18 de julho de 2020

brilho de uma escama

fui procurar uma fotos de 2014, mas não encontrei o que buscava. em compensação, encontrei outras muitas fotos que eu nem lembrava que tinha. e textos. começados, interrompidos, abandonados. umas coisas mal escritas que aproveitei para apagar. e, no meio de tudo, um texto que explicava como tinha começado o vem e devora. o blogue que há tempos não recebe comida. aproveitei pra publicar.

e me veio um sentimento estranho, que bate outras vezes também quando releio o que eu mesma escrevi. é como se não fosse meu. já sou tão outra. e ainda sou tão a mesma. me despertam sentimentos confusos esta sobreposição, junção, ruptura que somos sendo sempre os mesmos.

e, mais que os textos, quando aparece alguém nos lembrando de coisas que fizemos, destinos que influenciamos sem nem termos nos dado conta. fica tão claro para mim o fluxo da vida nos atravessando e a gente indo, juntos, como água de um rio. fazemos as curvas, fluímos, até que salta um peixe aqui, enrosca-se um galho ali. o dia nasce, a lua sai. e como se de um momento para o outro, o grande mar. e a gente esta gota mínima.

nestes tempos de covid, com a perspectiva de voltarmos a um confinamento, ainda que não obrigatório mas bastante recomendado, voltam as sensações de exílio, de suspensão dos dias, de desamparo.  tudo junto gera uma tristeza difusa que quase se envergonha dos mínimos momentos de alegria que  brotam nos lembrando que a vida é esse fluxo, que só pode ser rio se a gente puder ser água.

17 de julho de 2020

tómate un tiempo

aos poucos ocupamos o espaço da nova casa. é um processo lento e constante. vamos impregnando as paredes primeiro com tinta, depois com as nossas alegrias e sonhos, os pesadelos, as perspectivas, tudo misturado e ao mesmo tempo. já me movo no escuro da casa para buscar água de noite. já vi o sol nascer no terraço. já quase me acertei com o fogão sem boca.

algumas plantas se adaptaram rapidamente ao novo espaço, amplo, ventilado, insetos e pássaros. chuva. sol. outras ainda buscam um novo lugar. menos sol, mais sol, menos água ou mais. a companhia de outras plantas. mais terra em alguns casos.

e os tomateiros vão bem. aquele um que já era grande e carregava três tomates me enganou porque acreditei que o cabinho que  sustentava os tomates havia se quebrado, então cortei para evitar que todo o pé sofresse, mas logo depois, e foi rápido, mesmo, quando apareceram novas flores já se transformando em mini bolinhas verdes, pude notar que o cabo do tomate é como se fosse quebrado, estavam bem aqueles uns que cortei. eram pequenos, amadureceram ao sol, mas a pele nesses casos não tem o tempo de ficar delicada e fina. era quase um saquinho vermelho de sementes. doces.

na busca por um lugar bom, o tomateiro, este mesmo por já estar alto e espigado, se dobrou  na primeira ventarada. coloquei uma tala improvisada com galhos secos de alguma coisa que estava à mão, um barbante, um fio, uma estaca. e eis! seguem os tomatinhos crescendo, seguem novos galhinhos saindo do caule principal e mais flores. está apoiado num canto da pia, quase agarrado à pedra. amarrados vários tomateiros uns ao lado dos outros.

mas nem todas as mudas de tomate vão bem. um grupo que vivia junto numa mesma caixa deve ter sido atacado por algum fungo. as folhas mal crescem, amarelam, engruvinhadas. fiz uma mistura de azeite e alho, espargi sobre elas e nem assim. parecem os dias que vivemos.

já o caruru-do-reino finalmente encontrou seu lugar. cresce quase a olhos vistos (quando eu olho, parece que fica tímido e não cresce, mas se dou as costas um minuto, quando me volto, já tem dois centímetros mais que aintes). o gerânio já deu uma flor, e também o alecrim. os pés de pimentão crescem, o gerânio-rosa se expande. a babosa, o manjericão. cada ser vivo busca seu lugar no mundo. nem sempre é fácil encontrar. violetas e bromélias, por exemplo, preferem ficar dentro de casa, num cantinho sem sol. e vão bem também.

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há caixas por todo lado.

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as manhãs são cheias de pássaros que moram nas árvores da praça no meio dos prédios.  também as andorinhas passaram por aqui. quando o dia esquenta, há mais maritacas. um voo verde atravessando as manhãs.

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os dias andam estranhos. o vírus paira quase à espreita. fazemos de conta que não. fazemos de conta que as máscaras nos protegerão de tudo, como a máscara dos super-heróis impede que a gente os reconheça. o mesmo fazer de conta, acho. saímos pouco, por si acaso. e também porque há uma casa por fazer viver.

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tenho escrito muito pouco.  alguns projetos em parcerias.

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sigo um fluxo.

aonde nos leva?

a vida, esse rio...