14 de maio de 2015

sempre



(desde que ela morreu)
não esqueço o cheiro daquele quarto de hospital
podíamos abrir a janela
podíamos trazer flores
e o não perfume amarelo
a se depositar na pele - dela –
minha mão
uma carícia meu corpo
um abraço e a vida, ali,
estancada

não podíamos saber que era aquilo a morte
(mas desde que ela, sim, eu sei)
o olhar vazio e o ar pesado em volta
tudo também era espera
(desde que ela)
o amassar de um papel o inverno
a pá de terra que não caiu

a cada mês penso menos nisso
e mais em outros dias seus suspiros e risos
cada vez tenho mais pedras na vesícula
esta tensão no ar própria da vida
helicópteros carros de polícia
as acácias em flor

por todos os cantos a terra pulsa
pulsa
pulsa
em toda terra o semear
em toda terra o dia de um dia se deixar esquecer

(ainda que ela)

2 comentários:

Maria Eu disse...

Fica entranhada nos sentidos, a lembrança última...

António Centeio disse...
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