19 de fevereiro de 2019

sobre a mulher de lot

três poemas e mais um

A Mulher de Lot

(Wislawa Szymborska)

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

Tradução: Regina Przybycien


A Mulher de Lot
(Anna Akhmatova) 
          A mulher de Lot, que o seguia, olhou
          para trás e transformou-se numa estátua de sal.
                                    Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.

Tradução: Lauro Machado Coelho


Mirar atrás
(Ursula K. Le Guin)

Acuérdense de mí como era antes de ese montón de sal,
la nena que se reía todo el tiempo y rara vez hacía
lo que le mandaban ni venía cuando la llamaban,
la nena alegre que después fue la esposa de Lot,
esa mujer feliz que amaba su ciudad pecaminosa.
No se acuerden de mí compadeciéndose.
Yo los vi allá adelante arrastrando los pies
por el desierto de su fe sin compasión.
Estos manantiales se secaron, esa tierra está muerta.
Miré atrás, no adelante, hacia la muerte.
Compasivas, las lluvias me disuelven, y yo vuelvo
aún desobediente, aún feliz, a casa. 

Tradução: Ezequiel Zaidenwerg 



La mujer de Lot
(Amalia Bautista)

Nadie nos ha aclarado todavía
si la mujer de Lot fue convertida
en estatua de sal como castigo
a la curiosidad irrefrenable
y a la desobediencia solamente,
o si se dio la vuelta porque en medio
de todo aquel incendio pavoroso
ardía el corazón que más amaba.






11 de janeiro de 2019

pedras e gemas


Pedras
(Gemma Gorga)

Se a voz pudesse sair nas fotografias
como sai a sombra ou a ternura – apesar de serem
realidades mais vulneráveis –, ouviria
uma vez mais meu pai me explicando que, antes
de pegar uma pedra, é preciso fazê-la rolar
com o pé ou com um graveto para espantar
os escorpiões que nelas se escondem como espinhos secos.
Nunca me preocupei com isso. Porque ter seis
anos era simples, simples como morrer. Nos dois
casos, não havia mais segredo que o ar:
respirá-lo ou não respirá-lo, como se a alma
fosse cheia de diminutos alvéolos que se abrem
e se fecham. O primeiro escorpião que vi
foi no livro de ciências naturais,
preso para sempre entre as pinças severas
do tempo. Às vezes, no entanto, os livros não explicam
toda a verdade, como se não a soubessem
ou a tivessem esquecido a caminho da impressão.
Aracnídeo que tem o corpo dividido em abdômen
e cefalotórax. Não dizia nada do sol
ardente na língua, do medo, da espiga
atravessada na garganta. Eu não sabia então
que as palavras são imensos icebergues
que escondem sob as águas geladas muito
mais do que mostram. Como a palavra escorpião.
E agora, enquanto o telefone toca insistentemente
– um grito agudo na madrugada – enquanto me levanto,
acendo a luz, aproximo a mão ao seu corpo branco
de plástico que brilha como uma pedra ao sol,
enquanto o atendo, e digo alô!, e alguém me diz que estás morto,
eu só penso nos escorpiões, e naquilo
que querias me dizer quando repetias: role
as pedras, por favor, role as pedras.

 

 

Pedres

(Gemma Gorga)

Si la veu pogués sortir a les fotografies
com hi surt l’ombra o la tendresa –tot i ser
realitats més vulnerables–, sentiria
un cop més el meu pare explicant-me que, abans
de collir una pedra, cal fer-la rodolar
amb el peu o amb una branca per espantar
els escorpins que s’hi amaguen com punxes seques.
Mai no vaig preocupar-me’n. Perquè tenir sis
anys era senzill, senzill com morir-se. En tots
dos casos, no hi havia més secret que l’aire:
respirar-lo o no respirar-lo, com si l’ànima
fos plena de diminuts alvèols que s’obren
i es tanquen. El primer escorpí que vaig veure
va ser al llibre de ciències naturals,
atrapat per sempre entre les pinces severes
del temps. De vegades, però, els llibres no expliquen
tota la veritat, com si no la sabessin
o l’haguessin oblidat camí de la impremta.
Aràcnid que té el cos dividit en abdomen
i cefalotòrax
. Res no hi deia del sol
ardent a la llengua, de la por, de l’espiga
travessada al coll. Jo no sabia llavors
que les paraules són immensos icebergs
que oculten sota les aigües glaçades molt
més del que mostren. Com la paraula escorpí.
I ara, mentre el telèfon sona insistentment
–un crit agut de matinada–, mentre em llevo,
encenc el llum, acosto la mà al seu cos blanc
de plàstic que brilla com una pedra al sol,
mentre el despenjo, i dic ?, i algú em diu que ets mort,
jo només penso en els escorpins, en allò
que volies dir-me quan repeties fes
rodar les pedres, sisplau, fes rodar les pedres
.


