há duas semanas morreu um amigo muito querido. sei que todos morreremos e todo dia morre alguém. mas os amigos deixam sempre um vão silencioso no nosso coração e nos nossos dias. este amigo foi meu primeiro amigo na cidade onde vim morar, quando não falava a língua, quando não conhecia os costumes, quando não conhecia ninguém. ele abriu tempo na vida dele, me incorporou em seu projeto que iniciava, me apresentou pessoas e lugares. e, mais que isso, foi estando no cotidiano. porque nossos encontros não eram grandes encontros efusivos e festivos, não eram encontros de se fazer fotos e postagens, eram conversas caminhando pelas ruas da cidade, eram cafés ao sol, eram um sentar nos bancos de qualquer praça e desfiar nossas angústias, nossos temas mais banais, mais humanos. o pequeno da vida. a tal coisa que fazemos enquanto planejamos grandes coisas. aquilo que passa desapercebido nas grandes biografias. e no entanto...
nas últimas semanas estivemos especialmente próximos. enquanto eu lidava com problemas banais como caldeiras, vazamentos, agendas, ele lidava com questões existenciais profundas. e também por isso me toma este silêncio imenso, esta tristeza, o sentimento de ter feito pouco, o sentimento de que deveria ter feito mais. mas qual o limite do que se pode fazer pelo outro?
a morte sempre nos faz perguntas, mas a morte deste amigo me interpelou ainda mais.
e que tudo isso fosse uns dias antes do meu aniversário e da páscoa, que são festas de vida, de renascimento, luz, me deixaram mais silenciosa ainda.
para anibal cristobo que morreu no dia 17 de março de 2026.