25 de agosto de 2014

ah

se soubesse dizer o que quero, não escarafuncharia a terra este monturo de palavras que construímos. unhas sujas, cabelos desgrenhados, cansada. quando durmo, descanso, as unhas seguem sujas sem que eu tenha dito o mundo que me deságua.

24 de julho de 2014

colha quando necessário

primeiro, sentiu raiva. uma raiva gorda e grande que vinha crescendo por dentro, ocupando os espaços, a entrar pelos poros, como se viesse de fora, escavando raízes na pele, atravessando dermes e nervos e músculos e entre as artérias e veias, torcendo-se, contorcendo-se até chegar à medula, o frio que corre na espinha. a raiva que sentia naquele momento seria capaz de trincar seus ossos no aperto, e de tanto se comprimir corpo, ganhou chão para espraiar-se outra vez em direção à luz. como crescem as batatas no escuro.
neste segundo momento ela estava triste no centro do estômago, uma tristeza que faz parecer fome o que é só um vazio, uma incapacidade de controlar o mundo e, ao saber-se incapaz de controlar o mundo, o querer não estar ali, não pensar, não fazer qualquer movimento, até este um vazio ocupar outros órgãos em seu movimento interno lento: um bulbo que se fizesse no bojo da terra e lentamente se expandisse em círculos concêntricos, cilindro de folhas buscando o sol: pontada nos pulmões, falta de ar, o coração que taquicarde, os rins que se reviram, o pâncreas, e ali, no mediastino, o que dizem timo, esta pequena glândula, se retorce a encher os olhos de lágrimas. alho-poró é substantivo e tempero.
água com sal é um misto de raiva e tristeza, a incapacidade de lidar com as tempestades que vêm de fora e as tempestades que chegam desde dentro, desmontando navios ancorados no vazio. porque é vazio o olhar e cheio de lágrimas e não consegue ler a frase inteira "tenho um compromisso" e também não consegue ler no caderno de página amarelada como é mesmo que se prossegue aquela receita, estas letras: ela tinha aberto um espaço no tempo, na agenda, organizado os dias para, escolhendo um prato antigo e agora.
a receita da mãe diz deixe a água ferver. com sal. e ela é solidão dentro do caos, água salgada onde colocar as batatas, puro insosso batatas descascadas, brancas, brancas. corte o alho-poró em fatias finas, o talo branco e os olhos ardem como há tempos. ela tantas rodelas desfeitas, as camadas, as camadas que são as tantas tempestades. ela chora, chora, chora porque não queria dizer isso, dizer que sente isso que não quer sentir, esta raiva do outro, esta tristeza de si. esta coisa mesquinha que não é de se dizer. esta coisa de abrir o espaço, abrir o tempo com pequenas cunhas, e não há outro ali, não há ninguém: "tenho um jantar". as pernas bambas dela, as pernas que choram como olhos, que ela fecha, o coração pulsa.
a manteiga na frigideira, as rodelas brancas de alho-poró. esperar. os impulsos. controlá-los. para que o tempo que ela abre para si mesma não seja um tempo para o outro. que não está. que ninguém tenha sobre ela poder algum. nenhum. nada. nem no gesto, nem no olhar, nem na palavra. menos ainda no tempo suspenso que se promete e se recolhe e se nega. ela não quer o tempo do outro. quer o tempo próprio, o próprio tempo, o tempo, em si. para o tempo quando. lançar pedras ou não.
a letra da mãe, que não escreve cartas: quando as batatas e o alho-poró estiverem macios, bata-os no liquidificador, com caldo de legumes até chegar no ponto desejado. o ponto desejado. o pensamento dela, que tampouco responderia as cartas que a mãe não escreve: lapide assim o que parecer aresta, liquidifique, amacie, acaricie o mundo. sal, pimenta. creme de leite.
depois, bem depois, por cima, cebolinha. ela pensa: esta sou eu, a que respira e ordena minimamente o caos: o delicado da cebolinha em fatias finas. este corpo. que se move e toma decisões. como estas, de nem procurá-lo, e de nunca, nunca, jamais, dizer veja, aquele dia, eu tinha aberto um tempo e eu. eu. eu. eu. tanto eu pra tão pouca pessoa, pessoa tanta. ela. ela experimenta o sal e a pimenta. ela espera que a sopa esfrie. ela espera. que a raiva passe, ela se controla, ela releva. ela cantarola. ela se senta para comer.
o veludo do mundo, este, delicado ao tato, ninguém sabe de onde vem, o sentimento espraia-se todo átomo condensa-se universo mínimo no fio quase invisível da lã cardada do carneiro, o mesmo do macio do xale, onde também se adivinham os largos pastos vales de lágrimas e alegrias. a mão que tosa tangencia o ombro que agora se aquece - e um não sabe do outro mais que a nuvem sabe da folha onde cada gota cada dia asperamente se (des)equilibra e cai.

