1 de dezembro de 2017

quanto

quanto é preciso que envelheça uma galáxia para que contenha um pouco de vida? olhe o céu. e nós aqui, quanto envelhecemos até que enfim estejamos submersos em um pouco de vida? ventos de areia, como rios passando sobre a pele. serpentes cósmicas. há alguma coisa que não estamos vendo. por não conhecer.

9 de junho de 2017

um poema de rick noguchi - em obras

O oceano dentro dele
Depois que Kenji Takezo tomou um caldo,
A turbulência da espuma confundiu
Seu senso de direção.
Ele inspirou
Quando deveria ter
Prendido firme. Por acidente, engoliu
O Pacífico. A água entornou pela sua garganta,
Uma cascata azul que ele não pode ver.
Ele sentiu em seu estômago
A vida pesada do oceano.
Não foi divertido, mas ele riu
Quando um cardume fez cosquinhas em suas costelas.
Ele foi para casa, o surf não montável,
Já não estava lá,
A água pesou em sua barriga.
Naquela noite, enquanto dormia, a maré se moveu.
Os longos braços da lua
Alcançaram-no, de dentro dele
libertando o Pacífico.
Quando acordou na manhã seguinte,
Deitava numa poça de oceano que era dele.


The Ocean Inside Him
After Kenji Takezo fell from a wave,
The turbulence of whitewash confused
His sense of direction.
He breathed in
When he should have
Held tight. By accident, he swallowed
The Pacific. The water poured down his throat,
A blue cascade he could not see.
He felt in his stomach
The heavy life of the ocean.
It wasn’t funny, but he giggled
When a school of fish tickled his ribs.
He went home, the surf not rideable,
It was no longer there,
The water weighted in his belly.
That night, while he slept, the tide moved.
The long arms of the moon
Reached inside him pulling the Pacific free.
When he woke the next morning,
He lay in a puddle of ocean that was his.



21 de maio de 2017

poesias de muitas mulheres

ODE
(Orides Fontela)
O início? O mesmo fim.
O fim? O mesmo início.

Não há fim nem início. Sem história
o ciclo dos dias
vive-nos.


SOBRE UM FILME DE WONG KAR-WAY
(maria esther maciel)

O corpo e seus possíveis.
O dentro que, na pele,
vira flor.
Os cheiros, a memória
do que, de tão breve,
não fica
senão como sombra
líquida
quase cítrica
desse amor.



(ana cristina cesar)

Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

Badland 
(matilde campilho)

Não sei se sou homem
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas
todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.


Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.

Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.

§
caça à palavra 
(ledusha)

repleta, minha alma espreita atrás do estrume do mundo:
de onde vêm os versos, que face ocultam entre o amor e a morte?
às vezes os sons são os mesmos, as texturas, o tempo,
o mesmo homem a revolver-me as veias
onde se lacram as vãs repetições, que noite veste o poema?
o sol nos vasos de crisântemos, ecos de um triste país,
largos horizontes onde meu pai passeia verbos nem sempre sublimes.
tudo é memória, sirenes ligadas. a infância sempre ontem, mas aqui.
todo verso sugere uma serpente oferecida.
que na minha caça à palavra (que face ocultam o amor e a morte?)
não haja qualquer vislumbre de repouso.

(valeska de aguirre)

O Sul é meu retorno
Meu jazz
Meu juízo final


Meu sul é submerso
Se fico, afogo

Minha solidão
Meu calabouço

Minha galeria siberiana
Branca branca branca



En elogio de mi hermana
(Wislawa Szymborska)

Mi hermana no escribe poemas
y es improbable que de pronto se ponga a escribir poemas.
Le viene de mi madre, que no escribió poemas,
y de su padre, que tampoco escribió poemas.
Me siento a salvo bajo el techo de mi hermana:
nada pondrá al esposo de mi hermana a escribir poemas.
Y aunque la cosa suena a poema de Adam Macedonski,
a ninguno de mis parientes le da por escribir poemas.


En el escritorio de mi hermana no hay poemas viejos
ni poemas nuevos en su bolsa.
Y cuando mi hermana me invita a comer,
sé que no es con la intención de leerme poemas.
Cocina sopas soberbias con facilidad,
y su café no se derrama sobre manuscritos.

En muchas familias nadie escribe poemas,
pero cuando no es así, rara vez es uno solo.
A veces la poesía fluye en cascadas de generaciones,
lo cual instala temibles remolinos en las relaciones familiares.

