7 de junho de 2016

o que não é inferno

"en los universos multiples, siempre que existe más de un resultado posible a nível cuantico, existe un universo diferente en el que se pueda acomodar."
(brian clegg)

27 de maio de 2016

o que não é inferno

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço" ítalo calvino, cidades invisíveis

25 de maio de 2016

quebrar o vaso

um mestre procura um sucessor. diz: colocarei um problema diante de vocês: quem o resolver. e apresenta um lindo vaso de delicada porcelana. assustados os discípulos admiram o vaso: onde o problema? desde seu silêncio, um se levanta e quebra o vaso em pedacinhos.

23 de maio de 2016

pirospipacs





amapola papoula rosella pipiripip peperepep pipaparapip. conjuro fala mágica mantra. um pequeno mantra para olhos que seguem plantações e incultivos de beiras e rios. flor hemafrodita actinomorfa. dímera flor solitária de escarlate intenso entre o verde entre o trigo caminho e pedras. pequenas sementes negras que o vento faz sair pelos poros quando a planta seca. antes, poção de fertilidade e amor, depois poção de fortuna e sorte. sedante colorante condimento. enfeite de  jardim. evite se estiver prenha, evite se for nutriz. não vá por mim. vá por papiros egípcios e os avisos gregos. acompanhe dioscórides quando leio: ferver seis caps em tres ciats. reduzir, reduzir, reduzir e por fim nos fazer dormir.

22 de maio de 2016

no porto

leio: as instruções para embarque eram claras. entregar uma foto tresporquatro recente e um telefone de contato. para o caso. quando malena lopez chegou já na rampa de acesso ao navio, sem foto, a moça apontou pra cabine automática. dizem que ela foi pra fila esperar. chegou sua vez. entrou. sentou. flash. saiu. quando pegou os papeis que a máquina cuspiu pela fresta, viu que por cima da imagem de seu ombro esquerdo a imagem de um homem desconhecido a olhava. malena, que não sabia quem era freddy jackson, não entendeu que nossos mortos nos circundam e cuidam. também não pensou que todo mar pudesse ser naufrágio.

19 de maio de 2016

duas bagatelas

então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.


paulo henriques britto
liturgia da matéria

7 de maio de 2016

alhos

quando a gente abre uma cabeça de alho, vai usando os dentes maiores e os pequenos vão restando. um dia, na pressa, a gente se dá conta que acabou o alho (ai, justo agora?) e então buscando entre a palha, lá no fundo do pote, encontra aqueles dentinhos. é uma alegria pequenininha e grande ao mesmo tempo. a vida é bem assim, né?

29 de março de 2016

o tempo é o presente

naquele tempo, que era também um não tempo, eu habitava uma cidade de parques. perto de casa estava o mais bonito de todos. no centro deste parque mais bonito de todos havia um lago. pequeno como são os lagos dos parques das cidades. mesmo naquele tempo.

me sentava num banco na beira daquele lago e passava horas buscando imaginar como seria a minha vida quando fosse o tempo. nestas horas, se depositavam na minha pele pedalinhos cisnes pequenas embarcações.

sobre a minha pele à margem do pequeno lago no centro do parque da minha cidade deslizavam as constelações ainda sem nome e também a sua (ainda não) mão. ali eu não adivinhava filhos nem medos nem paixões.

naquela beira não havia não haveria não houve como saber que há um momento a partir do qual uma criança pode saber mais que um adulto e que esta criança pode ter sido gerada no seu ventre e ser você um adulto que já não sabe. tanto.

olhar o lago com ou sem suas águas era o tempo pleno e oco de tantas tardes. vazias. de menina. o tempo é o único que temos. é o nosso único presente. o tempo é o presente. o que se pode oferecer. eu era menina, olhava o lago. e me dava aquele tempo.

naquele momento de parques cisnes e pedalinho eu não tinha tido tempo (ainda) de saber que o tempo também poderia ser uma ausência, o tempo ausente seria uma solidão sem adjetivos. e que poderia haver uma eclosão de tempos dentro de cada segundo existente.

como uma flor eclode pólen e perfume abelha cor, o tempo presente da flor remete à raiz remete à semente terra húmus matéria morta em decomposição. o tempo que se tem. o tempo se detém na menina à margem do lago do parque daquela cidade.

o tempo este – às vezes tão pequeno: toma. é tudo que tenho. sucata. às vezes um lampejo. outras, um som, vagido, grito quando na beira do grande lago olho o relógio (sou ainda esta menina?) e digo:

13 de março de 2016

nos trens de março



são onze horas da manhã no país que dizem meu. ali, uma guerra eclode silenciosa e nem sabemos que é uma guerra. por que estamos nós na trincheira se são eles, sempre eles, os que ganham com as guerras?
estou no exilio.
você está no exílio.
cada um se constrói um exílio neste tempo de raízes mandrágoras suicídios?
os trens nas estações voltavam vazios depois de deixar milhares nos campos de concentração. há registros em diários. o cotidiano era difícil de se compreender. aquele cheiro no ar. também era difícil acreditar que aqueles sapatos.