18 de abril de 2011
no fio do son(h)o
à noite, fica mais intensa a fonte de perguntas que ele é. por que a gente morre quem inventou a gravidade como você sabe que é minha mãe por que não venta na lua como o vovô jimmy espirrava quando estou sozinho estou comigo mesmo, né, você me dá beijo quando sair? eu digo chega, é hora de dormir. e tudo se estanca. no silêncio da respiração que se finge pausada sei que perguntas aflitas encavalam na garganta. até que o sono vem e vence. palavras sem jorrar vida adentro pesadelam-nos por vezes madrugadas e escuros. no geral, embaralham-se lindos poemas. amém.
15 de abril de 2011
14 de abril de 2011
em tempos de guerra
na noite na cidade ocupada o inimigo bate à porta. bêbado, esmurra grita e quer uma mulher. elas no sótão, os homens de prontidão. no silêncio. seguram suas ferramentas únicas armas. um momento e o inimigo se afasta. saem os homens no escuro.
quando o dia, mais uma manhã mais uma jornada de trabalho mais um ancinho a menos para o feno.
quando o dia, mais uma manhã mais uma jornada de trabalho mais um ancinho a menos para o feno.
13 de abril de 2011
hoje
às vezes nada mais há que se possa fazer eu digo chega você não está ponho as mãos no rosto nada nada que se possa vou dormir nada a fazer nada há uma pequena tristeza a escorrer lágrima na face mas nada que se faça nada chega nada não está nada nada nada um mantra que adormece o rosto e as mãos. que o nada às vezes me permanece.
9 de abril de 2011
saudade em casa de mim
minha vida um longo fio tricotado de mil jeitos tecido de outros e quando me afasto é como se a ponta do fio que sou ficasse preso ao onde você está e na distância ao se distender o fio vou me desfazendo do trançado que eu era vou soltando a tecedura do que me construo no mundo quando com você estou.
8 de abril de 2011
vento
algumas pessoas nascem esculturas prontas e resta ao tempo devastá-las. outras vêm ao mundo massa informe, e ao tempo cabe forjá-las, esculpi-las.
eola gostava de andar nas tardes claras de ventania quando o movimento do ar traça sulcos em gestos e rosto, como se erodisse planícies. o pensamento segue pedaços de painas no asfalto, ângulos exatos entre janela e céu, sombras na calçada, placas de trânsito invertidas, construções novas em terrenos antes vazios.
o seu tesouro o fundo de um vale nascente na gruta dos olhos nas mãos de veias salientes e dedos grossos.
eola gostava de andar nas tardes claras de ventania quando o movimento do ar traça sulcos em gestos e rosto, como se erodisse planícies. o pensamento segue pedaços de painas no asfalto, ângulos exatos entre janela e céu, sombras na calçada, placas de trânsito invertidas, construções novas em terrenos antes vazios.
o seu tesouro o fundo de um vale nascente na gruta dos olhos nas mãos de veias salientes e dedos grossos.
6 de abril de 2011
as mulheres gulosas
no ônibus, uma senhora de pé. qualquer um pensa adivinhá-la no cabelo, na roupa contida, no calçado raso. óbvia.
ela se senta, então.
e no tornozelo descoberto, em letras mínimas, tatuado naquele quase pergaminho, um poema de drummond.
ela se senta, então.
e no tornozelo descoberto, em letras mínimas, tatuado naquele quase pergaminho, um poema de drummond.
4 de abril de 2011
1 de abril de 2011
31 de março de 2011
todas
sou hilda sou cecília
adélia domingo na missa.
sou adília
sofia florbela fabiana e janaína.
sou maria esther e seus nomes.
helena a caminho do sol.
na feira sou clarice
neide e noemi entre coisas pequenas.
angélica na praia alice infinitamente
camila num canto de haikai.
adélia domingo na missa.
sou adília
sofia florbela fabiana e janaína.
sou maria esther e seus nomes.
helena a caminho do sol.
na feira sou clarice
neide e noemi entre coisas pequenas.
angélica na praia alice infinitamente
camila num canto de haikai.
30 de março de 2011
descabelada
no caos do dia, pequenas meninas em trio me dizem você parece a janis.
meu coração aos pulos na alegria daquele inusitado. nem precisava ser joplin, bastava ser seus peitos sem pensamento em largas praias de um rio de janeiro.
meu coração aos pulos na alegria daquele inusitado. nem precisava ser joplin, bastava ser seus peitos sem pensamento em largas praias de um rio de janeiro.