Mi hermana cultiva una decente prosa hablada,
toda su producción literaria está en tarjetas postales
que prometen lo mismo cada año:
que cuando vuelva,
nos va a contar todo,
todo,
todo.



(angelica freitas)

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa


há milhões, mihões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre as duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa




A mão (Conceição Lima)

Toma o ventre da terra
e planta no pedaço que te cabe
esta raiz enxertada de epitáfios.

Não seja tua lágrima a maldição
que seqüestra o ímpeto do grão
levanta do pó a nudez dos ossos,
a estilhaçada mão
e semeia

girassóis ou sinos, não importa
se agora uma gota anuncia
o latente odor dos tomateiros
a viva hora dos teus dedos.





(benedicte houart)
são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia


A vida responsável 
(Amalia Bautista)
Dirigir sem causar acidentes,
comprar desodorante e macarrão
e cortar as unhas das minhas filhas.
Madrugar outra vez, ter cuidado
para não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas páginas
que não me importam nada
e retocar as bochechas com ruge.
Lembrar da consulta ao pediatra,
responder ao correio, pendurar a roupa,
declarar os rendimentos, ler livros
e fazer umas chamadas telefônicas.
Gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo que quisesse
para fazer um monte de coisas estranhas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e bobas.
Por exemplo, te amar com loucura.


17 de maio de 2017

um poema de rafael espinosa

Agricultura de terraza

Fresnos, grevilleas, molles, la especie que llaman
jaboncillo, sauces, poncianas, melias,
cerezos de Japón, ficus, seres
sobre los que zarpa el deseo, demasiado puros
para la felicidad, producen hundimientos.
Ceibos, casuarinas, higueras.

Cormoranes, pelícanos, ostreros,
gaviotas peruanas y gaviotas de Franklin,
gaviotines, piqueros de pata azul, zarcillos,
guanayes, playeritos, chorlos nevados,
chillidos en la mente de un esquizofrénico
y todas las formas de una imposible hermandad.

Así fue siempre. Junto al mar,
pensar en el sentimentalismo de los árboles,
en el parque oír el impulso
de las aves marinas. Caminar por el puente
donde salta la gente en Lima, cubriendo
lo que está con lo que existe.

A veces Paula me distraía
con los distintos moños que usaba
para sujetar su cabellera y hablábamos
de los millones de cometas
con que las asociaciones libres poblaron
el universo para hacerlo una celebridad.

Otras veces hablaba con un amigo
al que su esposa negó tres veces. En silencio
aprendió alemán y jardinería. “Un jardín
se contiene a sí mismo. No tienes
que pensar más. Es, si quieres, un sistema coralino,
ya que has ido mucho al océano. ¿Por qué
no te conviertes en el traductor de las flores?”

Otras veces leía sobre personas
que son felices en el amor.
Mientras tanto, bajaban bueyes
de los más abruptos pueblos tibetanos
y se sentaban a mi vera. Reposaban.
No quieras saber cuán profundos son sus ojos.

15 de maio de 2017

um poema de donizete galvão

A dureza do instante

Um tapete de goiabas
estende-se sobre a grama.
Os jacintos em bloco
ergueram suas flores.
Poderia ser este o lugar.
Este o tempo do repouso.
Mas a roda dentada nunca para.
Mói o caramujo envolto em formigas.
Mói o cão içado do poço por um balde.
Mói os fios de cabelo de Anita
que protegem os pés de rosa.
Mói as rosas.
(Em direção ao rio,
lá vai a mulher com a pedra no bolso.
Lá está ele na cama
com os tubos no nariz.)
Há perfumes de jacintos
e goiabas vermelhas de outono.
Cada instante tem sua polpa
e no centro o áspero caroço.

13 de maio de 2017

um texto de agota kristof

Exercício de mendicância
(de Um caderno e tanto)

Nos vestimos com roupas sujas e rasgadas, tiramos os sapatos, emporcalhamos o rosto e as mãos. Vamos para a rua. Ficamos parados, esperando.
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos:
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos:
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.

