5 de maio de 2026

el corazon de un perro

hoje se completam sete semanas da morte do aníbal. quarenta e nove dias, diz o livro dos mortos, é o tempo para atravessar o bardo e começar um novo momento. para as que ficamos, um novo momento no respirar. não mais nem menos doloroso, só diferente.

um dos filmes que ele me apresentou, e que vi já tantas vezes, é o coração de um cão, da laurie anderson. primeiro ele me emprestou o texto que um amigo dele transcreveu a partir do filme e editou. quando consegui o livro, eu o li muitas, muitas vezes antes mesmo de assistir o filme. e quando assisti, reparei que conhecia todas falas, todas as reflexões, sabia o que laurie diria em seguida. e sabia as imagens porque anìbal tinha me descrito algumas das sequencias, naquele jeito minucioso de descrever, como se estivesse acabando de inventar.

nestas sete semanas revi e revi o filme uma vez mais e me surpreendeu que não fosse a voz do anibal a voz que narra o texto, e é a voz da laurie.

leio e volto a ler el corazon de un perro e lembro as muitas conversas que tivemos, penso nos tantos horizontes que abrimos nestas nossas conversas. sinto saudades, gostaria de ter o poder de reverter a morte, encontrar anibal vindo de bicicleta na minha direção, passeando comigo e o rumi pelo bairro, subindo e descendo escadarias de metrô, bendizendo poetas, maldizendo o capitalismo, trocando ideias num banco qualquer da consell de cent, falando sobre filhes e educação de filhes e sobre amigues, amores e filmes, e seus livros da kriller e seus livros da coleção que eu mais amava, mula plateada, uma homenagem à mula, que é híbrida, e à canção do grupo sumo, da argentina dos anos oitenta, que dizia:

“Silver moon is oh, so distant
In her black black distant sky
Silver moon is also crying
I don't think she knows just why
Silver moon is oh, so puzzled
By the ways of her new life”

 

28 de abril de 2026

num instante



se há oitenta e seis mil e quatrocentos segundos a cada dia, e se a cada segundo nascem quatro pessoas e morrem duas, a cada segundo também se concebe alguém, alguém já foi concebido há dez segundos, um minuto, um dia, uma semana, um mês. já nasceu alguém há um minuto um dia uma semana, um mês, ano década. isso quer dizer que a cada instante, considerando o segundo sinônimo de instante, a cada instante é possível ter o retrato de uma vida, cada um de nós interpretando um momento específico (momentos específicos e comuns à vida de todo mundo: nascer crescer morrer abraçar comer transpirar beber maldizer espirrar, começar o primeiro passo, rir, fechar os olhos pela última vez) como se víssemos o tempo como quem vê de fora e desde longe um prédio e pudesse ver dentro de cada apartamento o que acontece e em cada janela se constata as pessoas fazendo o que lhes cabe em aquele momento, todas tão humanas enquanto estudam cozinham conversam descem uma escada lavam a louça coçam a cabeça ou dormem e cada um em cada janela não sabe o que os outros fazem, não sabem que o conjunto dos atos perfeitos equivale a um instante concentrado de uma vida inteira. cada um de nós não sabemos que participamos a cada segundo de uma vida toda retratada naquele instante, um flash, de uma vida possível nos lampejos de alegria, na raiva, na tristeza, no desejo, no desanimo, na paixão. nada. não pensamos. nos pensamos únicos, nos pensamos uma sequencia inequívoca e original de instante que se seguem e no entanto lá se vão nossos instantes compondo vidas completas das quais sabemos tão pouco, a cada momento sendo tantos, sendo tanto e num instante, feito um fósforo que se acende e logo se apaga, nos acabamos.




***




num mundo rápido, barulhento, exibido experimente ser lenta, silenciosa, invisível.


***

teu coração baterá cerca de tres bilhões de vezes e três bilhões de intervalos silenciosos haverá na sua vida. o som e o silêncio alternando-se como um ponto de bordado visto do lado direito e do avesso. qual dos lados fica em silêncio?

31 de março de 2026

o silêncio nos dias de festa

há duas semanas morreu um amigo muito querido. sei que todos morreremos e todo dia morre alguém. mas os amigos deixam sempre um vão silencioso no nosso coração e nos nossos dias. este amigo foi meu primeiro amigo na cidade onde vim morar, quando não falava a língua, quando não conhecia os costumes, quando não conhecia ninguém. ele abriu tempo na vida dele, me incorporou em seu projeto que iniciava, me apresentou pessoas e lugares. e, mais que isso, foi estando no cotidiano. porque nossos encontros não eram grandes encontros efusivos e festivos, não eram encontros de se fazer fotos e postagens, eram conversas caminhando pelas ruas da cidade, eram cafés ao sol, eram um sentar nos bancos de qualquer praça e desfiar nossas angústias, nossos temas mais banais, mais humanos. o pequeno da vida. a tal coisa que fazemos enquanto planejamos grandes coisas. aquilo que passa desapercebido nas grandes biografias. e no entanto...
nas últimas semanas estivemos especialmente próximos. enquanto eu lidava com problemas banais como caldeiras, vazamentos, agendas, ele lidava com questões existenciais profundas. e também por isso me toma este silêncio imenso, esta tristeza, o sentimento de ter feito pouco, o sentimento de que deveria ter feito mais. mas qual o limite do que se pode fazer pelo outro?
a morte sempre nos faz perguntas, mas a morte deste amigo me interpelou ainda mais.
e que tudo isso fosse uns dias antes do meu aniversário e da páscoa, que são festas de vida, de renascimento, luz, me deixaram mais silenciosa ainda. 
 
para anibal cristobo que morreu no dia 17 de março de 2026. 
 