7 de outubro de 2018

fermento na massa

voto.
volto pra casa e preparo pão. farinha, fermento, água, sal. o pão é um exercício de confiança no futuro e de nenhuma arrogância. que o pão fique bom não depende só de mim e do que eu seja capaz. depende muito da farinha, que por sua vez depende do trigo, que depende da terra e da água e da semente que dá origem ao trigo. a farinha depende de quem plantou o trigo, de quem o moeu, de quem o armazenou e o fez chegar até mim. as minhas mãos que o amassam. o sal e sua trajetória desde o mar. a água e seus caminhos. o fermento é sempre uma confiança no futuro. o fermento é feito de farinhas e águas juntadas a outras farinhas e águas fermentadas, remetendo a vidas passadas e variadas que vieram muito antes de nós. este amassar me lembra que minha mão é necessária mas não suficiente para que esta mistura de sólidos e líquidos e fermentos cresça e, ao assar, se transforme em pão. sei que a esperança de um pão compartilhado aumenta as chances de que a massa que amasso e asso se torne um bom pão. mas sei também que as mãos que plantaram a semente, que colheram, a que moeram e fizeram o trigo se tornar farinha não conhecme a minha mão e, no entanto, delas também, de todas nossas mãos – passadas e presentes - depende este momento, em que uma massa se transforma, e que tenhamos todos pão para comer.
pus o pão no forno.
espero.

20 de setembro de 2018

gabriel: um poema

há duas elegias que carrego comigo há tempos. a do drummond (Ganhei (perdi) meu dia. E baixa a coisa fria também chamada noite, e o frio ao frio em bruma se entrelaça, num suspiro. E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil para mim que esperava os grandes sóis violentos, me sentia tão rico deste dia e lá se foi secreto, ao serro frio.) e a do rilke (Quem, de toda a legião dos anjos, se eu gritasse me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração Aniquilar-me-ia sua existencia demasiado forte. Pois, que é o belo senão o grau do terrível que somos capazes de suportar Porque impassível desdenha destruir-nos? Todo anjo é terrível.)
este ano, Aníbal me apresentou gabriel, do edward hirsch. e há meses, trago comigo esse longo poema que é, dentre muitas outras coisas, a elaboração do luto pela perda de um filho. traduzo (toscamente) um dos poemas. recomendo (vivamente) que leiam o livro, agora também traduzido para o espanhol, numa edição kriller.


o poema do hirsch:

Eu não sabia que o trabalho do luto
É como carregar um saco de cimento
Morro acima na noite

Nâo se vê o cimo
Porque não há cimo
Pobre aflição de Sísifo

Eu não sabia que seria uma luta
Entre arbustos rasteiros
Sem caminho para cima

Porque não há caminho
Só uma rocha abrupta
Com um rio onde cair

E o tempo com seus aposentos medievais
O tempo com suas arestas irregulares
E instrumentos contundentes

Eu não sabia que o trabalho do luto
É uma lida na escuridão
Que carregamos por dentro

Ainda que às vezes quando durmo
Estou de novo com ele
E logo desperto

Pobre pena de Sísifo
Não estou preparado para este pesadelo
Cimentado em meu corpo

Observe atentamente e você verá
Quase todos carregando sacos
De cimento em seus ombros

Por isso é preciso valentia
Para se levantar da cama a cada manhã
E escalar o dia

6 de setembro de 2018

pedras

é pelas pedras que a gente sabe onde está.
nosso saber tem sido isso, pedras.
e onde elas estão.

17 de agosto de 2018

...

um atentado
um atentado é um atentado
um atentado quer chamar a atenção e chama
quer despertar o medo e desperta

o atentado deixa a gente frágil como o diabo
imaginando coisas que podem poderiam poderão acontecer
com os amigos os filhos os conhecidos os desconhecidos

o atentado assusta assim tão perto
o atentado assusta assim tão conhecido o lugar onde tudo explode onde um carro passa por cima onde feridos sangue mortos a explosão
tudo
um atentado libera tudo, os monstros

foram os chamados bárbaros que impuseram um novo modo de atar os cavalos. antes, para puxar um carro, eram amarrados pelo pescoço, e perdiam o fôlego. ao serem presos pelas omoplatas, aumentaram até quatro vezes sua força de tração.

25 de junho de 2018

o que parece longe

se me perguntassem eu diria nem tanto pelas palmeiras nem tanto pelo gorjeio do sabiá. mas mais, muito mais, pela manga, a banana, a tapioca, o quiabo, o jiló, os feijões, o pastel, a garapa, a feira. os perfumes da feira. o gosto amarelo da lima da pérsia. o sol morno logo de manhãzinha. mais ainda as mesas fartas, os abraços que a gente é capaz. os risos. as chuvas fortes. minha mãe. as comadres. os irmãos, os amigos. algum vizinho. qualquer canção.
vou ali. e demoro. estarei mais perto, parecendo longe.

