14 de maio de 2015

sempre



(desde que ela morreu)
não esqueço o cheiro daquele quarto de hospital
podíamos abrir a janela
podíamos trazer flores
e o não perfume amarelo
a se depositar na pele - dela –
minha mão
uma carícia meu corpo
um abraço e a vida, ali,
estancada

não podíamos saber que era aquilo a morte
(mas desde que ela, sim, eu sei)
o olhar vazio e o ar pesado em volta
tudo também era espera
(desde que ela)
o amassar de um papel o inverno
a pá de terra que não caiu

a cada mês penso menos nisso
e mais em outros dias seus suspiros e risos
cada vez tenho mais pedras na vesícula
esta tensão no ar própria da vida
helicópteros carros de polícia
as acácias em flor

por todos os cantos a terra pulsa
pulsa
pulsa
em toda terra o semear
em toda terra o dia de um dia se deixar esquecer

(ainda que ela)

5 de maio de 2015

volver a los 17



lágrimas nestes olhos ao apagar os traços do mapa
desenhado há tempos pelos chineses
desde a costa ocidental desde a costa oriental desde a costa?
ou desde o interior?
e depois apagar os passos, estes, sim, ocidentais
esquecidos no mapa numa gaveta do museu onde nunca mais me deixarão entrar

havia monstros nos teus mares?
não
garrafas perdidas nas praças?
não
rotas aquedutos pergaminhos?
não

nada disso: era um mapa com riscos simples e uns tantos outros:
tanques de guerra e uma data: 1980
tanques de guerra e uma data: 1989
tanques e guerra: s/data

talvez cachaça no embu água em cochabamba cerveja
uma rua com nome de pássaros, talvez
e um cabo – horn

a apontar gelo no papel
não, não era um papel
e os cascos todos ali marcados um a um
eram rotas

não é fácil perder um mapa assim
não o perdi : esqueci
esquecer um mapa de deserto porque aqui é beira de água e sombra
e o museu?
não me deixarão entrar
fazem bem
é, fazem bem

aqui não é um oásis, você sabe
sei. se digo deserto, digo mar, se mar, esta planície de nada
nadas desertos e mares também são caminhos se não tivermos mapas

não tenho mapa

digo china
digo península ibérica
digo nasa
casa
os corredores têm mapas?
minha casa não tem luz

os primeiros mapas
apagá-los

não sei amarrar os sapatos
não sei desamarrá-los

30 de abril de 2015

todo ecossistema tem um limite de energia



crocodilo puma tigre urso
um lobo
cinzento

equilíbrio de topo

a cachalote mergulha dois mil metros e lá se foram lulas gigantes em seu ventre, depois, na superficie, cocôs-namis alimentam fitoplânctons que devoram o carbono da nossa existência

ou
tão sutil quanto
quando um tubarão-tigre se aproxima
golfinhos, tartarugas, peixes, pássaros
todos  todos
um por um se distanciam
a esmo

14 de abril de 2015

palabras

(de Eduardo Galeano)

Hace unos 15 millones de años, según dicen los entendidos, un huevo incandescente estalló en medio de la nada y dio nacimiento a los cielos y a las estrellas y a los mundos.

Hace unos 4 mil o 4 mil 500 millones de años, años mas años menos, la primera célula bebió el caldo del mar, y le gustó, y se duplicó para tener a quien convidar el trago.

Hace unos dos millones de años, la mujer y el hombre, casi monos, se irguieron sobre sus patas y alzaron los brazos y se entraron, y por primera vez tuvieron la alegría y el pánico de verse, cara a cara, mientras estaban en eso.

Hace unos 450 mil años, la mujer y el hombre frotaron dos piedras y encendieron el primer fuego, que los ayudo a defenderse del invierno.

Hace unos 300 mil años, la mujer y el hombre se dijeron las primeras palabras y creyeron que podían entenderse.

Y en eso estamos, todavía: queriendo ser dos, muertos de miedo, muertos de frío, buscando palabras.

13 de abril de 2015

figos frescos

(de Walter Benjamin)

Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente. Não há dúvida de que isso toca mais profundamente a devoração que o prazer. Por exemplo, quando alguém dá uma dentada na mortadela como se fosse pão, se chafurda no melão como numa almofada, lambe o caviar tanto quanto o papel que o embrulha e sobre uma cuia de queijo Edam se esquece de tudo o mais que existe na Terra para comer. – Como foi que eu soube disso pela primeira vez? Foi diante de uma decisão das mais difíceis. Uma carta devia ser despachada ou despedaçada. Há dois dias trazia comigo, porém, sem pensar naquilo. Eis que no barulhento ramal ferroviário eu subira até Secondigliano, atravessando a paisagem corroída pelo sol. O povoado jazia solene na quietude cotidiana. Único vestígio do domingo que passara: as varetas nas quais rodas luminosas haviam oscilado, e os rojões dos foguetes haviam se inflamado; isso antes, pois agora estavam ali, desnudas. Algumas exibiam à meia altura um escudo com a figura de um santo de Napóles ou a de animal. Nos celeiros abertos, mulheres sentadas debulhavam milho. Eu caminhava devagar, como que anestesiado, quando vi, à sombra, uma carreta de figos. Foi por falta do que fazer que me dirigi até ela; foi por desperdício que, em troca de alguns soldi, pedi meio quilo. A mulher pesou generosamente. Mas, quando os frutos pretos, azuis, verde-claros, violetas e marrons estavam no prato, verificou-se que a mulher não tinha papel de embrulho. As donas-de-casa de Secondigliano traziam seus recipientes, e ela não estava preparada para atender a um globetrotter. Contudo, senti vergonha de renunciar as frutas. E fui-me embora, figos nos bolsos da calça e da jaqueta, figos em ambas as mãos estendidas à frente, figos na boca. Agora não podia parar de comer, precisava tentar me defender, o mais rápido possível, contra a massa de frutas robustas, que me havia atacado. Mas aquilo já não era um comer, mas um banhar-se, pois o aroma resinoso penetrava minhas coisas, se grudava às minhas mãos, emprenhava o ar, através do qual eu levava minha carga. E, então, sobreveio a culminância do sabor, na qual, quando o fastio e a náusea – as últimas curvas – estão dominadas, o panorama se abre numa imprevista paisagem do palato: uma maré de avidez, sem sabor, sem limite, verdoenga, que nada conhece a não ser a onda viscosa e fibrosa da polpa da popa da fruta aberta, a total transmutação de prazer em hábito, de hábito em vício. Crescia em mim o ódio por aqueles figos; tinha pressa de me arrumar, de me livrar, de me desvencilhar daquela massa que regorgitava, que se desintegrava. Comia para exterminá-la. Quando arranquei o último figo do fundo de meu bolso, nele estava colada a carta. Seu destino estava selado: também ela devia ser sacrificada à grande limpeza. Tomei-a e rasguei-a em mil pedaços.




10 de abril de 2015

e penso:

a humanidade não se divide entre nós e outros. somos um só nó. um nós nada monolítico. se dentro de cada um disputam espaço os mil lobos, se dentro os monstros e as fadas, anjos, demônios e laranjas, todas as contradições, lidarmos com nós mesmos é lidarmos com os nós e conosco mesmos, como somos. expandir a delicadeza que nos dedicamos. olhar. compreender. buscar desde dentro da caverna o ponto luminoso – bicho, estrela, uma fenda.