa fluida. um vão: a poesia sem versos é um vão. cuidado com o vão.

quando mergulho da letra para canções, volto pro princípio de uma elaboração poética, ainda mais difícil do que versificar ou rimar, porque o ritmo e as tônicas já estão dadas, já está dada a medida da frase, há uma estrutura metálica encaixada que pede um certo revestimento. a palavra como revestimento. é um exercício mental dificílimo para mim, que nunca escrevi um soneto. e deveria ter escrito, deveria ter feito este exercício mesmo que depois não quisesse permanecer no soneto, conhecer a dificuldade de esculpir a pedra da palabra.

depois de alguns exercícios, o autor das músicas publicou a primeira das canções. e o impacto da reação de quem ouviu: que a letra era complexa demais pra melodia, ou que não era possível entender a letra sem ler, ou que não era alguma coisa que daria vontade de cantarolar ou ficar ouvindo muito tempo.

foi como perder um eixo, me deslocar, o tal perder o rebolado. perdi o rebolado. e perdi a palavra como matéria para fazer um revestimento de uma melodia. demorei dias para entender que eu estava diante do que edward hirsch diz da rima: que se a rima ganha, o poeta perde. no caso da canção, se a palavra ganha, a canção perdeu. mas também a música: se a música ganha, a canção perdeu. o desafio numa canção tanto quanto num poema é que não pareça uma criação, não se veja ali as emendas. o segredo é ver no bloco de pedra o cavalo que há dentro.

(não sei explicar melhor. deixo aquí registrado para não perder o desconforto.)

dias depois, ao enviar a gravação de uma segunda canção, que na verdade é a quinta ou sexta desde que começamos esta aventura musical, a reação foi outra: que funcionava, fluía.

o que confirma a minha hipótese de pedra e cavalo.



***



ontem a fabiana me mandou um trecho de livro da noemi onde aparece o nome veronica sem k e um trecho entre aspas. a fabiana disse: apesar da grafia equivocada do nome, sei que esta frase é tua. reconheci a frase. fui buscar o email em que a frase estava. depois pensei que os diálogos que a gente vai tecendo na vida não se perdem. para onde será que vão os pensamentos?

minha avó também se interessou por captar e gravas as vozes dos mortos, que apareciam nas ondas de rádio. e eu sempre gostei deste tema. não tanto pelos mortos que falam e mais por pensar que seja nossa energia se desdobrando pelo universo, se refletindo, dando voltas e nossas falas, nossos pensamentos, tudo isso que transformamos na energia da palavra foi ficando por aí, como lixo ou brilho cósmico. tudo o que se disse e se escreveu e se pensou permanece e vai sendo editado e reeditado, em ondas energéticas que nos alcançam construindo novas falas, pensamentos, poemas, a tal musa a soprar nos nossos ouvidos e nos dos não-nascidos ou dos já mortos. a poesia esta palavra destilada de todas as palavras ditas e pensadas, escritas desde que a palavra existe. mesmo que não venha em versos. mesmo que não pareça poesia.



a frase: “sei que a morte vai nos deixando cada vez mais diferentes do que éramos e cada vez mais parecidas com o que somos.”



e me lembro do dia em que formulei isso pela primeira vez.



***



cheguei aos cinquenta e cinco. não quer dizer nada em especial, mas gosto dos números assim repetidos 11, 22, 33, 44 e agora 55. mas também gosto dos múltiplos de sete. dos múltiplos de doze, dos redondos, dos primos, dos pares, dos ímpares, da sequencia de fibonacci. quero dizer: gosto muito de estar viva. com todos os medos e frustrações que às vezes me tomam. celebrar um ciclo mais é ficar feliz por ter vivido tanto, um tanto mais.



55, aliás, é o nono na sequencia de fibonacci.



***



o próximo livro, com joan, se chama liquens. encontro um poema do “meu amigo hans” chamado liquenologia, que eu já conhecia e tinha me esquecido. são vinte partes. o poema é do final dos anos 60 e é um tratado amplo e maravilhoso sobre os líquens e sobre a palabra.




I

Que as pedras falem

dizem que isso acontece.

Mas o liquen?




II

O liquen se descreve,

se inscreve, escreve

numa escrita cifrada

um silêncio prolixo:

Graphis scripta.




III

É o telegrama

mais lento da terra,

um telegrama que não chega nunca,

já está em todas partes,

também na Terra do Fogo,

também sobre as tumbas.




(…)




XII

Pulmão sem sangue, ferrugento,

açafrão, coral, cor-de-laranja,

pérsio, escarlate, urzela,

tudo sobre fundo cinza,

o fundo cinza,

das Ilhas Spitzbergen.




(…)




XIV

Nâo sei: será que a rocha se defende

contra o líquen?

Não a rompe,

mas a habita,

a faz habitável.




