29 de agosto de 2020

bênção da minha mãe

há tempos venho pensando em três coisas que de alguma forma dialogam embora aparentemente não tenham nada em comum entre elas.

a primeira são dois livros do françois cheng, um escritor nascido na china em 1929, mas que vive na frança desde os anos 60 ou 70. cada livro são cinco meditações. o primeiro que li eram meditações sobre a beleza. o segundo, sobre a morte. quando conecto os dois, sei que são dez meditações sobre a vida. a vida. assim, sem adjetivos. ampla, nossa, mas também de cada inseto, bactéria, pedra, galáxia. tudo o que existe.

a segunda coisa é um filme ou um pedaço de um filme que se chama human. circula nas redes há alguns anos, mas só agora tive tempo de parar e assistir as tres horas de uma versão curta do diretor. são humanos contando a respeito de si mesmos, o que pensam e sentem. como o projeto abarcou entrevistas no mundo todo, há humanos dos mais diversos, do mundo todo. todos os humanos foram enquadrados da mesma maneira, o fundo escuro, os olhos no ponto áureo, a luz que ressalta sua beleza.

a terceira coisa – e já me dou conta que são quatro e não três as coisas que quero conectar – é um documentário sobre o mundo. se chama our world. apresenta alguns temas como oceanos ou desertos, florestas, e as conexões entre todos os fenômenos que nos parecem desconectados. não se entrevista pessoas. vemos animais que não sabem que estão sendo vistos, e paisagens.

a quarta coisa é um livro sobre algoritmos, física e redes sociais influindo na política em diversos lugares do mundo. o título é os engenheiros do caos e foi escrito por um jornalista suiço-italiano.

não foi tudo ao mesmo tempo que vi. fui vendo ao longo de vários meses e comecei antes deste tempo de confinamento e covid. ao ler os engenheiros do caos é que uma luz acendeu. e apagou em seguida. foi uma luzinha de vaga-lume, que a gente acha que localiza no meio do mato mas de repente já desapareceu e não adianta focar o olho ali onde foi vista pela ultima vez porque não é ali que vai aparecer. é preciso um tipo de distração para que a luzinha volte. então, tento me distrair.

a primeira coisa que penso é no maravilhar-se diante do que é o universo. dizer isso parece uma coisa besta e destes livros baratos de auto-ajuda. mas não é isso. e é. talvez a beleza venha do fato de não entendermos, mas acho que se entendessemos continuaria sendo lindo: a amplidão das galáxias, estrelas, planetas, satélites, tudo o que conecta e tudo o que permanece oculto ainda para os nossos olhos que não sabem ver. e se a gente se volta para o planeta, para cada coisa mínima, a vida existindo no vírus e na bactéria, esta insistência, e a nossa insistência em seguirmos sendo apesar deles e de outros obstáculos. cada um sendo um. a pedra, o átomo, a pessoa, o mosquito. cada um sendo uma coincidência única no tempo e no espaço. o que vale para o que a gente chama de ser vivente serve também para o que a gente chama de coisa inanimada. talvez só os ritmos sejam diferentes. a pulga no pelo do urso que hiberna pode achar que ele é uma montanha que não sai do lugar. mas é só porque o urso, no tempo curto da vida de uma pulga, não terá se mexido. (quantos dias vive uma pulga? preciso pesquisar...) o exemplo pode ter problemas, mas o raciocínio é esse mesmo, veja.

(interrompo para ouvir a bênção que minha mãe me envia por vídeo: que o caminho seja suave, que o vento sopre delicado,que o sol brilhe morno e as chuvas caiam de mansinho.
e até que ela de novo me abrace, que deus me guarde na palma da mão. talvez mãe signifique a palma da mão do deus em alguma língua.)