29 de março de 2011
frio
baixo os olhos e passo ao largo da mulher sentada na calçada.
não tilinto moedas também não fico imune ao vê-la com seu pequeno filho.
acredito ainda que sem paredes o mundo cresce.
enquanto pequenos universos se cercam cada vez mais muros, cada vez menos luz.
não tilinto moedas também não fico imune ao vê-la com seu pequeno filho.
acredito ainda que sem paredes o mundo cresce.
enquanto pequenos universos se cercam cada vez mais muros, cada vez menos luz.
24 de março de 2011
este lado para cima
como um cabo com mil cabinhos, o ulnar é um pacote de fibras nervosas que acompanha o quase principal osso do antebraço, a conectar cérebro e punho, passando pelo pescoço. pode ser apalpado na parte medial do cotovelo.
quando uma pressão prolongada sobre ou o encarceramento do nervo causam uma lesão, a palma da mão e os dedos pequenos ficam insensíveis. para manter o ulnar vivo e bem, é preciso alongar braços almofadar cantos. handle with care. e mergulhar no mundo num abraço.
quando uma pressão prolongada sobre ou o encarceramento do nervo causam uma lesão, a palma da mão e os dedos pequenos ficam insensíveis. para manter o ulnar vivo e bem, é preciso alongar braços almofadar cantos. handle with care. e mergulhar no mundo num abraço.
21 de março de 2011
na dúvida
quando a vi subir a calçada que eu descia, não soube se seguia, ou atravessava a ver vitrines ocupada em distração.
não que fosse má pessoa, mas tão desagradável. e se alguma coisa atravancava sua vida, sem rodeios e sem constrangimentos se derramava no primeiro que cruzasse o seu caminho. no geral, a vida não ia bem, dificuldades próprias dos tempos. então.
me sentia solidária com ela e seus sofrimentos mas se nunca de nunca se interessava por ninguém. hoje eu precisava que alguém quisesse saber de mim.
enquanto pensava, perdi o semáforo perdi o passo me desequilibrei e segui a olhar firme pra frente já aflita por saber que quando eu perguntasse se tudo bem - e o dia estava em inícios - sem sair do lugar, veria o dia se esvair em misérias e logo hora de almoço.
ela se aproximou. ela me viu. olhei bem nos olhos e: oi, tudo bem? e ela: não, não está tudo bem, mas não quero falar agora. e me largou, boba, perdida de fôlegos e pés, como quem sobe.
não que fosse má pessoa, mas tão desagradável. e se alguma coisa atravancava sua vida, sem rodeios e sem constrangimentos se derramava no primeiro que cruzasse o seu caminho. no geral, a vida não ia bem, dificuldades próprias dos tempos. então.
me sentia solidária com ela e seus sofrimentos mas se nunca de nunca se interessava por ninguém. hoje eu precisava que alguém quisesse saber de mim.
enquanto pensava, perdi o semáforo perdi o passo me desequilibrei e segui a olhar firme pra frente já aflita por saber que quando eu perguntasse se tudo bem - e o dia estava em inícios - sem sair do lugar, veria o dia se esvair em misérias e logo hora de almoço.
ela se aproximou. ela me viu. olhei bem nos olhos e: oi, tudo bem? e ela: não, não está tudo bem, mas não quero falar agora. e me largou, boba, perdida de fôlegos e pés, como quem sobe.
18 de março de 2011
17 de março de 2011
onde o tempo faz uma curva
desempilhar as palavras
osso a osso asa a asa
depois evaporá-las como à água
e esperar que me condensem
e esperar que se condensem
- quando você me diz qualquer -
uma e uma fio e filete
a juntar-se poça
até que a pálpebra se fecha,
e lagrima
o sal na minha boca
osso a osso asa a asa
depois evaporá-las como à água
e esperar que me condensem
e esperar que se condensem
- quando você me diz qualquer -
uma e uma fio e filete
a juntar-se poça
até que a pálpebra se fecha,
e lagrima
o sal na minha boca
9 de março de 2011
o vento no contrário
um dia vi um golfinho empalhado.
a explicação logo abaixo dizia ser possível reconhecer cada indivíduo pelas cicatrizes. cada golfinho é o conjunto do que viveu e se deixou marcar.
ela me diz seja dona dos seus passos, pegue as coisas com força porque a mão é sua. não se largue. esse corpo - ela me lembra - não é um outro, não é seu, posto que um corpo não se carrega. sou esse corpo. o que nós somos - nós - vai. a vida, como o equilíbrio, é o ir.
a explicação logo abaixo dizia ser possível reconhecer cada indivíduo pelas cicatrizes. cada golfinho é o conjunto do que viveu e se deixou marcar.
ela me diz seja dona dos seus passos, pegue as coisas com força porque a mão é sua. não se largue. esse corpo - ela me lembra - não é um outro, não é seu, posto que um corpo não se carrega. sou esse corpo. o que nós somos - nós - vai. a vida, como o equilíbrio, é o ir.