(Hans Magnus Enzensberger, traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan)

19 de março de 2022

não saio de casa



há uma guerra lá fora. sempre há uma guerra lá fora. desde que nasci, desde muito antes, sempre houve uma guerra lá fora. a guerra se afasta, a guerra se aproxima, mas a guerra nunca termina. bombardeios, tiros, escombros, destroços, fome. diásporas. exílios, um eterno recomeçar em outros lugares, passar a ser outra pessoa, recompor famílias feitas de cacos.

desta vez a guerra lá fora é bem perto de onde estou. e me traz à memória memórias que não são minhas, que mamei ao nascer, que ouvi ao dormir e nos almoços familiares dos finais de semana, nos encontros de natal e ano novo. nas cartas que chegavam e nas cartas que nunca mais chegaram. fotos. e o que não cabia nas fotos: por que se guardaria o horror em fotos?

tudo isso me remove.





***




a covid me faz mudar de quarto na casa. daqui, vejo os galhos altos de um plataneiro.

deixo de me ocupar da guerra e me ocupo de um ninho de pega-rabudas. são sempre um casal e pelo movimento, já há filhotes pequenos que pedem comida. o ninho é grande, com vãos como se fossem janelas. entre os galhos que compõem o ninho, vejo o negro e o branco das penas dos pássaros adultos. não sei como são os filhotes, não dá pra ver. ouço o piado. e se desço até a cozinha, dali vejo menos mas ouço ainda mais o piar dos filhotes quando os adultos saem em busca de comida.

são pássaros que se reconhecem no espelho. guardam comidas em vários esconderijos diferentes para buscar nos tempos de escassez.

às vezes eu os vejo sair os dois no mesmo momento e pousam na quina do prédio em frente. e é como se conversassem, se aproximam um do outro, sacodem as asas, o rabo, fazem movimentos com a cabeça. meu filho diz que deve ser algum tema que eles não querem que os filhotes escutem. eu penso que deve ser para aproveitar que os filhotes dormem e conversar sobre qualquer bobagem do dia a dia de um pássaro.

quando venta muito, como tem ventado estes dias, os galhos altos das árvores se movem e é como se a casa se movesse, enorme navio à deriva. eu oscilo. o ninho aguenta firme. e, lá dentro, os pássaros sobrevivendo ao vento.

***


de tanto observar os pássaros, pensei que poderia ser uma boa ideia fotografá-los. nestes tempos em que tudo é imagem, como terei certeza de ter visto o que vi neste ninho se não fizer uma foto? me posto com a máquina e os pássaros não se movem. não saem do ninho se estão dentro, não entram, se estão fora. guardo a máquina, eles aparecem. tento uma vez mais. não consigo. basta guardar a máquina e eles vêm. desisto.

um outro dia, me postei com a máquina entre as plantas atrás da janela e num lampejo fiz a foto da pega-rabuda de penas pretas e brancas em meio aos galhos marros das árvores de inverno e do ninho. a foto não diz nada dos sons, ou que são dois, ou que haja filhotes. mas me diz de outras coisas que me passavam desapercebidas porque só tinha olhos para o ninho e os pássaros: pequenos brotos verdes já se preparam pra primavera.

que volta.



***


os ciclos seguem acompanhando o eixo da terra, ora mais horas de sol, ora menos horas, mas sempre este pêndulo que delicadamente nos inscreve no ritmo do tempo. nosso tempo. com guerras que se aproximam e se afastam. com vírus que nos prostram ou nos matam.

o cachorro dorme ao meu lado, me fazendo companhia neste confinamento quando tudo já parecia ter passado. e me lembro das gaivotas que pousam em bandos no mar e ficam ali, oscilando como pequenas embarcações. de um momento para o outro levantam voo. os pássaros em bandos. quando um se cansa, outro toma a frente da formação em vê. as gaivotas não voam em vê. mas é bonito ver a revoada.

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a covid chegou aqui em casa exatamente dois anos depois do primeiro dia de confinamento. cheguei em casa e li o longo poema da mary jo bang escrito nos piores dias da pandemia - todos trancados em casa, sem saber nada de nada. isolados, assustados e revisitando nossos mortos e antecipando a nossa própria morte num tempo distópico, surreal, áspero. cada uma das linhas do poema começa com a palavra hoje. hoje fiz isso, hoje aconteceu aquilo... formando um imenso hoje cristalizado no espaço do qual não nos movíamos. e no entanto o tempo passava sobre nós. agora que passo os dias no espaço mínimo deste quarto, não é tão desesperador porque há movimento lá fora, há ruídos de humanos, muito além das palmas das oito da noite. som de motor, de música, de gente que passa caminhando. o movimento dos humanos assustando os pássaros e enfrentando a morte. e isso só é possível porque estamos vivos.

estou cansada. estou muito cansada. mas estou viva.