29 de maio de 2014

não, não vá embora... vou morrer de saudade...

nunca antes eu tinha visto alguém morrer.
a morte eu já conhecia há tempos. era ainda muito pequena quando da lembrança de um velório: uma professora, crianças com rosas, adultos chorando. a gente só desentendia (ela era e não era aquela que estava ali) e cantava o que já sabia cantar. depois disso, por todo lado, o que é próprio da existência: doenças, dores, mortes. as mortes e seus rituais, suas ausências. o amargo da morte. nunca antes tão ao alcance da mão.
que eu saiba, criança não gosta de amargo. o jiló, a jurubeba, o café, o cacau, o radichio, a lima da pérsia. a couve de bruxelas. a morte é assim, um tanto amarga. um gosto que ocupa a boca, o céu da boca, a lateral da língua. depois, com paciência, é possível sentir  um perfume, uma revelação lenta, algum sal, alguma doçura, que permanecem.
quando se tem vinte anos, um tumor pode ser tudo. e pode ser nada, se a gente faz de conta que não é nada. a vida segue, uma cicatriz, uma pequena vertigem que passa. como a conserva de jurubeba, que consiste em aferventar e trocar a água sete vezes. e então no vinagre com pimentas e umas ervas e sal. e deixar. e esperar. até que o amargo se permita conviver com tudo o mais.
como no primeiro jiló bom de se comer. minha mãe cortava três ou quatro deles em quatro e punha na panela do arroz, quando já tinha água e sal. o jiló cozido ali era tenro, perfumado. e amargo, sim, desses amargos que vai se revelando uma outra coisa. faz abrir os sentidos para a singeleza do arroz. o jiló no arroz é presença da minha mãe.
quando se tem quarenta, os planos são mais urgentes. e parar os dias para cuidar das feridas parece mais, muito mais, do que parar os dias para cuidar das feridas. outra vez um tumor, tirá-lo, contornar o que o acompanha, os ossos, os movimentos do rosto. deixar o cabelo encaracolado sobre o lado destruído, este campo de batalha destituído que deixa também por dentro um gosto. amargo.
às vezes, a única possibilidade de reconstruir um tecido esgarçado é oferecer calor e carinho. colo. a energia flui. da minha mão para a sua mão. transfusões de energia. veja, ela dizia, ainda nem conheço barcelona nem atravessei a turquia num balão. eu me deitava ao lado dela. e a abraçava. o cheiro de hospital também é amargo. não há flores, não há desinfetantes que o disfarcem. nós o reconhecemos, esse cheiro, em qualquer lugar do mundo. os hospitais que ao nos salvarem também nos tiram a energia. de alguma maneira nos secam.
