26 de fevereiro de 2026

krasznahorkai

quando assisti o cavalo de turim, filme do béla tarr, fiquei tão impressionada que em seguida assisti de novo. e de novo. e quis ver, ler o roteiro. não achei em lugar nenhum, mas encontrei livros do cara que tinha feito o roteiro junto com o tarr: laszlo krasznahorkai. e fui lendo os livros dele que me chegavam. em húngaro (não foi fácil) ou em espanhol, nas traduções do adan kovacsics. e fiquei impressionada. nos filmes do béla tarr há uma delicadeza em olhar o mundo e o humano. sem deixar de fora a miséria de que somos capazes, revela também a beleza que aí está. e os livros do krasznahorkai também têm esta qualidade. o que explica a parceria entre eles.
ontem, o centro de cultura contemporanea de barcelona promoveu um debate entre o krasznahorkai e seu tradutor para o espanhol, o kovacsics. não sou muito de querer conhecer pessoalmente quem escreve os livros que eu gosto porque em geral pessoa e livro não coincidem muito, ainda mais em espaços públicos, em meio a multidões. também não sou muito de ler quem ganha prêmios. e os prêmios, mesmo o nobel, já não me impressionam muito. mas, no fim das contas, era um escritor húngaro que eu gosto tanto e na cidade onde moro.
fui lá para ver e ouvir.
e foi tão bonito.
estava a uns cinco metros dos dois caras conversando em húngaro diante de umas seiscentas pessoas como se estivessem conversando na casa de um deles. ou quase isso. ambos atenciosos um com o outro e com o entorno, ambos de bom humor, falando de livros e pessoas, falando de mundos e pontos de vista. duas pessoas que vale a pena escutar.
mas mais do que isso, falavam húngaro. e quem me conhece sabe o quanto, para mim, o húngaro é a língua do íntimo, dos afetos, das coisas que primeiro chegaram na minha vida. é a língua do pai, da mãe, dos avós, dos que ficaram longe depois da guerra. e mesmo que hoje a hungria esteja num momento bem ruim politicamente, estes dois falavam de tempos que foram piores mas também de tudo que há de luminoso no meio da escuridão dos dias. era um modo de estar de novo na casa onde nasci ou estar em visita na casa dos parentes na hungria, ouvindo as notícias de um que se foi, outra que se casou, os filhos, os que morreram, visitar o cemitério. e isso tudo ontem, no dia que meu pai teria feito 92 anos, e isso tudo quando já não há mais pai, mãe, avós, nem meu tio tão querido, com quem era tão bom estar horas e horas conversando, como conversavam ontem o laszlo e o adan. isso tudo quando a vida parece tão opaca.
e então uma luzinha se acende.
dedico esta postagem à minha prima-irmã Skrabák-Paulics Petra

 

16 de fevereiro de 2026

fotos de quem anda a esmo

 

há alguns meses, recebi um convite para expor minhas fotos e alguns poemas. a primeira reação foi de surpresa e negação: fotos minhas? acho que não… mas como o convite veio de alguém que eu gosto e respeito muito, que é a angélica padovani, e a proposta era fazer uma exposição simples, sem pretensão, topei.
comecei revisitando as fotos do instagram. e me surpreendi. porque em 2017 a ideia, por incrível que pareça, não era postar “fotos”. por um lado, fazia muito tempo que eu não fotografava e, por outro, a moda de postar fotos com filtros que o instagram tinha inaugurado, já tinha passado e ainda não era o substituto do facebook. entrei foi para acompanhar minha filha que era muito nova e queria postar seus desenhos e eu queria estar perto. para criar o hábito de entrar no aplicativo, inventei de aproveitar minhas caminhadas pela cidade para fazer umas quantas fotos, depois escolhia uma delas, recortava no enquadramento que me parecia melhor, postava, visitava a página da minha filha, fim.
no começo eram fotos de coisas que me chamavam a atenção, paisagens, objetos, situações. às vezes com algum comentário. rapidamente, passou a me interessar mais a composição em si. a imagem ali congelada, o enquadramento, a luz, e não o que a foto fotografou.
ao revisitar as mais de duas mil fotos e buscar nos meus arquivos, também me dei conta de que eu não esperava nada destas imagens, eram fotos de certa maneira efêmeras: fazia a foto, subia na página e apagava o original. afinal, para que guardá-las? também notei, ao encontrar alguns dos originais, que o que eu gostava nelas era só um pedacinho, um recorte específico. e foi ao fazer estes movimentos de olhar o todo feito de pequenas partes e olhar cada parte recortada do todo, ao reparar neste jogo entre o imenso e o mínimo, entre o rascunho e o consolidado, ao reparar em como olho o mundo quando por ele ando, entendi a conexão entre o meu jeito de escrever e o meu jeito de fotografar: ando a pé, buscando que a vida passe devagar e eu possa ver.