31 de janeiro de 2022

azul da prússia

«cada galáxia, inclusive a nossa via láctea, possui em seu centro um buraco negro massivo duja força de gravidade influi sobre as estrelas ao seu redor. quando alguma destas estrelas é devorada, seus restos giram ao redor do buraco negro e brilham com luz de diferentes frequencias. em alguns casos, os restos estrelares expulsos formam jorros potentes qeu brilham em frequencias de luz de rádio.»

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a astrofísica é tão bonita.

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«olha para o céu, tira teu chapéu pra quem fez a estrela nova que nasceu...»

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tudo é narrativa, cada ciência, como cada língua, um universo próprio a olhar nosso universo comum.

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dia desses, li sobre o cianômetro. que teria sido um dos instrumentos criados e usados por humboldt em suas pesquisas cientificas. achei a ideia tão bonita: fazer uma escala de azuis, numerando cada intensidade, e depois verificando em que grau estaria o céu ali daquele lugar específico.

pesquisei e entendi que o humboldt não inventou o cianometro. a invenção é de saussure, o alpinista, não o linguista, em sua tentativa de explicar às pessoas o que é que se podia ver nos altos do mundo, mas também buscando confirmar hipóteses que não se confirmaram.

é tão difícil descrever o azul.

logo imaginei o diálogo entre van gogh e saussurre ou humboldt sobre os azuis, cianômetro numas mãos e a paleta com a confusão de titnas em outras mãos. ali, imersos no céu que sempre imaginamos azul, ainda que seja negro, escuro se não há luz ou se já ultrapassamos a atmosfera da terra em direção a não sei quê.

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o cianômetro é um aro com sessenta graus de azul, entre o branco e o preto, estando os azuis pintados em papeizinhos organizados como penas de um cocar. ao levantar este cocar contra o céu, busca-se o azul que mais se aproxima do que se vê na abóboda celeste. 

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no cimo do montblanc, saussure viu um azul de 39 graus. já humboldt encontrou o mais profundo dos azuis, o de 46 graus, no vulcão chimborazo, nos andes.

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miles davis ao misturar os significados da palavra blue, compôs, sem cianômetro, um album chamado kind of blue.

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medir a tristeza com um cocar de penas azuis.

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8 de janeiro de 2022

o que trazem os magos do oriente

imagem: @oysterboywho ou joão bresler

a experiência do corpo a corpo com a ovelha vem e vai nos meus dias. cada vez que abraço o cão, é na ovelha que penso. o emaranhado da lã áspera e suave ao mesmo tempo, disfarçando uma força física que eu não supunha. também me pergunto como é que a ovelha se meteu naquelas cordas, naquela cerca de horta. por que ela estava ali e as outras não? o que faziam as outras que não vinham ao menos para fazer multidão de rebanho e afastar os cães e talvez os lobos. há quanto tempo poderia estar ali a ovelha e quanto tempo mais ela teria aguentado ficar?

***

hoje, fazendo faxina, pensei também nas tantas camadas de poeira que vão se assentando na casa. é como o cabelo que cresce e a gente não vê, a unha. o pó se assenta quando não se olha e quando menos se espera é uma camada grossa que deixará manchas escuras no pano de pó. há pó em todo canto. no pelo da ovelha também. e galhinhos e capim.

***

o cão respira pesado ao meu lado. às vezes me pergunto o que será que ele sonha. se humanos intervimos no seu sonho com nossos sons e sinais. se ele sonha com sombras e cheiros. com medos. e as alegrias próprias de um cão.

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quais são as alegrias próprias de um cão?

 e as impróprias?

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no dia de reis ganhei de presente uma pintura que dialoga com a pintura do cão afundado na areia do goya. no lugar de um cão desconhecido, o cão que vive conosco. achei de uma doçura! ganhei também uma espátula de madeira fina e frágil, multiuso. cada objeto carrega consigo o gesto das mãos que o fizeram. ou uma ideia que move. no caso da caixinha de tic tac com arroz dentro, ganhei uma memória, a confusão de um sentimento que era de cuidado e virou uma mini tragédia no pensamento de um menino (andando pela calçada estreita, ele disse: olha, mãe, um arrozinho! e me mostrou um grão de arroz na ponta do dedo. ao mesmo tempo em que perguntava de onde tinha tirado aquilo, mandei: joga isso fora! e ele jogou. depois de jogar, explicou: não era um arroz, era uma balinha de tic tac que ele tinha chupado até ficar parecida com um grão de arroz. depois de explicar, chorou. também eu fico com o choro preso na garganta quando penso neste dia. e a minha aflição em protege-los. proteger do quê? se o mundo não é uma ameaça, é um imenso campo de experimentações...).

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as muitas epifanias de que é feita cada epifania.