por exemplo, a lima da pérsia. uma laranja desbotada e aparentemente sem gosto. de um amarelo claríssimo, quase tímido. a pele fina que se rasga fácil em nudez. num primeiro momento, gosto quase nenhum, quase nada. e então o amargo, por todo lado, até que uma outra coisa se revele. um perfume se instale. se as limas ficam uns dias num cesto, murchando, ao perder o viço também perdem um tanto do amargo excessivo. e então nem é preciso descascar. é só cortar em quatro, e soltar os gomos da casca que agora ganhou rigidez. o gosto da lima da pérsia é um leque confuso de sabores. especialmente se a casca estiver seca.
um tumor não se contém. extravasa-se. ultrapassa as fronteiras do desejo. as fronteiras do medo. instala-se. vai pelas correntes do tempo. um pequeno fel. espraia-se. derrama-se de alguma maneira na pele. impede as conexões. os vínculos. os fluxos. um dia, no abraço, não havia ida nem vinda. um estático sentido. conversávamos. ela dizia: quero voltar pra casa. só quero voltar pra casa, estou cansada. eu dizia é preciso se deixar cuidar, descansar. depois, eu dizia preciso ir. e ela contarolava jane e herondy.
o radichio vai bem com rúcula e sementes de romã. um molho com hortelã. o amargo do radichio se espalha em roxo rajado diante dos olhos. a gente se perde nele. e ele se perde na rúcula que por sua vez se perde no ardor raro. as româs são pura luz. o xarope vai bem com azeite, ervas, limão. o radíchio não perde seu amargo, mas se mistura ao tempero da salada, um ácido que não cansa. os tratamentos injetados na veia cansam, doem, ardem, esgotam o corpo um dia.
na sala branca entre cortinas, os cabos todos atados a medir a vida induzida em sono. bip. o coração, a respiração, as conexões neurais, bip, os níveis de queratina, a saturação, as secreções. bip. o olhar perdido. a mão. os pés. os cabos todos. bip. os cabos todos. o cheiro amargo dos hospitais. bip. por um momento ela me olhou. bip. por um momento ela me viu? minha mão no seu rosto. bip. a sobrancelha enquadrando seu olhar fixo, que ficou claro por um segundo. bip. segurei sua mão. esperei. ela fechou o olho. bip. bip. bip. bip. bip. me disseram: terminou o horário da visita. juntei minhas coisas, lembrei sua risada, quando no franzido dos olhos só os longos cílios apareciam. agora meus olhos lágrimas,  as janelas, as camas, o chão de um rajado roxo. esse amargo -- ela já não cantarolava “não se vá, não me abandone, por favor” -- era um amargo travoso e áspero. eu seguia. era eu a canção dolorida do tim maia. depois, bem depois, buscaria pras abelhas o que fosse mel. naquele momento só queria o amargo. café.

