9 de setembro de 2015

nos sentidos



abra os sentidos. todos. experimente. os olhos, para que venha, vá. ofereça-se: palavra primeira sobre as águas, até que existam ambos, por fim. os sons. e dentre todos, o silêncio. o áspero das unhas que crescem. o silêncio da areia no vento.  um pente nos cabelos longos. escute. e faça-se ouvir. o zumbido dos insetos habita um labirinto. e também seu voo no tato. que é limite ou ponte. ponha-se pinguela sobre um rio pedras, atravesse-o como se criasse o mundo. não olhe para o medo abismo e pés. pense céu. pense estes poros todos pequenos vãos que buscam o lado outro onde também se pisa a primeira pegada na madrugada espuma e mar de areia. porque veja, como as sílabas, cada um não se sabe onde se começa: amorte: onde se termina.

29 de agosto de 2015

lágrimas

quando rose-lynn fisher mergulhou num tempo de mudanças e perdas, chorou. muito. depois pensou: o que há em cada lágrima seca? seriam todas iguais? esta vista aérea será a mesma se choramos por um filho, uma dor, uma cebola? “os padrões de erosão gravados em terra ao longo de milhares de anos de alguma forma se parecem com os padrões cristalinos ramificados de uma lágrima seca que levou menos de um momento para se formar” refletiu rose-lynn ao ver as primeiras imagens. “é como se cada uma carregasse em si um microcosmo da experiência humana coletiva, uma gota no oceano”. então coletou lágrimas de voluntários. todas tem óleos, enzimas, anticorpos, água, sal. mas distintas categorias de lágrimas têm diferentes moléculas: as lágrimas emocionais contém hormônios que as lágrimas reflexas não contém. nas imagens paisagens de lágrimas de rose-lynn, há lágrimas de rir até chorar, de mudança, tristeza, de cebola, há lágrimas basais e de reencontro, de fim e de começo, lágrimas de possibilidade e esperança, alegria, lembrança, mistério. tudo o que somos vertido em lágrimas. lágrimas impregnando o mundo.

21 de agosto de 2015

...



nascer mundo e pouco a pouco desconstituir-me pólen pó pulsar
minúsculo

então átomo talvez talvez
só talvez

energia

19 de agosto de 2015

libélula

porque desertos, peço água. fossem oásis, não seria preciso pedir.
pense pássaros presos longe de casa asas desbotadas delicadas lágrimas de sal.
em lágrimas atravessar o labirinto - aromas - e, ao sair, um lago, sobre o lago uma libélula que sempre e quase pousa.
perder-se no labirinto é encontrar-se minotauro, dessaber-se teseu, recusar o fio de ariadne: não se tecer.
nos caminhos não se entender. seus mapas. eros destroçado sem perna ou braço.
como os pássaros longe de casa.
o longo labirinto dos desertos: o mistério este céu estrelado: este mar sem caminhos.

12 de agosto de 2015

do mar

quando passei a mão no pepino do mar, ele não era gelado, era morno e aconchegante. e a moça disse que ele também me sente na mesma medida em que eu o sinto. é outra a sua compreensão do mundo, mas também ele um bicho, como eu, e que tem tato. e quando eles se cansam de ser tateados, tanto quanto as estrelas e ouriços do mar, se recolhem do outro lado do pequeno lago ou no canto à esquerda onde o vidro protege de mãos. e isso basta. esses bichos, ela diz, também sabem se há muita gente. também eles se cansam do mundo compartilhado. depois, passei os dedos pelas mini ventosas da estrela grande e vermelha. acariciei os espinhos do ouriço. tenho vontade de chorar.

meu filho diz: foi bom. digo a ele que também para mim foi a primeira vez. e um olhar de cumplicidade me envolve e é morno e aconchegante.