1 de janeiro de 2022

de ovelhas e ano novo

nos tempos de presépio, sempre penso muito nas ovelhas, nos cordeiros, nos pastores da beira do mundo, levando os animais até os longes mais longes pra pastar porque nem sempre há comida ao lado. vão em silêncio, os pastores. já as ovelhas ou sussurram ou balem, ou tangem os sinos nos pescoços. uma multidão de ovelhas atravessando os caminhos ou as ruas pequenas dos antigos vilarejos são sempre uma massa densa de lã bruta. sempre me emocionam. em tempos de presépio, mais ainda.

 

***

 

caminhando entre campos de oliveiras e pedras, o cão correu na direção de um balido que não parava. os tres que estavam comigo foram atrás do cão atravessando a terra revolvida. fui pelo outro lado, pela estrada lisa, pensando que se tratava de convencer um cão a deixar de seguir um rebanho de ovelhas.

quando cheguei mais perto, vi que o cão não se incomodava com o rebanho ali mais adiante, mas atiçava uma única ovelha, que se debatia para escapar do cão, das mordidas do cão, e quanto mais se debatia, mais se enroscava numa rede em que tinha se metido não sei como. o cão avançava latindo, a ovelha dava coices, se virava, balia. o medo nos olhos da ovelha ao olhar para o cão que latia muito, mas também ao olhar pra mim, que me aproximava.

consegui agarrar a ovelha, quando um dos três conseguiu controlar o cão.

a ovelha buscava escapar de mim, e se enroscava mais. devagar tirei as cordas que estavam atando suas patas da frente, eu tentava dobrar a pata da ovelha e ela esticava a pata, resistindo. pouco a pouco desvencilhei as quatro patas e ela se sentiu livre e ao se sentir livre, tentou correr na direção das outras ovelhas que esperavam adiante, a pequena multidão densa de lã bruta balindo balindo e os olhos da ovelha perto dos meus olhos. a corda atada no pesçoço e quanto mais força ela fazia para escapar, menos eu conseguia tirar aquela corda.

um corpo a corpo com a ovelha. seu peso, sua força, seu pelo macio e áspero ao mesmo tempo, meu peito colado ao corpo da ovelha e eu sentia seu coração disparado. sua respiração ofegante.

chamei os meninos, sozinha eu não tinha força para arrastar a ovelha e fazer o movimento de tirar a corda do seu pescoço. eles vieram, soltamos a ovelha que saltou pra longe, correu na direção das outras ovelhas. minhas mãos vazias.

 

***

 

isso foi há alguns dias. e continuo impactada por este encontro. não sei descrever o que houve, o que foi que se desencadeou em mim ao desatar esta ovelha, ao abraçar esta ovelha, sentir seu coração perto do meu.

 

***

 

nos seus diários, tarkovsky gostava de registrar fatos que ele classificava como extraordinários ou sobrenaturais, como pessoas que adivinham o futuro, que movem objetos com o pensamento, coisas assim. um dos registros é de uma profissão que havia entre um povo de pastores e que consistia em reunir cordeirinhos perdidos no rebanho com suas mães. o homem, a partir do balido sabe reconhecer que filhote é de qual mãe. milhares de ovelhas e cordeiros balindo e este homem sabe quem se conecta a quem, sabe encaminhar os que se perderam para que se encontrem.

 

***

 

hoje se abre mais um ciclo no tempo, ou nesta nossa forma de agarrar o tempo nas mãos, dividindo em anos, meses, dias, horas, minutos. segundos. dentro dele, nosso coração e o das ovelhas bate compassado. que venha 2022.

17 de dezembro de 2021

o rio

"Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio." (João Guimarães Rosa)

 

 

29 de outubro de 2021

há quem

há quem diga esta terra é minha e ao firmar-se nela, nesta terra que diz sua, não nota como seu pé vai se metendo num buraco (sem fundo).

há quem grite aqui estão minhas raízes, mas é das raízes do outro que vive, parasita do que o outro colhe e ordenha, do que o outro brota e floresce.

o que diz e grita dorme.

são as raízes que vigiam e cuidam. atentas ao menor movimento da terra, que é de ninguém, que é dela mesma.

em seu segredo verde azul e algodão.

estendo as mãos.

25 de outubro de 2021

siga a gina

dia desses a gina me convidou para participar de um projeto que tinha um título muito instigante. tão instigante que na hora eu pensei que queria muito participar mas talvez não tivesse pernas para tanto. quero dizer, pensei que nesse momento eu teria tanto a dizer sobre o tema mas não teria como traçar instruções quanto àquilo que se poderia fazer para acabar com a situação que estava no tema da chamada. mas era a gina. e é difícil dizer não para um convite da gina. então, na minha cabeça eu disse que não teria como participar, mas em algum lugar de mim se desencadeou um processo. porque, afinal de contas, era um convite da gina.