23 de maio de 2014

no trajeto do silêncio

para soraya


vi uma pessoa no metrô que me lembrava você.
entrou outra, que me lembrou meu pai.
a cada parada, o vagão se enchia de rostos, todos com aspecto familiar.
pessoas são trajetos? pessoas que se parecem são diferentes maneiras do mesmo caminho?

por um tempo fiz um mesmo trajeto de ida e vinda. todo dia todo dia todo.
até deixar de fazê-lo.
deixar de fazê-lo a ponto de me esquecer de sua existência.
um dia, muitos anos depois, eis o trajeto. e alguma coisa em mim se lembra.
vou fazendo as curvas, tomando as decisões de direção quase sem pensar. 
a memória que vem à tona pensa por mim.

neste não pensar, um rio de palavras silenciosas se permite.
nenhuma palavra diz nada.
sobre elas chove.
sobre elas não se desenrola o desentendimento do início dos tempos ou o verbo.

os longos trens de carga nas estações urbanas têm um silêncio próprio, uma espécie de solenidade, algum mistério nas pedras que carregam. em seus líquidos.
têm um silêncio que atravessa a nossa espera.
a espera dos trajetos que se não lembramos nos lembram.

o trajeto da marcha das mães dos desaparecidos. 
que choram.





[en el trajecte del silenci

vaig veure una persona en el metro que em recordava a tu.
en va entrar una altra, que em va recordar al meu pare.
a cada parada, el vagó s’omplia de rostres, tots amb aspecte familiar.
persones són trajectes? persones que s’assemblen són diferents maneres del mateix camí?

durant un temps vaig fer el mateix trajecte d’anada i tornada. cada dia cada dia cada.
fins que ho vaig deixar de fer.  
ho vaig deixar de fer fins a oblidar-me de la seua existència.   
un dia, molts anys després, heus ací el trajecte. i alguna cosa dins meu se’n recorda.  
vaig fent les corbes, prenent les decisions de direcció quasi sense pensar.
la memòria que emergeix pensa per mi.

en aquest no pensar, es permet un riu de paraules silencioses.
cap paraula no diu res.
sobre elles plou.
sobre elles no es desenrotlla el desenteniment de l’inici dels temps o el verb.

els llargs trens de càrrega a les estacions urbanes tenen un silenci propi, un espècie de solemnitat, algun misteri en les pedres que carreguen. en els seus líquids.
tenen un silenci que travessa la nostra espera.
l’espera dels trajectes que si no els recordem ens recorden.

el trajecte de la marxa de les mares dels desapareguts.
que ploren.

(per a soraya)


[Traducció de Joan Navarro]

serieAlfa, aqui.

16 de maio de 2014

obsolescência programada



maio, lua cheia de maio, uma lua de silêncios me lembra alguém,  a mesma das revelações, pequenas, grandes, que se ocultam ao se manifestar explica a mulher enquanto com a língua revira a dentadura meio presa meio solta que o homem,  aquele homem,  esse homem, das tripas, cuidava sim do espaço passagem, varria toda manhã, nada a ficar pelo avesso e dobrava cobertas e guardava sacos plásticos caixas de papelão,  ordenava  – o entorno – não mijava – em qualquer canto, não – não defecava – à vista – a cada manhã, olhe para o céu agora neste maio de lua cheia em algum lugar as nuvens esgarçam as tripas deste homem – qualquer – em seu apocalipse único e miúdo, apocalipse de cada um, que nos faz ter um novo nome, este, que não seremos, este, que mãe nenhuma pronunciará, esta, denominação última  nossa num universo que nada circunscreve – as tripas – num fim mínimo íntimo, enquanto diziam que seriam as tais vestes reluzentes, não eu – eu, nua, da nudez áspera dos pesadelos de não saber amar o próximo próximo, de não saber amar – naquela boca meu nome nem, nas mãos as palmas abertas – nelas – a chama flamejante sem bênçãos – velas – este vazio este oco sempre estas tripas onde sou o profundo medo onde reverbera a voz e o que quer que anuncie o que quer que diga, eu, ouvidos moucos, eu, a desdizer nada, este nada das mãos queimadas ao tocarem o que sabe não saber o amor ao próximo distante, o que sabe não se saber capaz – eu – sem ramo nas mãos, sem cinzas sobre a testa – eu -- este um que se arrasta rasteja escapa enquanto os eleitos nominados e satisfeitos, enquanto os eleitos mãos em prece, enquanto os eleitos  sem suspeitarem do meu olhar quando, do meu olhar onde, do meu olhar enquanto eu à procura de quem, sabendo que não sou digna, sabendo que nem indigna, sabendo me absurda muda obtusa contemplação daquele de quem se diz pedra dor castigo, daquele que se diz verbo. fogo, principio e desolação.

6 de maio de 2014

precipícios

no princípio, a palavra
pedra submersa na água
opaca do mundo
que não era:

depois
de haver pedra
depois de haver água
e palavra
um princípío

25 de abril de 2014

no cravo



foi-se o tempo do paraíso vazio
corredores sem gente
pontos de silêncio e escuridão

volto a me perder nos desvãos de um hospital
as janelas claras enganam
meu joelho falha
quase caio
ao descer a escada
meu joelho dói

saber pisar
é arte
depois, o saber dizer

eu não sei

por todo lado academias de musculação
salões de beleza
pouco mercadinho, pouca padaria
nada de bibliotecas

