se há oitenta e seis mil e quatrocentos segundos a cada dia, e se a cada segundo nascem quatro pessoas e morrem duas, a cada segundo também se concebe alguém, alguém já foi concebido há dez segundos, um minuto, um dia, uma semana, um mês. já nasceu alguém há um minuto um dia uma semana, um mês, ano década. isso quer dizer que a cada instante, considerando o segundo sinônimo de instante, a cada instante é possível ter o retrato de uma vida, cada um de nós interpretando um momento específico (momentos específicos e comuns à vida de todo mundo: nascer crescer morrer abraçar comer transpirar beber maldizer espirrar, começar o primeiro passo, rir, fechar os olhos pela última vez) como se víssemos o tempo como quem vê de fora e desde longe um prédio e pudesse ver dentro de cada apartamento o que acontece e em cada janela se constata as pessoas fazendo o que lhes cabe em aquele momento, todas tão humanas enquanto estudam cozinham conversam descem uma escada lavam a louça coçam a cabeça ou dormem e cada um em cada janela não sabe o que os outros fazem, não sabem que o conjunto dos atos perfeitos equivale a um instante concentrado de uma vida inteira. cada um de nós não sabemos que participamos a cada segundo de uma vida toda retratada naquele instante, um flash, de uma vida possível nos lampejos de alegria, na raiva, na tristeza, no desejo, no desanimo, na paixão. nada. não pensamos. nos pensamos únicos, nos pensamos uma sequencia inequívoca e original de instante que se seguem e no entanto lá se vão nossos instantes compondo vidas completas das quais sabemos tão pouco, a cada momento sendo tantos, sendo tanto e num instante, feito um fósforo que se acende e logo se apaga, nos acabamos.
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num mundo rápido, barulhento, exibido experimente ser lenta, silenciosa, invisível.
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teu coração baterá cerca de tres bilhões de vezes e três bilhões de intervalos silenciosos haverá na sua vida. o som e o silêncio alternando-se como um ponto de bordado visto do lado direito e do avesso. qual dos lados fica em silêncio?
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