5 de abril de 2016

numa escultura de dentes

sonhei com dentes. de manhã perguntei ao grande oráculo o que quer dizer sonhar com dentes. leio: em serra leoa, kadhiatu abkar faz esculturas em dentes. pequenas paisagens, caveiras, animais, castelos. não em dentes caídos, em dentes vivos, ainda na boca. como se um elefante permanecesse com seu marfim esculpido. assim, ela diz, os sorrisos são mais frequentes. é como cortar os cabelos para mostrar brincos novos, exibir o corpo onde pousam novas tatuagens. fotos anônimas mostrando os sorrisos com as esculturas de kadhiatu foram expostas em 2011 num pequeno museu de makeni. kadhiatu, que perdeu todos os seus dentes ainda na adolescência, nunca sorri.

30 de março de 2016

nas línguas raras

leio: quando ed huston se deu conta de que a teoria que embasava a existência de buracos negros tinha lá sua lógica, abandonou o trabalho de padeiro numa cidadezinha próxima de manchester e, sem mulher ou filho, mudou-se para londres. dedicou-se ao aprendizado de línguas raras, traduzindo antigos poemas para o inglês. isso e o propósito de fotografar o corpo de uma mulher em detalhes ao longo do tempo eram para ele os dois lados de uma mesma moeda. no inverno londrino, o corpo morto de ed permaneceu intacto por muitos dias no apartamento sem calefação. a exposição, que reúne suas fotos e seus poemas traduzidos, pode ser vista na homarys gallery até final de junho. curadoria da artista plástica mary o. cornsday.

29 de março de 2016

o tempo é o presente

naquele tempo, que era também um não tempo, eu habitava uma cidade de parques. perto de casa estava o mais bonito de todos. no centro deste parque mais bonito de todos havia um lago. pequeno como são os lagos dos parques das cidades. mesmo naquele tempo.

me sentava num banco na beira daquele lago e passava horas buscando imaginar como seria a minha vida quando fosse o tempo. nestas horas, se depositavam na minha pele pedalinhos cisnes pequenas embarcações.

sobre a minha pele à margem do pequeno lago no centro do parque da minha cidade deslizavam as constelações ainda sem nome e também a sua (ainda não) mão. ali eu não adivinhava filhos nem medos nem paixões.

naquela beira não havia não haveria não houve como saber que há um momento a partir do qual uma criança pode saber mais que um adulto e que esta criança pode ter sido gerada no seu ventre e ser você um adulto que já não sabe. tanto.

olhar o lago com ou sem suas águas era o tempo pleno e oco de tantas tardes. vazias. de menina. o tempo é o único que temos. é o nosso único presente. o tempo é o presente. o que se pode oferecer. eu era menina, olhava o lago. e me dava aquele tempo.

naquele momento de parques cisnes e pedalinho eu não tinha tido tempo (ainda) de saber que o tempo também poderia ser uma ausência, o tempo ausente seria uma solidão sem adjetivos. e que poderia haver uma eclosão de tempos dentro de cada segundo existente.

como uma flor eclode pólen e perfume abelha cor, o tempo presente da flor remete à raiz remete à semente terra húmus matéria morta em decomposição. o tempo que se tem. o tempo se detém na menina à margem do lago do parque daquela cidade.

o tempo este – às vezes tão pequeno: toma. é tudo que tenho. sucata. às vezes um lampejo. outras, um som, vagido, grito quando na beira do grande lago olho o relógio (sou ainda esta menina?) e digo:

13 de março de 2016

nos trens de março



são onze horas da manhã no país que dizem meu. ali, uma guerra eclode silenciosa e nem sabemos que é uma guerra. por que estamos nós na trincheira se são eles, sempre eles, os que ganham com as guerras?
estou no exilio.
você está no exílio.
cada um se constrói um exílio neste tempo de raízes mandrágoras suicídios?
os trens nas estações voltavam vazios depois de deixar milhares nos campos de concentração. há registros em diários. o cotidiano era difícil de se compreender. aquele cheiro no ar. também era difícil acreditar que aqueles sapatos.

