30 de abril de 2015

todo ecossistema tem um limite de energia



crocodilo puma tigre urso
um lobo
cinzento

equilíbrio de topo

a cachalote mergulha dois mil metros e lá se foram lulas gigantes em seu ventre, depois, na superficie, cocôs-namis alimentam fitoplânctons que devoram o carbono da nossa existência

ou
tão sutil quanto
quando um tubarão-tigre se aproxima
golfinhos, tartarugas, peixes, pássaros
todos  todos
um por um se distanciam
a esmo

14 de abril de 2015

palabras

(de Eduardo Galeano)

Hace unos 15 millones de años, según dicen los entendidos, un huevo incandescente estalló en medio de la nada y dio nacimiento a los cielos y a las estrellas y a los mundos.

Hace unos 4 mil o 4 mil 500 millones de años, años mas años menos, la primera célula bebió el caldo del mar, y le gustó, y se duplicó para tener a quien convidar el trago.

Hace unos dos millones de años, la mujer y el hombre, casi monos, se irguieron sobre sus patas y alzaron los brazos y se entraron, y por primera vez tuvieron la alegría y el pánico de verse, cara a cara, mientras estaban en eso.

Hace unos 450 mil años, la mujer y el hombre frotaron dos piedras y encendieron el primer fuego, que los ayudo a defenderse del invierno.

Hace unos 300 mil años, la mujer y el hombre se dijeron las primeras palabras y creyeron que podían entenderse.

Y en eso estamos, todavía: queriendo ser dos, muertos de miedo, muertos de frío, buscando palabras.

13 de abril de 2015

figos frescos

(de Walter Benjamin)

Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente. Não há dúvida de que isso toca mais profundamente a devoração que o prazer. Por exemplo, quando alguém dá uma dentada na mortadela como se fosse pão, se chafurda no melão como numa almofada, lambe o caviar tanto quanto o papel que o embrulha e sobre uma cuia de queijo Edam se esquece de tudo o mais que existe na Terra para comer. – Como foi que eu soube disso pela primeira vez? Foi diante de uma decisão das mais difíceis. Uma carta devia ser despachada ou despedaçada. Há dois dias trazia comigo, porém, sem pensar naquilo. Eis que no barulhento ramal ferroviário eu subira até Secondigliano, atravessando a paisagem corroída pelo sol. O povoado jazia solene na quietude cotidiana. Único vestígio do domingo que passara: as varetas nas quais rodas luminosas haviam oscilado, e os rojões dos foguetes haviam se inflamado; isso antes, pois agora estavam ali, desnudas. Algumas exibiam à meia altura um escudo com a figura de um santo de Napóles ou a de animal. Nos celeiros abertos, mulheres sentadas debulhavam milho. Eu caminhava devagar, como que anestesiado, quando vi, à sombra, uma carreta de figos. Foi por falta do que fazer que me dirigi até ela; foi por desperdício que, em troca de alguns soldi, pedi meio quilo. A mulher pesou generosamente. Mas, quando os frutos pretos, azuis, verde-claros, violetas e marrons estavam no prato, verificou-se que a mulher não tinha papel de embrulho. As donas-de-casa de Secondigliano traziam seus recipientes, e ela não estava preparada para atender a um globetrotter. Contudo, senti vergonha de renunciar as frutas. E fui-me embora, figos nos bolsos da calça e da jaqueta, figos em ambas as mãos estendidas à frente, figos na boca. Agora não podia parar de comer, precisava tentar me defender, o mais rápido possível, contra a massa de frutas robustas, que me havia atacado. Mas aquilo já não era um comer, mas um banhar-se, pois o aroma resinoso penetrava minhas coisas, se grudava às minhas mãos, emprenhava o ar, através do qual eu levava minha carga. E, então, sobreveio a culminância do sabor, na qual, quando o fastio e a náusea – as últimas curvas – estão dominadas, o panorama se abre numa imprevista paisagem do palato: uma maré de avidez, sem sabor, sem limite, verdoenga, que nada conhece a não ser a onda viscosa e fibrosa da polpa da popa da fruta aberta, a total transmutação de prazer em hábito, de hábito em vício. Crescia em mim o ódio por aqueles figos; tinha pressa de me arrumar, de me livrar, de me desvencilhar daquela massa que regorgitava, que se desintegrava. Comia para exterminá-la. Quando arranquei o último figo do fundo de meu bolso, nele estava colada a carta. Seu destino estava selado: também ela devia ser sacrificada à grande limpeza. Tomei-a e rasguei-a em mil pedaços.




10 de abril de 2015

e penso:

a humanidade não se divide entre nós e outros. somos um só nó. um nós nada monolítico. se dentro de cada um disputam espaço os mil lobos, se dentro os monstros e as fadas, anjos, demônios e laranjas, todas as contradições, lidarmos com nós mesmos é lidarmos com os nós e conosco mesmos, como somos. expandir a delicadeza que nos dedicamos. olhar. compreender. buscar desde dentro da caverna o ponto luminoso – bicho, estrela, uma fenda.

25 de março de 2015

estátua



escrever é isto: me visto pra você me despir, construo passagens de pedras no rio. depois me pergunto ansiosa quanto tempo levará para que minha língua envelheça e as palavras carcomidas se cubram de poeira e rachaduras e os fungos e a ação do tempo sobre elas torne cada palavra incompreensível. quanto tempo minha língua morta e a saliva crosta seca no céu da boca? minha língua quando não puder mais despertar sua pele e umedecer os vãos: minha língua a não me vestir mais e ninguém saberá despir nem revelar e não se saberá quanto do que digo flor é flor quando o que digo pétala nem se saberá quanto da terra era nome quanto era ninguém: o rastro da língua na palavra estátua imóvel coberta de cascas e musgos pulsará irreconhecível. para isto, veja, para isto é que se busca é que se constrói é que se oculta toda esta palavra exílio.



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