conheço há gina há muitos anos, não sei bem quantos. alguma coisa ali por volta de 2010, quando organizávamos os piqueniques perto de casa e nesta mesma época a neide me apresentou a inês e a inês, ao conhecer o blogue, me falou de um blogue coletivo e nesse blogue coletivo estava a gina. nunca vi a gina ao vivo e a cores. ou seja, conheço a gina sem conhecer. e mesmo assim, sem conhecer pessoalmente, é alguém de quem eu gosto muito.

acho que o blogue que a ines me apresentou se chamava encaixe.

o nome da gina automaticamente me remete para uma lembrança de infância, da caixa de palitos. e uma piada boba de quinta série, quando a gente ria quando ouvia a palavra vagina sem saber que um dia chegaria à conclusão que se tem mais medo de quem tem vagina do que da palavra vagina, em si, mas uma coisa muitas vezes acompanha a outra. não sempre.

voltemos à gina. não sei quando, mas já tínhamos alguma interação, a gina lançou um pedido – acho que no fb, mas também não tenho certeza – para que as pessoas fizessem um desenho da cara dela a partir de uma mesma foto. e lá estava a foto da gina. o olhar dela olhando séria, e um sorriso de canto de boca.

não sou desenhista, mas gosto de rabiscar. já me meti a perguntar se serviria assim também. daí peguei a foto e fiz um desenho com um lápis vermelho. lembro do meu processo, de olhar a tela e olhar o papel e o lápis vermelho e o medo de perder o mais importante, que era o olhar da gina. quando acabei o desenho, traços simples em vermelho sobre papel branco, notei que o olhar dela tinha, de fato, se perdido. mas era o meu melhor. quero dizer, o melhor, naquele caso, era poder estabelecer aquele diálogo com ela, alguém cujo trabalho eu admirava (e admiro) mesmo sem entender bem os conceitos envolvidos, etc. 

um dia quero escrever sobre este processo, de usar uma técnica que não domino para fazer um desenho a partir de uma foto de alguém que não conheço. acho que mandei o desenho pelo correio. faz tempo tudo isso, a memória fica difusa. e nunca vi o resultado de todos os desenhos reunidos, não sei quanta gente desenhou, que técnicas usaram. não sei nada. sei que a gina ficou ali, existindo e eu continuei acompanhando os passos dela. redes virtuais. e a gina no meu radar

é sempre discreta a presença dela. mas sempre me toca. ou porque está num perrengue e precisa urgentemente vender várias obras, ou porque se posiciona a favor de coisas que eu também sou a favor. ou se manifesta contra alguma coisa que eu também sou contra. isso que a gente diz de estar do mesmo lado. do lado esquerdo e um pouco selvagem da vida. não este esquerdo partidário, só. não, um estar à esquerda de quem nao acha que o mundo do jeito que está esteja bom. e que é possível construir caminhos. ou seja, o que ela faz, o que ela diz, o que ela pensa, propõe e as coisas com as quais ela se desconforta e não se conforma me tocam de perto.

é uma destas pessoas que às vezes passam pelo meu pensamento e eu desejo que a vida dela seja boa, seja intensa, que ela encontre alegriazinhas no cotidiano, que ela encontre amor e não se canse demais. pra que eu possa seguir com ela mais muitos anos, ela com a arte dela tão profissional, eu com a minha escrita quase amadora, numa mesma estrada, e de vez em quando do meio da multidão ela me acena, ou eu grito um bom dia, gina! e a gente sorri uma pra outra.

por tudo isso, quando ela me pediu e eu pensei dizer não, meu corpo todo se mobilizou para que eu fosse capaz de dizer sim. e eu disse. mandei o texto pra ela quando ainda faltavam oito dias para terminar o prazo. e claro que precisei da ajuda dela para formatar. fui incapaz de fazer isso por mim mesma porque cada vez domino menos ferramentas. concentro-me em embaralhar o alfabeto que nem sempre é fácil também.

e sempre sigo a gina. a gina dinucci.  

onde quer que ela vá.

11 de outubro de 2021

poeminha besta sem pé nem cabeça

ruínas e casas cidades escombros
medos palavras vão 

chuva na mata flor de pitanga
lapso de cor 

lápis no tempo bordado do avesso
uma faca no figo rasgado ao meio
constelações e vento
virá o temporal 

alguém do nada chegará no nada
tapa na cara semente no gelo são jorge e o dragão

memória rasa pra sair da devastação 

viajo sem sombra
sinos caindo do céu 

sou tronco lenhoso
filhos perdidos
brotados em fogo água chão

 

9 de outubro de 2021

...

a memória organizada em palavras é um registro fugaz da nossa passagem pelo tempo. mãe água casa céu pai pão fome voo dor leveza morte prazer. quem seríamos se não lembrássemos quem fomos?

3 de outubro de 2021

fim, substantivo

se o princípio foi o verbo em movimento, o final será só substantivos empilhados, estocados lado a lado no caminhão de mudança.

a casa vazia.

nossa alma dando voltas como um cão que busca posição para dormir.

o vento levanta as folhas secas.

alguém fecha a porta.

