3 de maio de 2018

ao sol


dia desses, sentada ao sol na praça do rei, me dei conta que fazia figuração pras fotos dos turistas. eu e umas tantas pessoas, nosso intervalo  de um dia qualquer e ninguém se pergunta  quem somos por que esperamos por que um de nós chora num canto quem é este mendigo. os turistas chegam, sobrevoam, riscam de sua lista “praça do rei”.  há grupos de turistas instalados em alguns pontos da cidade. olhando com atenção é possível notar que os grupos parecem permanecer, mas a cada vez são outros. os turistas, todos tão iguais. eles vão, a gente fica, sentado nas escadarias da praça do rei num intervado de um dia qualquer. fazendo figuração. entre eles, há adolescentes de pernas desproporcionais, movendo-se, como bandos de pombas quando se joga umas migalhas de pão. o gótico. o tempo. penso na morte. nesse exato momento ao sol sei que figurantes, adolescentes e turistas evitam pensar na morte. porque sempre evitamos o pensamento morte entre um cigarro e outro uma foto e outra um dia e o seguinte mesmo que os sonhos a cada noite se tornem pesadelos e horror. neste, e em todos os momentos, queremos ser sempre eternos. sorrisos congelados. fumaça de cigarros. na praça do rei. ao sol. 

no centro de são paulo um prédio desaba. eram cento e cinquenta famílias. quarenta e nove mortos e há quem condene os que não voltaram para salvar seus bichos.

2 comentários:

Maria Eu disse...

A indiferença e o alheamento da(s) vida(s) que se arrastam ao ritmo de um programa que nem se dão conta existir.

regina disse...

Suas reflexões são muito pertinentes. É bem assim mesmo que acontece a relação entre turistas e moradores. Não temos mais tempo para pelo menos conhecer o outro.