24 de fevereiro de 2023

pra viver sobre as ânforas

para construir o parlamento húngaro, escavaram as colinas sob os vinhedos de um povoado que ficava próximo a buda, na beira do danúbio. toneladas de pedras foram retiradas sem destruir os campos transformando o subsolo num imenso recorrido de cavernas. cavernas extensas que serviram de adegas de vinho e espumante. cavernas que foram casa para os pobres de marre-de-si. covas e grutas abandonadas. resgatadas tempos depois para a produção de champignon, com denominação de origem. instalaram-se ventilações, circuitos de transporte, vias de acesso para caminhões e barcos fazendo funcionar estas fazendas subterraneas de cogumelos. com o passar dos anos, na medida em que o povoado se conurbava com budapest, esqueceram-se vinhedos e cogumelos, cada vez mais e mais casas erguiam-se ocupando os campos e as colinas. algumas destas casas chegam a aproveitar as grutas subterraneas como se fossem porão. em outras casas, que estão a trës ou vinte metros acima do teto da caverna, os moradores às vezes nem suspeitam do oco sob os pès. em outras, ainda, nos jardins os escorregadores das crianças convivem com os respiradouros por onde sai o ar gasto das grutas usadas para sabe-se-lá-o-quê (de clubes de tiro e paintball a adegas, restaurantes, armazéns. fungos. e nadas.) um imenso mundo subterrâneo de grutas úmidas e escuras e misteriosas, repletas de mofo e silêncio, conectadas entre si ou não em um intrincado desenho de caminhos quase desconhecidos. um distrito inteiro vivendo em cima de uma pedra que mais parece um queijo suiço. uma das cidades de calvino. a paisagem, sim, é linda.