penso nisso quando lembro
de um homem a predizer
o futuro este prazer de si mesmo
medo de tudo que não seja eu, que seja outro

o que não sei

e ao predizer futuros
em fortaleza de músculos
e beleza de tintas
não soube dizer como interromper o fluxo
ávido do tempo
como concentrar energia
neste corpo confuso
agora confuso
tão confuso

quanto não sei

o rosto dilacerado
cortado em mil
um olho que se abandona
brilho e busca
a mão que treme no lençol insano e busca a minha
a mão

e eu nunca saberei

como sair daqui
como seguir em direção ao paraíso
que já não está vazio
como na cegueira enxergar esta neblina espessa
como saber que não sei


bianca, é muito simples, só me diz se sim ou não
se sim tá ótimo
e se não
tá ótimo também eu procuro outro jeito
mas eu preciso, bianca, eu preciso saber



24 de abril de 2014

moda íntima no subsolo



não disfarço meu peito caído à força da gravidade e do tempo.
depois, ainda penso que sutiãs de recheios bojudos são mais difíceis de queimar.
o juiz – ou seria uma juíza? – perguntou a respeito do assassinato com claros sinais de violência: mas o que fazia ela num bar, à noite, sem sutiã?

como?

como se calcula a (in) capacidade humana de conviver sem medo?
como se calcula a lotação máxima de um ônibus de linha? se lugares para sentar, it´s ok, mas quarenta e uma pessoas em pé? esta uma? se a mais, se a menos. alguém (quem?), de verdade, calcula?
e se quem calcula contar mais de cem?
faz o quê?
explica pro juiz pra juíza pro juízo que a culpa é dos cem. gente demais, é?
a culpa é dela, da moça sem sutiã num calçadão do rio de janeiro.

é?
sutiãs bojudos não disfarçam o peito arfante. que queima.
o medo, este convívio.

21 de março de 2014

tarde, tão tarde



quando ela entrou, já quase ninguém no vagão, e mesmo assim falava alto, a contar uma história como quem cumpre promessa, a promessa de contar mesmo para quem não quisesse ouvir, e ela começou a dizer meu filho errou, errou sim, e foi preso, mas isso não quer dizer que não seja meu filho, e agora que ele pagou, e está trabalhando, eu ainda não tenho dinheiro para comprar gás, e que adianta ter arroz e feijão e óleo se não tem o fogo, e dizia também que perdoava o filho, e pedia dinheiro, e emendava outra vez na explicação que mostrava nos olhos uma loucura de quem já não sabe por onde ir ou o que pedir para reaver o indescritível que perdeu, e ela dizia eu disse isso pra ele, porque se é deus que tem que perdoar e deus perdoa, quem sou eu pra não perdoar, e até que foi bom porque na hora que levaram ele, que algemaram ele, que bateram nele, até ficar só um fiapo, eu não estava em casa, eu estava no trabalho, e a vizinha disse que bateram com jornal, pra não deixar marca, por dentro esmaga tudo e até hoje ele tem dor no estômago, mas está vivo e isso eu digo e digo também que ele já pagou pelo que fez, ele e eu, que sou mãe, eu é que não ia deixar ele apodrecer ali, estes dois anos, ia lá visitar e eu digo, eu disse, eu conto aqui pra todo mundo ouvir, que visitar alguém que está na cadeia, o primeiro dia, a primeira vez, é dar o primeiro passo pra dentro do inferno, depois tem gente que se acostuma com ser tratado pior que cão de rua, eu não me acostumei, não, e não vou esquecer, e então foram muitos passos naquele inferno, muita humilhação, e eu digo isso pra ele, pro meu filho: você já pagou por alguma coisa que fez, mas eu, eu, cada noite que eu vou dormir e lembro, eu continuo pagando, e por uma coisa que eu, a bem dizer, nem fiz. 
e então, sentou em silêncio na minha frente, como quem faz um intervalo de existir.