2 de março de 2016

talvez nunca

I
o escorpião. a rã. atravessar o rio. a rã tem medo. o escorpião diz: também eu morreria. a rã concorda: suba nas minhas costas. no meio do rio: o escorpião: o veneno. a rã agonizante pergunta. o escorpião acredita que explica quando diz: é a minha natureza.

II
a rã. diz da solidão da travessia. o escorpião explica. a rã não acredita. no meio do rio ela tem medo: abandona o escorpião na terceira margem. depois, a rã se justifica: a tal natureza do escorpião etcetera e tal. ninguém viu. só o rio sabe. mas o rio é sempre outro.

III
o rio. a rã. o escorpião. o pedido. a travessia. do outro lado do rio, o escorpião desce das costas da rã. agradece. a rã comenta: seus olhos vermelhos. o escorpião não explica, diz: não importa, já passou. um dia a rã talvez compreenda aquela travessia. e também o rio. e também o escorpião. talvez, não. talvez, nunca.

29 de fevereiro de 2016

ciência

isso que dizemos ciência, que chamamos conhecimento é só uma narrativa possível, a mais convincente. o um que não se deixa levar, o um que não se cansa de buscar os porquês, o um que sempre desconfia é o que desfia a trama e pergunta: como pode o sol se fazer doçura? e das tetas como pode sair leite? como podem o algodão e o linho cobrir-nos a cabeça, como posso na água descobrir meus pés? e essa matéria escura, do que é feita? é um silêncio? é uma montanha? é uma ausência? acreditávamos que o mar estivesse repleto de monstros. só depois, bem depois, inventamos o quanto os oceanos podem ser bonitos. apesar dos tantos (outros) monstros que o habitam.

20 de fevereiro de 2016

energia infinita

leio: mesmo no vácuo, onde parece não existir nada, há energia. a energia aparece e desaparece. nasce do aparentemente nada e para o aparentemente nada retorna, num ciclo caótico. leio também que a energia do universo é infinita. se o universo fosse uma caixa, por exemplo, seria uma caixa com um número infinito de coisas dentro e, ao dividir a caixa em duas caixas, seriam as duas repletas de um número infinito de coisas. e se outra vez divididas e mais uma e outra e outra, até resultarem minúsculas caixas desta subdivisão, ainda assim, cada uma conteria em si um número infinito de coisas. a fórmula matemática para representar isso, esta incompreensão, pode ser: infinito dividido por dois é igual a infinito, infinito dividido por cem é igual a infinito, infinito dividido por um milhão é igual a infinito. e assim infinitamente. essa energia. esse universo.

22 de janeiro de 2016

azul cobalto



depois de homero e ulisses
quem aceitaria um cavalo
ainda que perfeitos dentes?

o desejo me galopa
flor minúscula e vento.

os mundos não são planetas
os planetas não são pérolas
alinhavadas por dentro.

entre um humano e outro estão dadas todas as sementes
e nunca nunca nunca houve um,
um que fosse,
que tenha vencido a guerra.

21 de janeiro de 2016

blaus marins

as grandes embarcações naufragam como se bailassem. submergem lentamente nos azuis. entre algas, plânctons, peixes. até chegar no fundo escuro e silencioso. submarino. e com o tempo se encher de cracas e corais. antonia font. como se naufragássemos delicadamente.

19 de janeiro de 2016

supernova II

anos-luz não é uma medida de tempo. o tempo pode ser uma medida de distância. de tarde, a manhã poderá parecer distante. nem por isso menos triste. dizem que hoje é a segunda-feira mais triste do ano*. como dizem que são tristes as histórias de amor que se acabam enquanto o amor permanece. nenhuma medida pode mudar isso. a tristeza. a segunda-feira. a distância. o tempo. que tudo permaneça. que tudo se repita. que o amor mergulhe anos-luz numa tristeza de segunda, até emergir escuridão. os olhos de van gogh eram capazes de ver azuis onde a gente nem: azul da prússia azul cobalto ultramarinho. e de ver estrelas. a milhares de anos-luz.