24 de agosto de 2020

too much

os tomates crescem, crescem quase a olhos vistos. são de um verde opaco, cremoso, e têm uma penugem de pele de bebê. de um momento para o outro, é como se perdessem a penugem e o verde opaco se transforma numa película que cobre os veios de cada tomate, vê-se que são repletos de fluidos, tomados de transparências. agora eu sei que neste momento começa o amadurecer. depois de perderem a opacidade, a translucidez se mantém por uns dias, e de um momento para o outro a pele fica firme e o verde passa para uma cor difícil de descrever, entre esverdeado e laranja, e, lentamente, como se fosse mesmo um amanhecer, o tomate chegará primeiro num laranja sem brilho e logo num vermelho cada vez mais profundo e luminoso. 

a única tristeza de ver os tomates amadurecendo ao sol de verão é saber que o tomateiro, em si, ainda que lance mais umas flores, não viverá muito. as folhas secam, secam, e um dia todo ele está seco. só se mantém em pé porque se apoia na estrutura que construímos para ele.

fico pensando se a nossa pele quando for ficando translúcida será sinal de que estaremos enfim amadurecendo. nossa morte, um fruto maduro, carnudo, cheio de suco e sementinhas.

19 de agosto de 2020

alnitak, alnilam e mintaka

a vida pulsa no coração imenso da baleia, no trajeto silencioso das medusas, na auréola aquática da terra que gira gira gira entre o sol que nasce enquanto o sol se põe e tanto sal na nossa mesa.

ávidos  batíamos no peito, chorando e gemendo, os ossos secos e os olhos a escorrer o que chuva alguma alcança, esta erosão.

se na primeira noite éramos muitos ao redor do fogo, uma manhã depois não nos conhecíamos mais: cada qual em sua gruta no escuro da própria sombra.

o medo tem crescido mais que a fome e meus galhos, estas asas de ave submergidas numa pedra.

18 de agosto de 2020

cristalino

a batata é uma solanácea como o tomate e a berinjela e o fisalis, como todas estas, também tem flor e semente. não se usa a semente pra plantar batata porque não se sabe o resultado, mas planta-se o broto de uma batata bonita - o grelo da batata se diz aqui - e assim o pé de batata fica sendo um clone da batata bonita com seu grelo, que por sua vez é resultado de um broto de batata bonita que por sua vez... sem se saber ao certo há quantos milênios esta batata que nos mandaram plantar e todos gostamos tanto de comer acompanha a história humana aparecida ali no lago titicaca saindo ou sendo levada em aventuras mundo afora e penso no primeiro que resolveu meter os dentes nela, naquela coisa meio pedra meio úmida no meio da terra, aquele veneno que quase mata, e um outro dia, um outro logo após uma queimada, que é um jeito de limpar o terreno, ou pode ser só um acidente e eis que aquelas coisinhas macias meio adocicadas entre as brasas, que delícia, cospe a areia, não importa, naquele momento surgiu mais um reino implantado, uns pensando que o ouro que traziam seria a salvação, imaginem, muito mais salvou foi a batata. e até hoje em todo lugar cuida-se bem de um pé de batata porque com ele é possível matar a fome, esta, direta, que nos assola humanidade, nesta hora lembrei do homem sem passado, se não viu, veja, do kaurismaki, e trata-se bem também do manjericão que mesmo sem matar fome nenhuma tem um perfume de certa forma sacia e assim preenchemos o quintal com o que nos alimenta - olhos boca nariz orelhas e tato - no tempo imediato sem saber dos mistérios que se escondem e por isso ninguém quer o quebra-pedra porque é na pedra da calçada que se pensa ao vê-lo crescer e até chegar o dia de entender que pedra é a pedra que ele quebra, há muito o quintal é outro e tudo o que diziam mato já por nossas tantas mãos foi arrancado e morto.

 

5 de agosto de 2020

na rede

não sou peixe mas tenho caído fácil nas redes. penso que estou navegando, penso que estou nadando livre nas águas da contemplação do mundo e, nada, estou enroscada nos fios de uma rede que me imobiliza.

30 de julho de 2020

em círculos

uma querida amiga, a janaina, faria sessenta anos ontem. se não tivesse morrido tão nova vítima da aids. penso sempre nela, no seu modo intenso de viver, na sua alegria. quando ela fez quarenta, fizemos uma festa em casa e foi tambem uma festa de casamento, que pouca gente se deu conta. já se passaram vinte anos desde aquele dia que a marcia trouxe um bolo com dois coraçõezinhos. a vida voa. alguma coisa sempre permanece. sempre sempre sempre terei janaína no coração, nesta casa que sou.

não à toa é a ela que dedico o casa de mim, que comecei a escrever no ano que ela morreu.