12 de maio de 2018

guerra, guerras

para chegar em alguns lugares que se quer chegar, nem sempre os caminhos são amáveis. por exemplo, me ocupo da segunda guerra mundial. e as mulheres violentadas de tantas formas pelas tropas, por todas as tropas. me pergunto o que havia no cotidiano daquele país, daquela população que apostou numa ditadura racista, assassina, absurda, e que havia perdido. e porque sabia que havia participado, ainda que indiretamente do horror, se calava.
entre as tantas leituras, chego em sebald, sobre a história natural da destruição.
“Com a data de 20 de agosto de 1943, na passagem anteriormente citada, Friedrich Reck informa de uns quarenta ou cinquenta fugitivos que tentaram assaltar um trem em uma estação da Alta Baviera. Na tentativa, uma mala de papelão “caiu numa plataforma, se arrebentou e todo o seu contéudo virou. Brinquedos, um estojo de manicure, roupa interior chamuscada. Finalmente, o cadáver de um menino assado e mumificado, que aquela mulher meio louca levava consigo como resto de um passado que poucos dias antes estava intacto.” “
ou
“(...) só com os lança-chamas podiam abrir caminho até os cadáveres que jaziam nos abrigos antiaéreos, tão densas eram as nuvens de moscas que zumbiam ao seu redor, e as escadarias e o chão dos porões estavam cobertos por vermes resvaladiços, mais grossos que um dedo. “Ratazanas e moscas dominavam a cidade. Insolentes e gordas, as ratazanas corriam pelas ruas. Mas mais repugnantes eram as moscas. Grandes, de reflexos esverdeados, como nunca se tinha visto. Davam voltas como caroços pelo asfalto, pousavam nos restos de parede copulando umas sobre outras e se aqueciam, cansadas e fartas, nos vidros quebrados das janelas. Quando já não podiam voar, arrastavam atrás de nós através das mais mínimas fendas, sujavam tudo, e seus sussurros e zumbidos eram a primeira coisa que ouvíamos ao despertar.”
no brasil, agora temos documentos que nos explicam que os generais da ditadura estavam informados e decidiam, caso a caso, quem viveria e quem morreria. nome por nome. por que a gente faz isso? por que a gente acha que a supressão do outro, sua morte, é que nos salva a vida?

3 de maio de 2018

tucum

em setembro de 1989, no pará e numa situação muito especial, ganhei um anel de tucum. nestes anos todos, até anteontem, este anel esteve no meu dedo. sempre. sempre. sempre me lembrando o que não me esqueço, a tal opção preferencial. nestes anos todos o anel aproximou e afastou gente, como um farol (quem vive ao lado já nem nota, mas é importante para quem navega na escuridão). há dois dias o anel quebrou em quatro. o preto noite do tucum era só um anel. eu sei. dois dias que vou e volto numa viagem no tempo. a água sob a ponte. a ponte. o rio. tudo o que fomos. o pouco que fiz. depois, na mesma noite, talvez, sonhei que cuidava de alguém que não conseguia andar. eu acolhia, abraçava, acalentava. o pão e os abraços.

ao sol


dia desses, sentada ao sol na praça do rei, me dei conta que fazia figuração pras fotos dos turistas. eu e umas tantas pessoas, nosso intervalo  de um dia qualquer e ninguém se pergunta  quem somos por que esperamos por que um de nós chora num canto quem é este mendigo. os turistas chegam, sobrevoam, riscam de sua lista “praça do rei”.  há grupos de turistas instalados em alguns pontos da cidade. olhando com atenção é possível notar que os grupos parecem permanecer, mas a cada vez são outros. os turistas, todos tão iguais. eles vão, a gente fica, sentado nas escadarias da praça do rei num intervado de um dia qualquer. fazendo figuração. entre eles, há adolescentes de pernas desproporcionais, movendo-se, como bandos de pombas quando se joga umas migalhas de pão. o gótico. o tempo. penso na morte. nesse exato momento ao sol sei que figurantes, adolescentes e turistas evitam pensar na morte. porque sempre evitamos o pensamento morte entre um cigarro e outro uma foto e outra um dia e o seguinte mesmo que os sonhos a cada noite se tornem pesadelos e horror. neste, e em todos os momentos, queremos ser sempre eternos. sorrisos congelados. fumaça de cigarros. na praça do rei. ao sol. 

no centro de são paulo um prédio desaba. eram cento e cinquenta famílias. quarenta e nove mortos e há quem condene os que não voltaram para salvar seus bichos.