24 de setembro de 2021

pele ou na noite de são bartolomeu

“Eu sei que estás lendo este poema porque não resta mais nada para ler 
lá onde pousaste, despida como estás”.  
(Adrienne Rich)

 



seguindo as instruções dos panfletos clandestinos que circulavam entre os que queriam entrar pela porta, enquanto esperava, fiz a incisão profunda na pele do ombro esquerdo e segui o corte em direção ao pescoço, subi pela lateral, por trás da orelha, acompanhei a linha entre a testa e o couro cabeludo, descendo simetricamente pelo lado direito, até a ponta do outro ombro. puxei a pele devagar, primeiro a parte de trás segurando pelos cabelos, afastando até a nuca, uma camada mais densa do que eu supunha, depois a parte da frente, puxando até a pele estar solta à altura dos ombros.

a partir dali tudo ficou mais simples, foi como tirar uma roupa muito justa: tirei os braços pra fora, e com as mãos livres fui descendo a pele pelo dorso, tirei uma das pernas como se tira uma meia calça, depois tirei da pele o pé com cuidado para não se rasgar nos dedos, puxei a outra perna e me vi com minha pele nos braços, do avesso, como um casaco caro que guardamos sempre com o forro virado para o lado de fora.

quando me aproximei mais da porta, ainda seguindo as instruções, para deixar a pele depositada no chão, no escuro intuí o contorno de outra pessoa a se aproximar. nossos olhos atônitos. não nos conhecíamos, mas nos reconhecemos naquelas que esperam que a porta se abra e que nos deixem entrar. eram dois os montinhos de pele diante de uma mesma porta. e nós: ossos nervos e músculos, veias e órgãos assim expostos. o coração acelerado não há como esconder. ouvi um sussurro, ela:

- é branca a tua, né?

- é. e a tua?

- não é branca.

- é nova?

- eles preferem as brancas. a tua é nova?

- usada. e esse galão?

- sangue. não trouxe?

- não me pediram. teu?

- também. e da minha mãe. e da minha avó. da avó da minha avó.

-...

no escuro, o tempo se arrastava. às vezes, era possível ouvir uma porta se abrir e quase no mesmo instante se fechar. me disseram que havia muitas portas. talvez houvesse filas. eu não via. também não via como cada uma se desvestia de sua pele, onde fazia o corte, que parte buscava salvar. corriam notícias de gente que comprava peles e se apresentava diante da porta com tatuagem de nervos e veias e músculos expostos, como se fosse possível entrar pela porta com a dor de outra. dizem que os das portas só queriam as peles e se deixavam enganar. pode ser.

estive tanto tempo no escuro cuidando de quem pelo mundo ia sem pele que não me dei conta que a minha perdia o viço e o valor. talvez tampouco além da porta houvesse luz. nem nada. pensei em desistir, me faltou determinação. a ideia de sair dali sem saber se poderia voltar em seguida, sem saber se uma pele que se desveste pode ser vestida outra vez, sem saber se, afinal, depois de tanta espera a porta estaria a ponto de abrir... por que demoram tanto? então ela, outra vez, baixinho:

- sabe que só uma entra. se abrirem.

- pensei que abriam pra todo mundo que deixa a pele.

-...

o que eu quis dizer é que o certo seria entrarmos em ordem, uma por uma, deixando a pele no chão, e que eu teria que ser a primeira porque tinha chegado primeiro. saber que nem sempre a porta se abre, que nem sempre a pele é aceita e isso do sangue que não me disseram, tudo isso me deixou perdida. mas também já não sabia se queria entrar onde não conheço ninguém. nem sabia o que eu faria se atrás de mim houvesse uma fila enorme e todas corressem na direção da porta e só eu não conseguisse entrar. se me empurrassem, se eu caísse, se doesse. perguntei baixinho:

- sabe se tem mais gente aí atrás?

- não sei. não consigo ver.

- e se a gente for embora. estou cansada.

- também estou cansada. estou com medo. não tenho pra onde ir.

eu não tinha medo. lá de fora vinha o barulho do mar e das tempestades. aqui, parada diante da porta, era como estar na fila da escola primária, esperando a campainha para um dois um dois um dois marchando entrar na sala de aula, ficar em pé ao lado da mesa, esperar o professor, bom dia, professor, e sentar. não sou uma criança. não quero obedecer.

o trinco da porta se moveu. nossos corações se aceleraram na medida em que a porta se abria e se via uma réstia mínima de luz por uma fresta. quando abriu um pouco mais, meti o pé no vão, me virei pra ela e gritei:

- entra, entra logo. ­­­

- e você?

neste momento mínimo em que nos ocupávamos uma da outra, antes que ela pudesse reagir, uma mão assombrada de detrás da porta tomou nossas peles. e o galão. lá de dentro um pé chutou meu pé com força, perdi o equilíbrio. a porta bateu.

nós, ali, no escuro. os olhos arregalados.

nunca mais.

nossas mãos.

e nada.