11 de maio de 2017

mais um poema de hans magnus enzensberger

El hundimiento del Titanic
Canto XVIII

Con lo cual, dijo la blanca voz, remaron
a toda prisa, alejándose
del punto impenetrable
donde había desaparecido el Titanic,
pero no pudieron escapar de los gritos.
Cada una de estas voces era clara y diferente
de la otra: el estridente alarido de terror
diferente del ronco lamento,
el chillido suplicante, distinto del gemido estrangulado,
y así sucesivamente, y no eran pocos los gritos,
sino miles de ellos, el mar estaba en calma,
había un arrullo en el aire, y las voces, prosiguió la voz,
llegaban lejos y eran muy nítidas, de ahí
que en el bote algunos dijeran, regresemos,
tenemos espacio, de ninguna manera,
se llenaría el bote y lo harían zozobrar,
dijeron otros, y nos ahogaríamos todos,
y así continuaron discutiendo y remando, hasta
que después de una larga hora, dijo la voz
tajantemente, las voces disminuyeron, y sólo
se oía aquí y allá una débil y solitaria tos,
un chillido animal apenas audible,
hundiéndose simplemente en la oscuridad total.

1 de maio de 2017

um poema de hans magnus enzensberger

Novos motivos pelos quais os poetas mentem

Porque o instante
em que a palavra "feliz"
é pronunciada
nunca é o instante da felicidade.
Porque os lábios do sedento
não falam de sede.
Porque pela boca da classe trabalhadora
nunca ouvireis a palavra "classe trabalhadora".
Porque o desesperado
não tem vontade de dizer
“estou desesperado”.
Porque orgasmo e Orgasmo
são incompatíveis.
Porque o moribundo, em vez de dizer
“estou morrendo”,
não emite mais que um ruído surdo
que nos resulta incompreensível.
Porque os vivos
são os que rompem o tímpano dos mortos
com suas terríveis notícias.
Porque as palavras chegam sempre muito tarde
ou muito antes.
Porque de fato é outro,
sempre outro,
o que fala,
e porque aquele de quem se fala
cala.









25 de abril de 2017

primavera



passei uns meses sem saber se queria ou não a primavera deste ano. no verão passado ganhei uns ovos de bicho da seda e sabia que quando brotassem as amoreiras, tiraria os ovos do frio, esperaria que eclodissem, e alimentaria lagartas, no princípio minúsculas, que cresceriam a cada dia.
tenho questões com lagartas. destas questões antigas e inexplicáveis.
gosto dos silêncios, dos ciclos, dos casulos, admiro os fios de seda e as pequenas borboletas a reiniciar o movimento. mas enfrentar as lagartas em seus gestos de lagarta...
nesse momento devem ser umas duzentas, movendo patas minúsculas e bocas. são frágeis.
meu espanto repousa numa caixa de sapatos no balcão da cozinha. pequenos furos para não nos faltar o ar.
primavera estranha esta.

24 de abril de 2017

um poema de elisabeth bishop

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

(tradução de Paulo Henriques Britto)


One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

20 de abril de 2017

entre as tulipas sempre é primavera


vários caminhos diferentes vão me levando para a tradução de poemas de attila jozsef, nascido na hungria em 1905 e morto em 1937, sem que se saiba ao certo se acidente ou suicídio.
o primeiro caminho que me levou até ele foi meu pai. um dia conversando, selecionamos alguns poemas que poderiam ser um bom exercício de tradução conjunta. mas nao seguimos com isso. a vida leva, a vida traz, e isso agora já não será possível. não com meu pai, ao menos.
quando resolvi retomar, soube que havia uma tradução para o catalão. na rede de bibliotecas daqui só havia um exemplar, não emprestável, num lugar distante. procurei saber quem era o tradutor e ao saber que era de valencia, perguntei ao joan navarro, poeta e amigo, se não o conheceria. além de conhecer o eduardo verger, entrou em contato com ele, conversou, e poucos dias depois já me enviava um arquivo eletronico com o conteúdo do livro que estava esgotado.
devagarinho fiz minha própria seleção e comecei a tradução. traduzir é sempre difícil. o húngaro não é uma língua fácil.
aproveitei a viagem que fiz para visitar meu tio, irmão do meu pai, e perguntei a ele se poderia me ajudar a ver o que eu tinha incluído na minha seleção, conversar sobre alguns versos, expressões.
e ali, no apartamento pequeno de uma pequena cidade do interior da hungria, no avançado da noite, enquanto eu dizia das dúvidas, ele e minha tia comentavam o que está além das linhas, liam os poemas, quase sussurro. a dor de attila. e sua voz imensa. via meu tio e nele eu via também os gestos do meu pai. os papeis sobre a mesa sob a luz amarela noite adentro.
e nisso estou: na voz do meu pai. na voz dos meus tios. esse sussurro. e na minha própria voz, ainda perdida, que procuro emprestar para attila jozsef. e o seu grito.