8 de fevereiro de 2015

falsa musa

às vezes isso que chamam musa se senta do outro lado da mesa, nos olha e em nada nos inspira. nesses dias, vejo a maquiagem desfeita, sei a farsa, tenho ideias e nenhuma se sustenta. o ar entra. o ar sai. também o ar que se respira às vezes, veja só, é falso. nestas vezes, me levanto discretamente, abro a porta da cozinha e olho o céu. chamo os meninos pra comer pão de queijo, e quando ela, falsa musa, estende a mão, digo: não, você não. e volto a olhar o céu sem nuvens. uma infusão de cardamomo e gengibre faz o ar de inverno ficar mais leve. por aqui ainda não inventaram o requeijão e as cozinhas não têm porta pro quintal.

15 de janeiro de 2015

desejos de dezembro

aprender uma língua quase morta
contornar um câncer com sabedoria
controlar os medos sem pressa
cortar os vestidos muito longos
desviar dos pedágios
guardar anéis
livrar-se do excesso de livros
ser portátil

depois
levar os bois
levar os porcos
levar os gansos
a pastar
ensinar aos filhotes o caminho da casa
no inverno calcular metros cúbicos de madeira
entre os tijolos preparar a renda dos lençóis

meu pai relê o mundo em sua velhice
melhora-o
ameniza-o
o mundo áspero e os espinheiros que somos
uns para os outros
as valas que nos tornamos todos

minha mãe oculta-se do mundo
diz que mal se lembra

para os dois, o medo dos aviões do inimigo
e a planície
os bombardeios

as crianças sabem melhor os perigos
é uma questão de olfato
e sentem mais frio nos pés

os velhos não gostam dos ventos em amplos espaços
e atravancam suas casas internas
com coisas nas quais tropeçam a cada manhã
depois dizem
meu pé lateja
não sai água da torneira
na minha idade muitos já morreram

os tapetes não têm vísceras
os quadros são nuvens cinzas
onde piso é o onde vivo
se existo sou um abraço,
sem abraço, um naufrágio.

24 de outubro de 2014

os dentes do tempo

sonhei com s. eu a visitava em seu apartamento no rio, como era nos primeiros dias, sem muitos móveis, tudo um pouco desordenado. ela mesma me abria a porta, estava arrumada para sair, com suas roupas punks anos 80. toda ela um tanto translúcida. então eu perguntava se tudo estava bem e ela, com um sorriso um tanto desanimado, mas nunca desesperado, respondia que sim, e que eu desse uma olhada no quarto. no quarto, sobre a cama, ela mesma, ali, morta. o corpo de certa forma já se desfazendo. moscas. ouvi r. chegar feliz. pronta pra sair também. eu perguntava o que faríamos com o corpo de s. e s. respondia: deixa lá mesmo, já foi... e o final do sonho, como tantos, se desvanece, se perde, entre o nonsense total e a sensação remota do que li ontem, de que não necessariamente o ser humano está aí para ser feliz. e, se nos isentarmos deste imperativo, pode até ser que um lampejo de felicidade nos tome.

24 de setembro de 2014

e, de repente, estanco

Um homem e sua vida (Yehuda Amichai)

Não. Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.
O Eclesiastes está enganado acerca disto.
Não há o tempo de amar e o tempo de odiar.
Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante,
rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
planejar e confundir, e comer e digerir...
Que a História leva anos e anos para se fazer.
e um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra esquece,
quando esquece ama, quando ama começa a esquecer.
E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador.
Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.
Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo
para tudo.

traducao carlito azevedo

23 de setembro de 2014

para reaprender os contornos do planeta



“Andar é cair para a frente. Cada passo é uma queda interrompida, um colapso evitado, um desastre contido. Por isso, o ato de andar é também um ato de fé. Um milagre em dois tempos – um ritmo binário, com um momento de contenção e outro de liberação.”

Paul Salopek, na National Geographic Brasil de dezembro de 2013, início de seu primeiro relato de um trajeto de 33 mil quilômetros a ser percorrido a pé. Serão sete anos na rota do homo sapiens da África à Terra do Fogo: “Ando para reaprender os contornos do planeta. Ando para ver o que há mais além. Ando para lembrar.”

2 de setembro de 2014

vinte e quatro por segundo

pode ser voce
pode ser eu
esta
mulher estrangeira
vinte e quatro quadros por segundo
nestes tempos pixels
película música fala
uma trilha incompreensível

suspiro

a pele branca sob a burca
a pele negra
quase nua
contagem regressiva
o pé na areia quente
o corpo que existe e se move
lento
a língua

um plano longo
tarkovski a regar a árvore
seca
nossos olhos secos
seus
meus
saber este corpo
suas regras
saber seus ciclos
incompreendê-los

seu vazio

o pensamento raso
quadro a quadro
fotograma
o tempo alucinado

a cidade nao nos existe

25 de agosto de 2014

ah

se soubesse dizer o que quero, não escarafuncharia a terra este monturo de palavras que construímos. unhas sujas, cabelos desgrenhados, cansada. quando durmo, descanso, as unhas seguem sujas sem que eu tenha dito o mundo que me deságua.

25 de junho de 2014

desta vez

me ocupei de uma velha embarcação. e do tempo a navegá-la.