21 de setembro de 2021

só nos resta esta pedra lapidar

quando o verão vai chegando ao fim, é como se os verdes fossem ficando cansados. verdes cansados: alguns tendem pro amarelo, outros pro marrom. pouco a pouco as próprias folhas se cansam. e caem. daí já é outono.

***

hoje, quando fui tomar o chá no terraço, vi de novo um passarinho de peito amarelo bem pequeno. como desta vez ele não se assustou, entendi que vem nas moitas de manjericão, não sei se pra comer as sementinhas ou os bichinhos que vivem aí e eu nem vejo, de tão pequenos.

os limões da florada de setembro do ano passado continuam crescendo, lentamente. há novas flores, mas não acredito que o limoeiro dê conta de novos frutos antes que os já existentes estejam acabados. o limoeiro que eu acompanhava anos atrás era tão vasto e sempre cheio de limões que eu só reparava nele quando estava bojudo de limões maduros, e nós os colhíamos para guardar o suco congelado em formas de gelo. ou quando a floração era tanta que dava até enjoo. um dos perfumes mais maravilhosos. nem me incomodava colher algumas flores pra guardar no vinagre. era outro tipo de limão, também. este pé aqui é pequeno, num vaso pequeno. por mais que eu o alimente, as raízes devem sofrer um pouco emboladas, sem poder se distender como quem espreguiça. desde que plantei os morangos no mesmo vaso, penso que ele está mais feliz. não sei se é porque as folhas do morango sombreiam a terra e mantém a umidade, ou pela companhia, mesmo. é tão bonito ver os morangos vermelhos entre a folhagem.

como venta muito ali no alto, o melhor seria não insistir com plantas tropicais e buscar plantas mediterrâneas que gostem de vento e não precisem de muita água. as mudas de aloe vera, por exemplo, estão muito bem. um dos alecrins morreu e acho que foi por excesso de água e falta de vento. mas o outro segue bonito. talvez trazer outros alecrins para virem morar aqui. e um loureiro. e uma figueira. uma oliveira. mesmo que cresçam pouco porque vão ficar em vasos, provavelmente serão mais felizes do que seria um pé de maracujá.

no ano que vem, na primavera, vou buscar mudas. agora, que o verão vai acabando, é melhor fazer manutenção, poda, e não inventar muita moda de planta nova. é um momento difícil esse de preparação para o inverno. algumas plantas ainda estão produzindo, mas não vai dar tempo do fruto amadurecer antes que chegue o inverno. e com pouco sol, nada amadurece.

vou deixar um  ano sem plantar tomates. este ano tiveram alguma praga, alguma doença que deixa as folhas secas de um dia para o outro. e uns bichinhos formam umas bolinhas pretas, uns furos, nos tomates. por dentro, continuam bons, não parecem bichados, mas estragam mais depressa. se deixar o tomate furado no pé, o bichinho come tudo por dentro. imagino que um ano sem tomates e estes bichos procurem outro lugar para morar que não o nosso terraço.

a parede onde está a treliça também vai precisar de algum tratamento de choque. tudo o que encosta ali fica amarelo e com umas teinhas de aranha, vejo cocozinhos, como os de lagartas mínimas, mas não vejo os bichos. é engraçado pensar num bicho que faça um cocô que é maior do que ele.

***

sei de uma pessoa que é assim. um cara pequeno, mesquinho, mas que fez uma merda imensa no mundo. nem preciso dizer o nome. aliás, melhor não dizer o nome. só atrai coisa ruim e mais merda.

***

quando vejo as plantas penso muito nas parábolas cristãs. minha compreensão do cristianismo na infância se deu pelas parábolas. algumas eu gostava muito, como a da semente nas pedras, entre os espinhos ou na terra boa. a da figueira, me assustava um pouco. também o do enterrar o talento. duas parábolas eu demorei meia vida para entender. uma é aquela que os trabalhadores são convocados em momentos diferentes para trabalhar num lugar. e no fim do dia os que trabalharam só uma hora ganham o mesmo que os que trabalharam e se cansaram o dia inteiro. demorei para entender o mistério do amor. como também o sobre o amor a parábola do filho pródigo. eu achava que era sobre arrependimento ou sobre a inveja – porque o filho mais novo fica super abalado com a festa que se faz para o filho que volta. mas tenho pensado que se trata de outra coisa. é sobre o amor. é sobre a saudade. e é sobre as diferentes formas de manifestar o amor. apesar dos horrores que se cometeu e se comete em nome de cristo, acho que o amor em todas as suas manifestações foi uma grande contribuição pro mundo. eu, com minhas limitações, meu ego tão grande e barulhento, só consegui entender algumas coisas com a maternidade e este amor que dizem incondicional. não sei se é incondicional, mas é imenso, sim.

ainda me faltam frutos, pra não secar como uma figueira. 

