16 de fevereiro de 2026

fotos de quem anda a esmo

 

há alguns meses, recebi um convite para expor minhas fotos e alguns poemas. a primeira reação foi de surpresa e negação: fotos minhas? acho que não… mas como o convite veio de alguém que eu gosto e respeito muito, que é a angélica padovani, e a proposta era fazer uma exposição simples, sem pretensão, topei.
comecei revisitando as fotos do instagram. e me surpreendi. porque em 2017 a ideia, por incrível que pareça, não era postar “fotos”. por um lado, fazia muito tempo que eu não fotografava e, por outro, a moda de postar fotos com filtros que o instagram tinha inaugurado, já tinha passado e ainda não era o substituto do facebook. entrei foi para acompanhar minha filha que era muito nova e queria postar seus desenhos e eu queria estar perto. para criar o hábito de entrar no aplicativo, inventei de aproveitar minhas caminhadas pela cidade para fazer umas quantas fotos, depois escolhia uma delas, recortava no enquadramento que me parecia melhor, postava, visitava a página da minha filha, fim.
no começo eram fotos de coisas que me chamavam a atenção, paisagens, objetos, situações. às vezes com algum comentário. rapidamente, passou a me interessar mais a composição em si. a imagem ali congelada, o enquadramento, a luz, e não o que a foto fotografou.
ao revisitar as mais de duas mil fotos e buscar nos meus arquivos, também me dei conta de que eu não esperava nada destas imagens, eram fotos de certa maneira efêmeras: fazia a foto, subia na página e apagava o original. afinal, para que guardá-las? também notei, ao encontrar alguns dos originais, que o que eu gostava nelas era só um pedacinho, um recorte específico. e foi ao fazer estes movimentos de olhar o todo feito de pequenas partes e olhar cada parte recortada do todo, ao reparar neste jogo entre o imenso e o mínimo, entre o rascunho e o consolidado, ao reparar em como olho o mundo quando por ele ando, entendi a conexão entre o meu jeito de escrever e o meu jeito de fotografar: ando a pé, buscando que a vida passe devagar e eu possa ver.

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