19 de julho de 2019

eclipses



é inevitável: a sombra vem. mas depois vai embora.

das tempestades

tenho me perguntado o que fazer nas tempestades.
*
antes de ontem fomos assistir shunske sato e seu violino tocando bach. o dia estava azul quando entramos na sala de pé direito alto e janelas grandes. no meio da bwv 1005 começou a mudar o tempo. das montanhas chegavam nuvens cinzas e raios tão raros por aqui. o som do violino invadindo o por dentro da gente. capacidade da música de me fazer pensar mistérios: naquele momento, a vida nossa, meus filhos existindo ali.
a chuva chegou forte, intensa, revirando tudo o que estava fora da música de bach que brotava de shunske e seu violino. uma goteira começou a pingar do alto teto e escorrendo pela luminária caía na cabeça do violinista que seguia na fuga. só ao terminar o movimento, pediu desculpas, e avisou da goteira e de seu cabelo molhado. apagadas as luzes para evitar um curto-circuito, shunske sato voltou a tocar. escurecia, a chuva ocupava todas as janelas. ninguém se mexia.
**
um dia li um livro quase bobo sobre uma mulher cujo primeiro amor foi um lobo de dentes amarelos. e o segundo amor, bach. ao longo da história ela repetia: vivo entre um lobo e um gordo. lembrei do livro. pensei no gordo nos abraçando. pensei na tata.
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foi uma das tempestades mais bonitas que já vivi.

12 de julho de 2019

frente aos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados

acho que euclides da cunha foi o meu porquinho da índia. foi um professor de português – destes que é amado por todos – quem me apresentou euclides da cunha, me levando para uma semana euclidiana quando eu tinha 14 anos e estava no primeiro colegial..
uma vez por ano em são josé do rio pardo, onde euclides da cunha escreveu os sertões enquanto trabalhava na construção de uma ponte, vários euclidianistas se reúnem há muitos e muitos anos, sempre em agosto.
por uma semana devorávamos euclides da cunha no café da manhã, no almoço e no jantar. também havia referências ao clidão nas festas que varavam a madrugada, nas idas ao cristo, para ver o sol nascer. tudo em nós era euclides e suas obras. dos sertões sabíamos (e ainda sei) vários trechos. mas não era só isso. sabíamos todos os livros, cartas, dramas, amores, medos, autores que dele se ocuparam. tomávamos partido em relação a dilermando e o exército brasileiro. amávamos antonio conselheiro e o sertanejo que "é antes de tudo um forte", nos embrenhávamos mentalmente também na fronteira onde hoje é o acre, o judas ahsverus ("no sábado de aleluia os seringueiros do alto purus desforram-se de seus dias tristes".), estávamos, éramos (e ainda somos) euclides da cunha.
me encantavam em euclides sua capacidade de mudar de ponto de vista ao se deparar com a realidade do sertão, sua exatidão com as palavras e seu olhar triste nas fotos. mas também sempre me fascinou que tantas pessoas por tantas décadas seguidas tivessem se reunido num lugar sem graça como é são josé do rio pardo para estudar e de certa forma reverenciar a memória de um escritor. é uma perseverança quase melancólica.
na medida em que o tempo passou entendi também que as semanas euclidianas eram um espaço de resistência quase popular. não eram os estudantes das dez escolas mais bacanas de são paulo que iam pra lá. eram estudantes das escolas públicas nas quais alguém – uma professora, um professor, um estudante veterano – conheciam as semanas euclidianas e insistiam para que os estudantes se candidatassem às poucas vagas que havia, e assim descobrissem euclides da cunha. descobrindo euclides, também descobrissem e se apaixonassem pelo que somos brasil. a terra, o homem, a guerra e, no fim de tudo, “um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.
em cada semana euclidiana, nós, os que não éramos os estudantes das escolas de elite deste país, nos reconhecíamos neste velho, nestes dois homens feitos e nesta criança. e sonhávamos que um dia o jogo da política se alteraria de tal maneira que os cinco mil soldados mudariam de lado, passando a defender os pobres desta terra.
mas não foi assim, não é assim.
***
euclides da cunha permanece entre os amores da minha vida, destes amores cujas cartas amarelentas revisitamos de tempos em tempos porque em sua intensidade no mostram que é possível encontrar sempre novos amores: amplos, aerados. e, mais que amor, encontrar um tanto de justiça.
***
no meu sonho de país teríamos a cada ano em cada um dos nossos cinco mil municípios ao menos uma semana de estudos dedicada a algum escritor ou escritora brasileiros (tenho certeza que faltaria município pro tanto de gente boa escrevendo que há nesse país), reunindo professores e estudantes a descobrir a alegria que é nos apaixonarmos uns pelos outros. sem paixão pela igualdade e a justiça não há brasa que sobreviva, e, sem brasa, nada de brasil.
*dedico este texto às e aos
Maratonistas Fudegas

 

2 de julho de 2019

três poemas de tomas tranströmer


Postais Negros
I
Agenda cheia, futuro desconhecido.
O cabo cantarola uma canção popular sem pátria.
Neve sobre o mar imóvel como chumbo. Sombras combatem no mole.

II
No meio da vida a morte se aproxima
e tira as medidas do homem. A visita
é esquecida e a vida segue. Mas o terno vai sendo costurado em silêncio.
*

Rabiscos de Fogo
Nos meses sombrios minha vida cintilava só quando fazia amor com você.
Como o vaga-lume se acende e se apaga, se acende e se apaga,
pode-se acompanhar a intervalos o seu trajeto
na escuridão da noite, entre as oliveiras.

Nos meses sombrios a alma esteve naufragada e sem vida
mas o corpo ia direto até você.
O céu noturno mugia.
Escondidos ordenhávamos as estrelas e sobrevivíamos.
*

Arcos Românicos
Dentro da enorme igreja românica se apinhavam os turistas na penumbra.
Abóbada seguida de abóbada e sem visão de conjunto.
Algumas velas bruxuleavam.
Um anjo sem rosto me abraçou e sussurrou por todo o corpo:
“Não tenha vergonha de ser homem, seja altivo!
Dentro de você se abre, interminavelmente, abóbada seguida de abóbada.
Você nunca estará completo, e é assim que tem que ser.”
As lágrimas me cegaram,
fui empurrado para a "piazza" que fervia sob o sol
junto com Mr. e Mrs. Jones, o Senhor Tanaka e a Signora Sabatini
e dentro de todos eles se abria abóbada seguida de abóbada, interminavelmente.
*