amanheço e leio as notícias e as notícias são tão desamparadoras,
tristes, tiram meu ar metafórico, penso no que a branquitude gerou no mundo, me
sinto mal, me reviro, é tão pouco o que faço. tanta gente sem ar de verdade.
sem ar. miguel cinco anos. estatelado no chão do mundo.
***
estes dias, leio krenak e kopenawa.
leio mulheres.
leio o que não é branco.
leio aqueles que não têm ar.
***
aqui, pouco a pouco, a vida pulsa nas ruas, nas calçadas,
nos bares.
***
vi imagens dos bunkers para ricos que há nos estados unidos. olho aquilo e me pergunto: pra quê?
***
meu dente do siso dói. a dor chegou devagarinho, a gente mal
se dá conta da dor chegando. e um dia ela está instalada, impede pensamento,
impede concentração. não deixa dormir nem comer nem achar graça em nada. quando
tudo anda sem graça é pior ainda. o analgésico faz efeito, a gente esquece da
dor. ou quase esquece. depois ela volta. e cada vez que volta, vem pior. os
dias seguem.
nem tudo é abismo.
***
um papagaio veio visitar nossa casa.
dia desses, apareceu do nada, deu uns beijos na barba do meu
amor e foi embora.
contando assim parece simples e rápido. mas foi tudo muito
lento, enquanto eu dormia. durmo muito. durmo cedo, acordo tarde. enquanto
isso, um papagaio pousou no muro da varandinha, ricardo olhou, o papagaio olhou
de volta. e ficaram assim um tempo olho no olho, diz ele, o ricardo, não o
papagaio. o papagaio não me disse nada diretamente. só vi o papagaio por fotos e vídeo.
então, eles ficaram ali, se olhando. ricardo começou a fazer
umas fotos e, pelo visto, o papagaio gosta de fotos. se deixou fotografar. e
veio caminhando pela mureta até chegar bem perto de onde o ricardo estava
sentado. tudo isso registrado em fotos. e então o papagaio passou para o ombro
do ricardo, e começou a dar umas bicadinhas, como quem beija, na barba dele. a
partir do momento em que passou a estar com o papagaio no ombro, ricardo
começou a fazer o que nunca faz: umas selfies. ele e o papagaio. em algumas,
eles têm a mesma expressão de olhar, ou o mesmo gesto com a cabeça. e quando o
papagaio continuou dando bicadinhas no rosto, metendo o bico no meio da barba,
ricardo fez um videozinho. e estavam ali integrados e felizes, homem e
papagaio, quando de repente o papagaio fez barulho de papagaio e voou.
foi o tema do dia. o papagaio que veio visitar o ricardo. e
as fotos e os vídeos. e a alegria no olhar humano. de papagaio não entendo
muito, mas devia estar feliz também.
mas não voltou. no dia seguinte nem depois.
aqui perto há uma praça em que sempre chegam e saem bandadas
de papagaios. bandadas de papagaio me lembra um poema do benjamin péret.
***
criamos modos de estar no mundo a partir do território que
ocupamos. que modos de estar estamos criando a partir do momento que ficamos
tão presos ao território mínimo da casa, convivendo sempre com os mesmos? que
mundo hostil estamos criando nesse momento em que só pensamos em sobreviver?
***
nem toda galáxia gira simetricamente.
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Estos días se desató un debate en torno a la piratería y los
derechos de autor. Que los autores tienen derecho a vivir de sus
libros, que los libreros pierden plata con la piratería, que pun,
que pin, que pan. Decidí entrar a los perfiles de muchos de los
acérrimos defensores de los derechos de autor. Para mi sorpresa (o
no) vi a muchos visitando sitios arqueológicos pensados, diseñados
y construidos por mis ancestros. Sacándose fotos en nuestros sitios
sagrados, comprando piratería de nuestro arte replicado por gente
que no es de nuestra comunidad, que no son descendientes de quienes
imaginaron, soñaron y crearon nuestros patrones artísticos;
llevándose ropas fabricadas para el turismo en escala industrial sin
que se nos pague un peso a nosotros, los autores de ese arte y de
esas prendas. Comiendo nuestras comidas típicas en restaurantes y
bares que no son atendidos por nuestra gente, que no redunda en
ganancia alguna para nuestra comunidad. Comprando instrumentos
creados por nuestro pueblo, pero no se lo compran a nuestro Pueblo.
Alimentando una maquinaria turística que existe gracias a que
nosotros alguna vez existimos, creamos, soñamos, hicimos cultura en
nombre de la libertad. Llegó un día en que nos arrebataron todo
(incluso los derechos sobre nuestra propia cultura)
Soy Rogelio
Oscar Retuerto. Descendiente de la onceava comunidad tonocoté de la
República Argentina. Cuando nací me iba a llamar Ahuita. Pero
cuando mi madre quiso inscribirme no la dejaron. A nuestros nombres
también se los habían robado.
Foto: mis hermanos del monte
tapándose el rostro. No por el coronavirus. Se esconden de la gente
que les saca fotos como si fueran rarezas de barro, pero que no pagan
derecho de autor.
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me surpreende que tantas pessoas não tenham medo de morrer. em seguida sei que não é
esta a frase que eu queria escrever. com ou sem medo da morte sei que
ninguém quer morrer porque viver é o que temos, o que somos. o que
me surpreende é supor – e de certa forma ver com clareza – que
se muitas pessoas não mudam os hábitos para evitar a contaminação
pelo covid19 é porque sabem que há outras mortes tão ou mais
próximas em seu cotidianos. e nós, que achamos que a morte não
está no nosso encalço, nos assustamos quando sabemos tudo o que
sabemos deste vírus e das mortes que provoca. a casa é espaço de
proteção. quem não encontra proteção em lugar algum do mundo não
vai se fechar no espaço mínimo que habita. para quê?
***
quando a última
pessoa que pede uma dedicatória vai embora e eu começo a me
angustiar com o próximo livro que quero escrever e tudo o que faço
que me impede de escrever até que desisto e há um livro.
***
os tempos sempre
foram estranhos mas nem sempre éramos nós no centro deste espanto.
nos gestos curtos
os hábitos de guerra.
estar em paz é
meter-se no caos fluido do mundo, saber que se pode respirar mesmo
quando nos falta o ar.
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