24 de fevereiro de 2017

um poema de leandro durazzo

os pavões comeram os brotos de mamoeiro.
uma avó faleceu hoje cedo. como sempre,
estou distante, mas acendo
uma vela no altar, um incenso, e saio a catar
folhas secas em torno da casa. mosquitos me acossam
enquanto eu coço as pernas, pensando
melhor, rastelando
sem muito pensar.
é fim de inverno, as plantas
morrem para nascer outra hora, em outros pés, outros lugares.
rastelo as folhas caídas, sentindo o cheiro da grama
viva por sob tudo. um sagüi se pendura no cajueiro,
mascando o sumo, comendo o fruto que ainda não.
um bem-te-vi pousa perto, as folhas secas eu jogo
por cima da cerca, direto no matagal. todo passado há de adubar,
todo presente há. na ponta de um ramo seco
desponta uma folha verde. o ninho de passarinhos vive.

22 de fevereiro de 2017

um texto de ricardo domeneck

Sempre detestei números. Aos oito anos, recusei-me por semanas a repetir a tabuada todos os dias. Já sabia que dois e dois são quatro. Ditadura das certezas. Minha estratégia: fazer tarefa extra de português, como escrever TODOS OS DIAS a lista de substantivos coletivos. Mecânica por mecânica, tenho outras prioridades. Dei-me mal. Recado da professora para Dona Cida minha mãe (em tinta vermelha!). Humilhação doméstica e escolar. Ora, Dona Giselda da segunda série, eu já decorei seus 2x2=4! Meu coração já está repleto destas adições, subtrações, multiplicações e divisões. Mas veja a beleza das colmeias e das matilhas! Das chusmas e das legiões, essas multiplicações fluidas! Levaria anos para descobrir Cummings e seu 'São 5'. Resultado: meu ódio a convicções pétreas, minha lealdade aos coletivos.

assembleia pessoas
alcateia lobos
acervo livros
antologia trechos literários
arquipélago ilhas
banda músicos
bando malfeitores
banca examinadores
batalhão soldados
cardume peixes
caravana viajantes peregrinos
cacho frutas
cáfila camelos
cancioneiro canções
colmeia abelhas
chusma pessoas
concílio bispos
congresso parlamentares, cientistas.
elenco atores
esquadra navios
enxoval roupas
falange soldados, anjos
fauna animais de uma região
feixe lenha, capim
flora vegetais de uma região
frota navios mercantes, ônibus
girândola fogos de artifício
horda invasores
junta médicos, bois, credores
júri jurados
legião soldados, anjos, demônios
leva presos, recrutas
malta malfeitores ou desordeiros
manada búfalos, bois, elefantes,
matilha cães
molho chaves, verduras
multidão pessoas em geral
ninhada pintos
nuvem insetos (gafanhotos, mosquitos, etc.)
penca bananas, chaves
pinacoteca pinturas, quadros
quadrilha ladrões, bandidos
ramalhete flores
rebanho ovelhas
récua bestas de carga
repertório peças teatrais, obras musicais
réstia alhos ou cebolas
romanceiro poemas narrativos
revoada pássaros
sínodo párocos
talha lenha
tropa muares, soldados
turma estudantes, trabalhadores
vara porcos

21 de fevereiro de 2017

trecho de um poema de marina tsvetaeva

"A morte se reúne em meus olhos
abre uma rosa branca
fecha-se lentamente
como a mão ferida
onde bate um pequeno coração de gaivota."

daqui 
http://revistamododeusar.blogspot.com.es/…/benjamn-prado.ht…

(procurei desesperadamente este poema. ao encontrá-lo, concluo que é só um trecho. e na verdade o que encontro é uma citação que se faz dele dentro de um outro poema. as palavras que eu lembrava eram rosa branca mão coração pássaro. sem saber quem que língua que universo ou tempos esta poesia tinha lido os meus dias.)

