5 de junho de 2020

nos falta ar

amanheço e leio as notícias e as notícias são tão desamparadoras, tristes, tiram meu ar metafórico, penso no que a branquitude gerou no mundo, me sinto mal, me reviro, é tão pouco o que faço. tanta gente sem ar de verdade. sem ar. miguel cinco anos. estatelado no chão do mundo.

***
estes dias, leio krenak e kopenawa.
leio mulheres.
leio o que não é branco.
leio aqueles que não têm ar.

***
aqui, pouco a pouco, a vida pulsa nas ruas, nas calçadas, nos bares.

***
 vi imagens dos bunkers para ricos que há nos estados unidos. olho aquilo e me pergunto: pra quê?

***
meu dente do siso dói. a dor chegou devagarinho, a gente mal se dá conta da dor chegando. e um dia ela está instalada, impede pensamento, impede concentração. não deixa dormir nem comer nem achar graça em nada. quando tudo anda sem graça é pior ainda. o analgésico faz efeito, a gente esquece da dor. ou quase esquece. depois ela volta. e cada vez que volta, vem pior. os dias seguem.
nem tudo é abismo.

***
um papagaio veio visitar nossa casa.
dia desses, apareceu do nada, deu uns beijos na barba do meu amor e foi embora.
contando assim parece simples e rápido. mas foi tudo muito lento, enquanto eu dormia. durmo muito. durmo cedo, acordo tarde. enquanto isso, um papagaio pousou no muro da varandinha, ricardo olhou, o papagaio olhou de volta. e ficaram assim um tempo olho no olho, diz ele, o ricardo, não o papagaio. o papagaio não me disse nada diretamente.  só vi o papagaio por fotos e vídeo.
então, eles ficaram ali, se olhando. ricardo começou a fazer umas fotos e, pelo visto, o papagaio gosta de fotos. se deixou fotografar. e veio caminhando pela mureta até chegar bem perto de onde o ricardo estava sentado. tudo isso registrado em fotos. e então o papagaio passou para o ombro do ricardo, e começou a dar umas bicadinhas, como quem beija, na barba dele. a partir do momento em que passou a estar com o papagaio no ombro, ricardo começou a fazer o que nunca faz: umas selfies. ele e o papagaio. em algumas, eles têm a mesma expressão de olhar, ou o mesmo gesto com a cabeça. e quando o papagaio continuou dando bicadinhas no rosto, metendo o bico no meio da barba, ricardo fez um videozinho. e estavam ali integrados e felizes, homem e papagaio, quando de repente o papagaio fez barulho de papagaio e voou.
foi o tema do dia. o papagaio que veio visitar o ricardo. e as fotos e os vídeos. e a alegria no olhar humano. de papagaio não entendo muito, mas devia estar feliz também.
mas não voltou. no dia seguinte nem depois.
aqui perto há uma praça em que sempre chegam e saem bandadas de papagaios. bandadas de papagaio me lembra um poema do benjamin péret.

***
criamos modos de estar no mundo a partir do território que ocupamos. que modos de estar estamos criando a partir do momento que ficamos tão presos ao território mínimo da casa, convivendo sempre com os mesmos? que mundo hostil estamos criando nesse momento em que só pensamos em sobreviver?

***
nem toda galáxia gira simetricamente.
 
 
 
***
 
 

Estos días se desató un debate en torno a la piratería y los derechos de autor. Que los autores tienen derecho a vivir de sus libros, que los libreros pierden plata con la piratería, que pun, que pin, que pan. Decidí entrar a los perfiles de muchos de los acérrimos defensores de los derechos de autor. Para mi sorpresa (o no) vi a muchos visitando sitios arqueológicos pensados, diseñados y construidos por mis ancestros. Sacándose fotos en nuestros sitios sagrados, comprando piratería de nuestro arte replicado por gente que no es de nuestra comunidad, que no son descendientes de quienes imaginaron, soñaron y crearon nuestros patrones artísticos; llevándose ropas fabricadas para el turismo en escala industrial sin que se nos pague un peso a nosotros, los autores de ese arte y de esas prendas. Comiendo nuestras comidas típicas en restaurantes y bares que no son atendidos por nuestra gente, que no redunda en ganancia alguna para nuestra comunidad. Comprando instrumentos creados por nuestro pueblo, pero no se lo compran a nuestro Pueblo. Alimentando una maquinaria turística que existe gracias a que nosotros alguna vez existimos, creamos, soñamos, hicimos cultura en nombre de la libertad. Llegó un día en que nos arrebataron todo (incluso los derechos sobre nuestra propia cultura)
Soy Rogelio Oscar Retuerto. Descendiente de la onceava comunidad tonocoté de la República Argentina. Cuando nací me iba a llamar Ahuita. Pero cuando mi madre quiso inscribirme no la dejaron. A nuestros nombres también se los habían robado.
Foto: mis hermanos del monte tapándose el rostro. No por el coronavirus. Se esconden de la gente que les saca fotos como si fueran rarezas de barro, pero que no pagan derecho de autor.




***

me surpreende que tantas pessoas não tenham medo de morrer. em seguida sei que não é esta a frase que eu queria escrever. com ou sem medo da morte sei que ninguém quer morrer porque viver é o que temos, o que somos. o que me surpreende é supor – e de certa forma ver com clareza – que se muitas pessoas não mudam os hábitos para evitar a contaminação pelo covid19 é porque sabem que há outras mortes tão ou mais próximas em seu cotidianos. e nós, que achamos que a morte não está no nosso encalço, nos assustamos quando sabemos tudo o que sabemos deste vírus e das mortes que provoca. a casa é espaço de proteção. quem não encontra proteção em lugar algum do mundo não vai se fechar no espaço mínimo que habita. para quê?


***

quando a última pessoa que pede uma dedicatória vai embora e eu começo a me angustiar com o próximo livro que quero escrever e tudo o que faço que me impede de escrever até que desisto e há um livro.


***

os tempos sempre foram estranhos mas nem sempre éramos nós no centro deste espanto.

nos gestos curtos os hábitos de guerra.

estar em paz é meter-se no caos fluido do mundo, saber que se pode respirar mesmo quando nos falta o ar.

 

Nenhum comentário: