12 de julho de 2019

frente aos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados

acho que euclides da cunha foi o meu porquinho da índia. foi um professor de português – destes que é amado por todos – quem me apresentou euclides da cunha, me levando para uma semana euclidiana quando eu tinha 14 anos e estava no primeiro colegial..
uma vez por ano em são josé do rio pardo, onde euclides da cunha escreveu os sertões enquanto trabalhava na construção de uma ponte, vários euclidianistas se reúnem há muitos e muitos anos, sempre em agosto.
por uma semana devorávamos euclides da cunha no café da manhã, no almoço e no jantar. também havia referências ao clidão nas festas que varavam a madrugada, nas idas ao cristo, para ver o sol nascer. tudo em nós era euclides e suas obras. dos sertões sabíamos (e ainda sei) vários trechos. mas não era só isso. sabíamos todos os livros, cartas, dramas, amores, medos, autores que dele se ocuparam. tomávamos partido em relação a dilermando e o exército brasileiro. amávamos antonio conselheiro e o sertanejo que "é antes de tudo um forte", nos embrenhávamos mentalmente também na fronteira onde hoje é o acre, o judas ahsverus ("no sábado de aleluia os seringueiros do alto purus desforram-se de seus dias tristes".), estávamos, éramos (e ainda somos) euclides da cunha.
me encantavam em euclides sua capacidade de mudar de ponto de vista ao se deparar com a realidade do sertão, sua exatidão com as palavras e seu olhar triste nas fotos. mas também sempre me fascinou que tantas pessoas por tantas décadas seguidas tivessem se reunido num lugar sem graça como é são josé do rio pardo para estudar e de certa forma reverenciar a memória de um escritor. é uma perseverança quase melancólica.
na medida em que o tempo passou entendi também que as semanas euclidianas eram um espaço de resistência quase popular. não eram os estudantes das dez escolas mais bacanas de são paulo que iam pra lá. eram estudantes das escolas públicas nas quais alguém – uma professora, um professor, um estudante veterano – conheciam as semanas euclidianas e insistiam para que os estudantes se candidatassem às poucas vagas que havia, e assim descobrissem euclides da cunha. descobrindo euclides, também descobrissem e se apaixonassem pelo que somos brasil. a terra, o homem, a guerra e, no fim de tudo, “um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.
em cada semana euclidiana, nós, os que não éramos os estudantes das escolas de elite deste país, nos reconhecíamos neste velho, nestes dois homens feitos e nesta criança. e sonhávamos que um dia o jogo da política se alteraria de tal maneira que os cinco mil soldados mudariam de lado, passando a defender os pobres desta terra.
mas não foi assim, não é assim.
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euclides da cunha permanece entre os amores da minha vida, destes amores cujas cartas amarelentas revisitamos de tempos em tempos porque em sua intensidade nos mostram que é possível encontrar sempre novos amores: amplos, aerados. e, mais que amor, encontrar um tanto de justiça.
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no meu sonho de país teríamos a cada ano em cada um dos nossos cinco mil municípios ao menos uma semana de estudos dedicada a algum escritor ou escritora brasileiros (tenho certeza que faltaria município pro tanto de gente boa escrevendo que há nesse país), reunindo professores e estudantes a descobrir a alegria que é nos apaixonarmos uns pelos outros. sem paixão pela igualdade e a justiça não há brasa que sobreviva, e, sem brasa, nada de brasil.
 
*dedico este texto às e aos
Maratonistas Fudegas

 

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