El amor
Las palabras son barcos
y se pierden así, de boca en boca,
como de niebla en niebla.
Llevan su mercancía por las conversaciones
sin encontrar un puerto,
la noche que les pese igual que un ancla.
Deben acostumbrarse a envejecer
y vivir con paciencia de madera
usadas por las olas,
irse descomponiendo, dañarse lentamente,
hasta que a la bodega rutinaria
llegue el mar y las hunda.
Porque la vida entra en las palabras
como el mar en un barco,
cubre de tiempo el nombre de las cosas
y lleva a la raíz de un adjetivo
el cielo de una flecha,
el balcón de una casa,
la luz de una ciudad reflejada en un río.
Por eso, niebla a niebla,
cuando el amor invade las palabras,
golpea sus paredes, marca en ellas
los signos de una historia personal
y deja en el pasado de los vocabularios
sensaciones de frío y de calor,
noches que son la noche,
mares que son el mar,
solitarios paseos con extensión de frase
y trenes detenidos y canciones.
Si el amor, como todo, es cuestión de palabras,
acercarme a tu cuerpo fue crear un idioma.

Luis García Montero

9 de junho de 2014

2013

como quando vou saber dizer da dor que me atravessava naqueles dias? como se explica para um filho o medo de uma mãe de perdê-lo ao nascer, ou tempos depois vendo-o na corda bamba e ele se afastando muitos passos e eu querendo que ele se virasse, que me visse, que quisesse fazer parte deste mundo, do meu mundo. o que quero é perdê-lo como toda mãe perde os filhos, a cada dia, no desaparecimento natural das vidas, ganhando-o na proximidade lenta que se impõe entre o tempo de semente e o de ser isso que dizem um adulto.


23 de maio de 2014

no trajeto do silêncio

para soraya


vi uma pessoa no metrô que me lembrava você.
entrou outra, que me lembrou meu pai.
a cada parada, o vagão se enchia de rostos, todos com aspecto familiar.
pessoas são trajetos? pessoas que se parecem são diferentes maneiras do mesmo caminho?

por um tempo fiz um mesmo trajeto de ida e vinda. todo dia todo dia todo.
até deixar de fazê-lo.
deixar de fazê-lo a ponto de me esquecer de sua existência.
um dia, muitos anos depois, eis o trajeto. e alguma coisa em mim se lembra.
vou fazendo as curvas, tomando as decisões de direção quase sem pensar. 
a memória que vem à tona pensa por mim.

neste não pensar, um rio de palavras silenciosas se permite.
nenhuma palavra diz nada.
sobre elas chove.
sobre elas não se desenrola o desentendimento do início dos tempos ou o verbo.

os longos trens de carga nas estações urbanas têm um silêncio próprio, uma espécie de solenidade, algum mistério nas pedras que carregam. em seus líquidos.
têm um silêncio que atravessa a nossa espera.
a espera dos trajetos que se não lembramos nos lembram.

o trajeto da marcha das mães dos desaparecidos. 
que choram.



Tradução de Joan Navarro para o catalão e o castelhano na serieAlfa, aqui.

16 de maio de 2014

obsolescência programada



maio, lua cheia de maio, uma lua de silêncios me lembra alguém,  a mesma das revelações, pequenas, grandes, que se ocultam ao se manifestar explica a mulher enquanto com a língua revira a dentadura meio presa meio solta que o homem,  aquele homem,  esse homem, das tripas, cuidava sim do espaço passagem, varria toda manhã, nada a ficar pelo avesso e dobrava cobertas e guardava sacos plásticos caixas de papelão,  ordenava  – o entorno – não mijava – em qualquer canto, não – não defecava – à vista – a cada manhã, olhe para o céu agora neste maio de lua cheia em algum lugar as nuvens esgarçam as tripas deste homem – qualquer – em seu apocalipse único e miúdo, apocalipse de cada um, que nos faz ter um novo nome, este, que não seremos, este, que mãe nenhuma pronunciará, esta, denominação última  nossa num universo que nada circunscreve – as tripas – num fim mínimo íntimo, enquanto diziam que seriam as tais vestes reluzentes, não eu – eu, nua, da nudez áspera dos pesadelos de não saber amar o próximo próximo, de não saber amar – naquela boca meu nome nem, nas mãos as palmas abertas – nelas – a chama flamejante sem bênçãos – velas – este vazio este oco sempre estas tripas onde sou o profundo medo onde reverbera a voz e o que quer que anuncie o que quer que diga, eu, ouvidos moucos, eu, a desdizer nada, este nada das mãos queimadas ao tocarem o que sabe não saber o amor ao próximo distante, o que sabe não se saber capaz – eu – sem ramo nas mãos, sem cinzas sobre a testa – eu -- este um que se arrasta rasteja escapa enquanto os eleitos nominados e satisfeitos, enquanto os eleitos mãos em prece, enquanto os eleitos  sem suspeitarem do meu olhar quando, do meu olhar onde, do meu olhar enquanto eu à procura de quem, sabendo que não sou digna, sabendo que nem indigna, sabendo me absurda muda obtusa contemplação daquele de quem se diz pedra dor castigo, daquele que se diz verbo. fogo, principio e desolação.

6 de maio de 2014

precipícios

no princípio, a palavra
pedra submersa na água
opaca do mundo
que não era:

depois
de haver pedra
depois de haver água
e palavra
um princípío