22 de junho de 2015

tudo isso são algoritmos


caminho ao longo do longo caminho ao lado do cemitério
de muro azul-bebê dizia alguém
(flores de papel crepom seriam azul-morto para o mesmo alguém)
um filete de sangue escorre pela perna avesso da coxa
atravessa a calcinha a calça jeans
se aloja
no conga azul agora poça

tantas vezes fiz esse caminho de pedra portuguesa
que desenho?
o lado oposto onde uma fábrica abandonada
o capim obstruindo a passagem
a paisagem de castanheiras
a cair folhas laranjas a cair castanhas a cair lagartas gordas e verdes
tão peludas as lagartas
que queimavam diziam
como diziam do espírito do menino que assomava
quando fosse noite

o mundo era um desfile de medos 
também diziam
as ameaças do desconhecido
o homem que um dia mostrou o pau e o pau era feio e engruvinhado
o passarinho filhote caído na beira e colocado na caixa - morreu - também feio também engruvinhado
o medo do homem o medo da morte o medo
do  mistério
do dia em que perdi a pulseira de bolinhas e a mãe disse reza
rezei as tais sextas-feiras e a pulseira no pé de rosa do jardim
como uma guirlanda no pinheiro de natal
perder a pulseira e o milagre eram nada perto do medo do vale de lágrimas de que fosse feita a vida

(algoritmo é um conjunto de instruções ou regras bem definidas, ordenadas e finitas que permite realizar uma atividade mediante passos sucessivos que não gerem dúvidas a quem as execute.)

nada se reduzirá a nada por eu gritar mais alto

1 de junho de 2015

...



a escuridão do mundo é barcos
à deriva
milhares de pessoas com sede e fome
que não têm onde aportar
nenhum de nós tem cais
mas alguns nem mar

14 de maio de 2015

sempre



(desde que ela morreu)
não esqueço o cheiro daquele quarto de hospital
podíamos abrir a janela
podíamos trazer flores
e o não perfume amarelo
a se depositar na pele - dela –
minha mão
uma carícia meu corpo
um abraço e a vida, ali,
estancada

não podíamos saber que era aquilo a morte
(mas desde que ela, sim, eu sei)
o olhar vazio e o ar pesado em volta
tudo também era espera
(desde que ela)
o amassar de um papel o inverno
a pá de terra que não caiu

a cada mês penso menos nisso
e mais em outros dias seus suspiros e risos
cada vez tenho mais pedras na vesícula
esta tensão no ar própria da vida
helicópteros carros de polícia
as acácias em flor

por todos os cantos a terra pulsa
pulsa
pulsa
em toda terra o semear
em toda terra o dia de um dia se deixar esquecer

(ainda que ela)

5 de maio de 2015

volver a los 17



lágrimas nestes olhos ao apagar os traços do mapa
desenhado há tempos pelos chineses
desde a costa ocidental desde a costa oriental desde a costa?
ou desde o interior?
e depois apagar os passos, estes, sim, ocidentais
esquecidos no mapa numa gaveta do museu onde nunca mais me deixarão entrar

havia monstros nos teus mares?
não
garrafas perdidas nas praças?
não
rotas aquedutos pergaminhos?
não

nada disso: era um mapa com riscos simples e uns tantos outros:
tanques de guerra e uma data: 1980
tanques de guerra e uma data: 1989
tanques e guerra: s/data

talvez cachaça no embu água em cochabamba cerveja
uma rua com nome de pássaros, talvez
e um cabo – horn

a apontar gelo no papel
não, não era um papel
e os cascos todos ali marcados um a um
eram rotas

não é fácil perder um mapa assim
não o perdi : esqueci
esquecer um mapa de deserto porque aqui é beira de água e sombra
e o museu?
não me deixarão entrar
fazem bem
é, fazem bem

aqui não é um oásis, você sabe
sei. se digo deserto, digo mar, se mar, esta planície de nada
nadas desertos e mares também são caminhos se não tivermos mapas

não tenho mapa

digo china
digo península ibérica
digo nasa
casa
os corredores têm mapas?
minha casa não tem luz

os primeiros mapas
apagá-los

não sei amarrar os sapatos
não sei desamarrá-los