26 de fevereiro de 2026

krasznahorkai

quando assisti o cavalo de turim, filme do béla tarr, fiquei tão impressionada que em seguida assisti de novo. e de novo. e quis ver, ler o roteiro. não achei em lugar nenhum, mas encontrei livros do cara que tinha feito o roteiro junto com o tarr: laszlo krasznahorkai. e fui lendo os livros dele que me chegavam. em húngaro (não foi fácil) ou em espanhol, nas traduções do adan kovacsics. e fiquei impressionada. nos filmes do béla tarr há uma delicadeza em olhar o mundo e o humano. sem deixar de fora a miséria de que somos capazes, revela também a beleza que aí está. e os livros do krasznahorkai também têm esta qualidade. o que explica a parceria entre eles.
ontem, o centro de cultura contemporanea de barcelona promoveu um debate entre o krasznahorkai e seu tradutor para o espanhol, o kovacsics. não sou muito de querer conhecer pessoalmente quem escreve os livros que eu gosto porque em geral pessoa e livro não coincidem muito, ainda mais em espaços públicos, em meio a multidões. também não sou muito de ler quem ganha prêmios. e os prêmios, mesmo o nobel, já não me impressionam muito. mas, no fim das contas, era um escritor húngaro que eu gosto tanto e na cidade onde moro.
fui lá para ver e ouvir.
e foi tão bonito.
estava a uns cinco metros dos dois caras conversando em húngaro diante de umas seiscentas pessoas como se estivessem conversando na casa de um deles. ou quase isso. ambos atenciosos um com o outro e com o entorno, ambos de bom humor, falando de livros e pessoas, falando de mundos e pontos de vista. duas pessoas que vale a pena escutar.
mas mais do que isso, falavam húngaro. e quem me conhece sabe o quanto, para mim, o húngaro é a língua do íntimo, dos afetos, das coisas que primeiro chegaram na minha vida. é a língua do pai, da mãe, dos avós, dos que ficaram longe depois da guerra. e mesmo que hoje a hungria esteja num momento bem ruim politicamente, estes dois falavam de tempos que foram piores mas também de tudo que há de luminoso no meio da escuridão dos dias. era um modo de estar de novo na casa onde nasci ou estar em visita na casa dos parentes na hungria, ouvindo as notícias de um que se foi, outra que se casou, os filhos, os que morreram, visitar o cemitério. e isso tudo ontem, no dia que meu pai teria feito 92 anos, e isso tudo quando já não há mais pai, mãe, avós, nem meu tio tão querido, com quem era tão bom estar horas e horas conversando, como conversavam ontem o laszlo e o adan. isso tudo quando a vida parece tão opaca.
e então uma luzinha se acende.
dedico esta postagem à minha prima-irmã Skrabák-Paulics Petra

 

16 de fevereiro de 2026

fotos de quem anda a esmo

 

há alguns meses, recebi um convite para expor minhas fotos e alguns poemas. a primeira reação foi de surpresa e negação: fotos minhas? acho que não… mas como o convite veio de alguém que eu gosto e respeito muito, que é a angélica padovani, e a proposta era fazer uma exposição simples, sem pretensão, topei.
comecei revisitando as fotos do instagram. e me surpreendi. porque em 2017 a ideia, por incrível que pareça, não era postar “fotos”. por um lado, fazia muito tempo que eu não fotografava e, por outro, a moda de postar fotos com filtros que o instagram tinha inaugurado, já tinha passado e ainda não era o substituto do facebook. entrei foi para acompanhar minha filha que era muito nova e queria postar seus desenhos e eu queria estar perto. para criar o hábito de entrar no aplicativo, inventei de aproveitar minhas caminhadas pela cidade para fazer umas quantas fotos, depois escolhia uma delas, recortava no enquadramento que me parecia melhor, postava, visitava a página da minha filha, fim.
no começo eram fotos de coisas que me chamavam a atenção, paisagens, objetos, situações. às vezes com algum comentário. rapidamente, passou a me interessar mais a composição em si. a imagem ali congelada, o enquadramento, a luz, e não o que a foto fotografou.
ao revisitar as mais de duas mil fotos e buscar nos meus arquivos, também me dei conta de que eu não esperava nada destas imagens, eram fotos de certa maneira efêmeras: fazia a foto, subia na página e apagava o original. afinal, para que guardá-las? também notei, ao encontrar alguns dos originais, que o que eu gostava nelas era só um pedacinho, um recorte específico. e foi ao fazer estes movimentos de olhar o todo feito de pequenas partes e olhar cada parte recortada do todo, ao reparar neste jogo entre o imenso e o mínimo, entre o rascunho e o consolidado, ao reparar em como olho o mundo quando por ele ando, entendi a conexão entre o meu jeito de escrever e o meu jeito de fotografar: ando a pé, buscando que a vida passe devagar e eu possa ver.