3 de março de 2011
na direção da estrela da manhã
deixou sobre a pia do banheiro o óculos-nariz-bigode. ele não viria. queria revê-lo, sem ser revista. a cada vez fazia de conta que ia e não ia. também ele fazia que ia e não ia e no entanto, tanto quanto ela, também estava lá. ali estavam, achando-se ocultos em pensamentos e jornais, lado a deslado um nunca nunca nunca desvencilhar.
(para sô)
(para sô)
2 de março de 2011
equidistante
os dois tinham irmãos gêmeos, os dois eram casados, os dois tinham filhos. os dois não se conheciam e amavam a mesma mulher. os dois só a viram na vida por uma vez. aquela.
no começo de tudo, ela disse para a mãe vou viajar e se mudou para o outro lado da mesma cidade. para por dois meses viver outra vida. como se fosse.
foi quando os conheceu.
um veio visitar um velho tio que precisava de socorro. a casa onde ela quase clandestina era vizinha do tio.
o outro, de passagem, pediu alguma informação.
e antes mesmo que fosse preciso que alguém se decidisse, ela voltou para casa como quem volta das férias.
por vários anos, um lhe enviava mensagens delicadas e amorosas de natal e aniversário. ela respondia sempre, mas sempre em dúvida, sempre reticente.
para o outro, ela é que mandava as mensagens ocasionais. ao que ele respondia sempre. sempre muito contido.
quando o tempo passou e as lembranças ficaram antigas, ela foi à casa do tio do um. da memória do velho, trouxe o como fazer para encontrar o homem que procurava.
ela foi até ele. na agência da pequena cidade, ela o viu por trás da mesa de gerente. quando os olhos cruzaram, ele não a reconheceu. ela nem se aproximou.
foi ao encontro do outro, de quem só sabia o nome e a cidade. quando chegou, mandou uma mensagem fora de ocasião dizendo estou aqui. e o endereço do lugar.
na mesma noite ele veio e viu que ela era tão intensa quanto seu irmão havia contado. mas nada disse.
passados os tempos, quando soube o quanto a amava, contou-lhe os fatos. ela não era uma mulher tola, por isso chorou. e também por não ser tola, se permitiu. e ficou.
no começo de tudo, ela disse para a mãe vou viajar e se mudou para o outro lado da mesma cidade. para por dois meses viver outra vida. como se fosse.
foi quando os conheceu.
um veio visitar um velho tio que precisava de socorro. a casa onde ela quase clandestina era vizinha do tio.
o outro, de passagem, pediu alguma informação.
e antes mesmo que fosse preciso que alguém se decidisse, ela voltou para casa como quem volta das férias.
por vários anos, um lhe enviava mensagens delicadas e amorosas de natal e aniversário. ela respondia sempre, mas sempre em dúvida, sempre reticente.
para o outro, ela é que mandava as mensagens ocasionais. ao que ele respondia sempre. sempre muito contido.
quando o tempo passou e as lembranças ficaram antigas, ela foi à casa do tio do um. da memória do velho, trouxe o como fazer para encontrar o homem que procurava.
ela foi até ele. na agência da pequena cidade, ela o viu por trás da mesa de gerente. quando os olhos cruzaram, ele não a reconheceu. ela nem se aproximou.
foi ao encontro do outro, de quem só sabia o nome e a cidade. quando chegou, mandou uma mensagem fora de ocasião dizendo estou aqui. e o endereço do lugar.
na mesma noite ele veio e viu que ela era tão intensa quanto seu irmão havia contado. mas nada disse.
passados os tempos, quando soube o quanto a amava, contou-lhe os fatos. ela não era uma mulher tola, por isso chorou. e também por não ser tola, se permitiu. e ficou.
1 de março de 2011
dizei uma só palavra
no filme, o homem dizia: não vão me fazer sentir vergonha por sobreviver. numa outra história, outro homem dizia: sobreviver é aleatório. não há por que admirar quem vive ou considerar um perdedor aquele que morre. dignidade é o como se lida com o sorteio, com a vida, com a morte. uma antiga oração diz: não sou digna mas uma palavra e sou.
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