20 de fevereiro de 2017

um poema de edmundo camargo

Voz Mínima 

El viento llena su red
con pájaros
y a la noche el viento la llena
con astros.
Mas se el viento entra a mi alma
y la sacude, las hojas
caen a través de mis ojos.

Su canto estaba lleno
de luciérnagas
y su palabra percutida
era un rostro de vidrio
al silencio.
Calló, y entró la noche
a llenar el vacío.

El polvo se alzó en cruces
la piedra manó sed
los pájaros
huyen mi corazón
mientras el aire
quiebra su vuelo petrificado
como lanzas de cristal.



Su puerta estaba cerrada
como la cicatriz
de su ausencia.
Pasó mi pie
mas se quedó mi alma
como perro guardián
a orilla de una tumba.

17 de fevereiro de 2017

um poema de blanca varela

Es fría la luz

Es fría la luz de la memoria
lo apenas entrevisto brilla
con insistencia
gira buscando el casco de botella
o el charco de lluvia


tras cualquier puerta que se abre
está la luna
tan grande y plana
tan fuera de lugar
como si de un cuadro se tratara
óleo sobre papel
endurecido por el tiempo

así cayeron en la mente
formas y colores
casualidades
azar que anuda sombras
vuelcos en la negra marmita
donde a borbotones
se cuecen gozo y espanto

crece el yeso de un cielo
mil veces lastimado
mil veces blanqueado
se borra el mundo y se vuelve
a escribir
hasta el último aliento

sólo esto
eternidad aparente
mísera astilla de luz en
la entraña
del animal
que apenas estuvo

15 de fevereiro de 2017

um poema de adrienne rich


O poder

Vivendo nos sedimentos-de-terra da nossa história

Hoje de um flanco de terra a esboroar-se um ancinho divulgou
uma garrafa âmbar perfeita cura
centenária para a febre ou melancolia um tónico
para viver nesta terra nos invernos deste clima

Hoje lia sobre Marie Curie:
ela devia saber que sofria de radiações
o corpo bombardeando anos a fio pelo elemento
que ela tinha purificado
Parece que negou até ao fim
a origem das cataratas dos olhos
a pele rachada e purulenta das pontas dos dedos
até já não conseguir segurar um tubo de ensaio ou lápis

Morreu mulher famosa negando
as suas feridas
negando que
as suas feridas tinham a mesma origem que o seu poder.

(tradução: Maria Irene Ramanho e Monica Varese Andrade, via Laura Erber)

13 de fevereiro de 2017

um poema de j. cortázar

Para leer en forma interrogativa

Has visto
verdaderamente has visto
la nieve los astros los pasos afelpados de la brisa
Has tocado
de verdad has tocado
el plato el pan la cara de esa mujer que tanto amás
Has vivido
como un golpe en la frente
el instante el jadeo la caída la fuga
Has sabido
con cada poro de la piel sabido
que tus ojos tus manos tu sexo tu blando corazón
había que tirarlos
había que llorarlos
había que inventarlos otra vez.

9 de fevereiro de 2017

um poema de pedro henriques britto

Madrigal

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.


As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

8 de fevereiro de 2017

um poema de hilda hilst

XVI
“O que vemos das coisas são as coisas.”
Fernando Pessoa

As coisas não existem.
O que existe é a ideia
melancólica e suave
que fazemos das coisas.
A mesa de escrever é feita de amor
e de submissão.
No entanto
ninguém a vê
como eu a vejo.
Para os homens
é feita de madeira
e coberta de tinta.
Para mim também
mas a madeira
somente lhe protege o interior
e o interior é humano.
Os livros são criaturas.
Cada página um ano de vida,
cada leitura um pouco de alegria
e esta alegria
é igual ao consolo dos homens
quando permanecemos inquietos
em resposta às suas inquietudes.
As coisas não existem.
A ideia, sim.
A ideia é infinita
igual ao sonho das crianças.