***

a parede caiada define os limites da casa
o sono amarfanhado entre lençois
lá fora a neblina, esse dia opaco
a catarata obstruindo a vista
o papel à sua frente
as mãos

alguém se prepara para viajar sem malas


20 de setembro de 2021

a história do sofrimento do mundo

ontem, 19 de setembro, fez trinta anos que encontraram o ötzi. eu só o conheci em 2012 quando por acaso, passeando por montjuic entramos no museu de arqueologia e lá estava a exposição com uma réplica da múmia e de todas as suas coisas. me lembro de ter ficado muito impressionada, de ter anotado coisas, de ter pesquisado depois. mais que tudo, o tempo passando sobre um corpo morto no meio da neve, seus pertences espalhados em volta, e tudo ali, intacto. um corpo morto é frágil, não é um monumento construído com pedras. e no entanto. cinco mil anos no meio da neve, caído, depois de levar uma flechada não se sabe de quem. meu texto sobre o ötzi virou uma postagem no blogue.

quando o a pé/a peu começou a ser pensado, o texto do ötzi entrava e saía da lista de textos a serem incluídos. até vencer a inclusão. e sempre que vamos fazer uma leitura juntos, joan me diz: e o ötzi, você não vai ler? e eu leio. leio os dois textos que o joan mais gosta (ötzi e ajka) e vou variando os outros. sei que o público não se repete, mas imagino a minha voz viajando pelo universo e talvez eu gostasse que outros poemas também ganhassem a imensidão na minha ou em outra voz, mas numa voz. por isso vario ao máximo o que leio.

a versão final que entrou no livro ficou um pouco diferente do que estava no blogue. e eu gosto mais.

***

ontem também foi aniversário da neide rigo. fez sessenta. um número que assusta quando trinta, quarenta ou cinquenta já perderam seu poder de assustar. mas quem diz que a neide se assusta com alguma coisa? a neide é quem mais insistiu com a ideia de dar vida ao ando a pé. como agradecer, né? difícil. agradecer é tão difícil quanto dizer o amor. porque não é dizendo que se diz, mas sem dizer o outro pode não saber. mas por que é que o outro precisa saber o quanto a gente agradece ou o quanto a gente ama? deveria bastar estar agradecido, e amar. mesmo sem dizer nada.

e basta?

***

voltando de leucate onde fomos para escapar do final de semana com fogos em barcelona e aproveitando para comer ostras, passamos por portbou, onde está o memorial para walter benjamin. por coincidência, um dia antes eu tinha comprado figos e no final de setembro é aniversário de morte do benjamin.

uma vez li acho que nalguma postagem do carlito o texto do benjamin sobre sofreguidão ou intensidade ou alguma humana maneira de vivermos. o que mais me marcou do texto era sua paixão por figos e como o acaso decidiu se ele deveria ou não mandar uma carta.

comentei este texto com os meninos quando eram pequenos, a história de estar com a carta no bolso, a indecisão, depois o encontrar os figos, a descrição dos figos com todas as cores, comprar os figos e descobrir que não havia um papel para embrulhá-los e ele teve que meter tudo nos bolsos do paletó, da calça e foi comendo e se lambuzando com os figos maduros. quando comeu o último figo viu que a carta no bolso estava toda destroçada. algum tempo depois, conversando com meu filho mais novo, ele fez algum comentário sobre filosofia como se soubesse o que era. ele disse: pessoas que pensam sobre a vida. perguntei: você conhece algum filósofo? e ele disse que sim, o dos figos! e depois: ele não tinha mãe?

meu filho, agora crescido, disse que não gostava de pensar nas grandes questões da vida. que o deixavam sem chão. e achava que as mães podiam resolver tudo. ele agora gosta de pensar. mas algumas coisas ainda lhe dão vertigem: o pequeno que somos diante da imensidão do universo.

conversando sobre isso, paramos em portbou. seguindo pelo google maps, não foi fácil encontrar o monumento. talvez eu esperasse um lugar com mais infraestrutura, não sei, que desse para ver de longe. mas é tão escondido quanto deve ter sido a passagem de benjamin por ali. 

o monumento é àspero e bonito ao mesmo tempo. uma escada de ferro, num corredor de ferro, descendo íngreme para o precipício, um vidro que impede cair no mar. descemos os degraus, lemos a citação, olhamos o mar azul do mediterrâneo neste divisa entre frança e espanha (ai, as fronteiras...). fiz uma oração do meu jeito. por mim e pelo joan, em nome de quem eu também estava ali. pensei também nos meus avós. para quem a guerra durou até o fim da vida. pensei em mim e nas tantas guerras que testemunhamos e calamos.

pensei nos figos. nos meus filhos. e na imensidão das vertigens.