20 de julho de 2010

há os que já mataram um rato

ontem, depois de ver um filme em que pessoas dessabem-se humanos ou ratos e uma lágrima ainda escorria por dentro do peito, o gato chegou corredor adentro miando e guinchando. o guinchado vinha de um rato, preso na boca do gato.
os gatos, antes de matar os ratos, atormentam-nos.
no meu quarto, o gato e o rato. soltos.
fechei a porta.
meu marido armado de coragens, uma vassoura e um saco entrou no quarto.
esperei. do lado de fora.
ouvi barulhos e um suspiro: o rato enfim no saco.
meu marido mil anos mais velho do que havia entrado.
logo a vida engrenou.
de noite, sonhei com outro rato a nos subir. talvez ele também tenha sonhado.
achei indelicado perguntar.



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19 de julho de 2010

ouço o que ela tem a dizer





se fico muito tempo longe, quando ouço sua voz, ela se esparrama por baixo da pele atravessa músculos alcança meus ossos e ali reverbera. é como se fosse a voz primeira por sobre o silêncio das águas, anunciando a luz. então eu sou silêncio e sou água e sou luz. iluminada pelo seu querer. a construir um universo paralelo quase intangível um universo onírico recoberto pelo véu do desejo. e se novamente ouço a sua voz uma engrenagem me movimenta como se fosse possível reduzir distâncias - tantas e tão multiformes. e no mais antigo de mim, a cada dia, a cada noite, ali vive a sua voz a me chamar.


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16 de julho de 2010

era o tempo





é o primeiro dos dias. ontem fui ao rio e vi suas amplas margens abandonadas a um outro estado. ninguém. geladeiras grandes e brancas tão abandonadas quanto, entre as duas pontes.
no salão escuro fiquei sentada de frente para a porta, atrás de mim as janelas por onde se podia ver árvores imobilizadas no abafado do dia. espero.
ela entra. sei que é ela, mas ela não me conhece. senta-se em outra mesa. olhando quem a olha. eu não olho. assim ela não imagina que eu esteja à sua espera.
estamos todos à espera. é o que marca o primeiro dos dias. e hoje é o primeiro de todos os dias, e a primeira hora da manhã deste dia. quando os outros nos encontrarem nos espelhos da parede oposta à janela, saberemos quem somos nós.


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30 de junho de 2010

pequena concessão a se desdobrar mil







"existirmos a que será que se destina?
pois quando tu me deste a rosa pequenina vi que és um homem lindo e que se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina, tampouco turva-se a lágrima nordestina, apenas a matéria vida era tão fina...
e éramos olharmo-nos intacta retina, a cajuína cristalina em Teresina..."

(caetano veloso)

25 de junho de 2010

por mil anos

morreremos da memória do mundo. é tão certo quanto havermos nascido. ainda que letras esparsas, um gene ou um diverso jeito de olhar por sorte ou azar ultrapassem séculos poeira descendentes, um dia desapareceremos opacos esparsos na matéria humanidade.
divindade.
que nos esquecemos.


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24 de junho de 2010

na companhia dela

"Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.

Vívida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.

Águas corroendo
caras, coração
Todas as cordas do sentimento.
Como te chamas?
Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo."

(Hilda Hilst, Da morte, odes mínimas)


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11 de junho de 2010

silencio



um silêncio na paisagem.
e esta luz.


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sacada



o telefone toca. a vizinha corre para atender. daqui consigo ouvir. ela chora.
faz dez dias que a vizinha chora. sempre que o telefone toca, o choro só piora.
fecho janelas. fecho portas. tapo orelhas. nada. um choro baixinho, um choro alto, um choro de qualquer dia. a vizinha.
pedi aos da companhia telefônica que desligassem o telefone da vizinha. quando expliquei, concordaram. o telefone já não toca. ela chora.
fui até a casa da vizinha saber se posso ajudar. não consegue parar de chorar. e quando vi a casa, também chorei: uma poça se forma no meio da sala. a água vem do telefone ligado ou desligado. a vizinha tem medo da poça.
digo já vou. não, ela diz.
qualquer barulho revira a poça e dela brota o inacreditável. estou presa a seus olhos. enrola-se na vizinha. submergem. não consigo sair. e choro.


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10 de junho de 2010

pedra farpada




alguns dias as palavras não passam de um monólito de impossibilidades. escarafuncho, reviro, nada. nem uma se deixa pescar separada do todo. uma grossa resina une-as. eu teria tanto a contar, mas elas nada, nada, nada querem dizer.


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1 de junho de 2010

conversa com marcos e sua plantação

escrever é reler e reorganizar. o primeiro momento, aquele que nasce da intensidade do sentimento ou da ausência de sentido, é sempre e tão somente o primeiro momento, primeiro movimento. o escrever e tornar universal o conjunto do que somos ao nos escrevermos é o de lapidar a pedra, podar a planta, depurar o caldo. mesmo que nada seja feito, estão ali a beleza da pedra, a presença da planta e o sabor do caldo. mas um pouco aquém das intensidades que lhes seriam possíveis numa nova olhada, numa nova seqüência. para mim, escrever e não reorganizar é como fazer compras no mercado e deixar tudo ensacado no chão da cozinha. tudo está ali, mas nada está porque quando preciso não sei onde o sal, nem sei do café.

(abóboras pelo chão)


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27 de maio de 2010

não consigo adotar algumas regras




às vezes acordo no qualquer pessoa não consigo dormir sou uma torneira sem borrachinha um pingo que não pára um medo um descanso dessa pequenez disso que me horroriza atormenta escandaliza envergonha eu subjugada subjulgada por quem e não quero não quero me escorrer mundo quando acordo no meio da noite como de um pesadelo e é como se jibóia em congestão penso que estou ficando louca na nenhuma resposta e eu nego que nada sou e nada sou nas madrugadas preciso de um abraço quando acordo no qualquer pessoa. agora.


(algumas pessoas são poesia e não sabem)
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26 de maio de 2010

e um pássaro cruza o meu caminho

para jane

outros dias e tudo se confunde, a palavra, como um galho seco, rompe-se, cai. nada de fruto. nesta confusão, leio uma história de abraços e x-salada. converso sobre o luto, chego na posta restante, daí a chico, um pulo. e eis meu galho a se romper palavra engastalhada na melodia. diverso do que se diz, nem toda lágrima é poesia.


Minha Canção (Chico Buarque)
Dorme a cidade/Resta um coração/Misterioso/Faz uma canção/Soletra um verso/Lá na melodia/Singelamente/Dolorosamente
Doce a música/Silenciosa/Larga o meu peito/Solta-se no espaço/Faz-se certeza/Minha canção/Réstia de luz onde/Dorme o meu irmão



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25 de maio de 2010

no paraíso

quando cheguei naquele ponto, eu me dei conta das tantas e tantas vezes que fiquei ali, à espera.
já quase não ando de ônibus.
hoje, eu ando a pé.


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24 de maio de 2010

a tartaruga

"Desde a tartaruga nada não era veloz.
Depois é que veio o forde 22
E o asa-dura (máquina avoadora que imita os
pássaros, e tem por alcunha avião).
Não atinei até agora por que é preciso andar tão
depressa.
Até há quem tenha cisma com a lesma porque ela
anda muito depressa,
Eu tenho.
A gente só chega ao fim quando o fim chega!
Então pra que atropelar?"

(Manoel de Barros)



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