***

construo lentamente um jardinzinho de babiloninha. já temos jasmim, buganvília e um limoeiro com um botão de flor. e manjericão e melissa e capim-cidreira e salsinha e tomilho e oregano e geranio-rosa e alecrim do comum e do rasteiro e o caruru do reino subindo pelas paredes e o alho poró se desfazendo desde dentro, crescendo em camadas, e uma beterraba toda folhas e um geranio sem cheiro trazido de valência. e pimentões que nem crescem nem florescem. mas a batata, esta que espalha as ramas pelo chão, veja bem, esta planta, parente do tomate, tem flor! uma flor mínima, anunciando segredos sob a terra.

***

no documentário "human", um agricultor diz: a terra nos dá seus frutos em silêncio.

23 de julho de 2020

quem dera

fui escrever quarentena – que é um pleonasmo para confinamento – e escrevi quaresma. voltei atrás, corrigi. segui.

depois, vi que o pensamento ficou ali girando em torno da confusão.

a quaresma tem um peso roxo de dor e sofrimento. tempo de jejum. imagens e espelhos tapados, silêncios. a religiosidade do deus castigador, senhor dos exércitos, para quem as mulheres são a embalagem para mandar um filho pro mundo, e que também derrama sofrimento sobre o próprio filho, sangue, crucificação, martírio. mas, veja bem, o final da quaresma – e a quaresma sempre tem final – é a páscoa, em que tudo é luminoso, origem, primavera, pura ressurreição.  páscoa é feminino, é as mulheres na madrugada descobrindo que quem elas ama é maior que a morte. páscoa, pra mim, é joão dizendo que no princípio era a palavra. a palavra sendo.

talvez eu quisesse uma quaresma no lugar da quarentena pra poder alimentar alguma esperança de páscoa.

porque a quarentena, ao menos no meu olhar sobre ela hoje,  não tem muita perspectiva. tem peso, escuridão, aspereza, nada de flores ou frutos no final, nada de grandes transformações, renascimentos. só mais do mesmo. e este cansaço.

no começo do caos mundial em torno do vírus, cheguei a acreditar que pudéssemos – nós, humanidade, seguir por uma mudança deliberada e consciente, aproveitando a pandemia para buscar novos caminhos para o nosso convívio: suprimir as fronteiras, redistribuir renda, reduzir o consumo, garantir saúde, educação, moradia para todos, viver de um jeito mais sustentável. também cheguei a pensar que depois de tantos dias presos em nossas casas, quando nos encontrássemos seríamos só alegria e abraços. e, no entanto.

aprendo e reaprendo, me lembro, que nada muda se a gente não se move a cada dia, a cada  dia, a cada dia. e cada gesto.

passaram os dias e a quarentena virou bichos na jaula que não sabem em quem por a culpa, imobilizados, incapazes de sonhar outro futuro que não este presente insano.

nos silêncios de dentro, vou buscando seiva.

me inspiro nos tomates que crescem em cachos. e nos talos que se vergam no vento. se adaptam.

22 de julho de 2020

nossa iminência

às vezes amanheço como se estivesse à beira de uma tragédia, na iminência de um desastre. nunca sei se minha particular ou coletiva. ou ambas. a cabeça pesa e o intervalo entre uma batida e outra do coração é maior, tudo é lento. me lembra um pouco uma ressaca. mas há tanto tempo nem bebo.

me dou conta que estamos há meses dentro do desastre. por que em alguns dias isso pesa no corpo e em outros respiro e ando e faço cada coisa como se a vida estivesse absolutamente normal e caminhássemos todos juntos para a plenitude do universo eu não sei.

talvez seja só o tempo seco.  este agosto universal que se aproxima.

dou água pras plantas.

varro o chão.

junto as cinzas da véspera.

temos sido isso, esse cuidado, a manutenção do que pensamos ser, esse juntar cinzas.

não me cubro com elas. um tanto se vai no vento, outro tanto lanço no composto que um dia alimentará as plantas.

preparo o fermento.

ontem me lembrei de comprar sal. sem sal, dizem, há briga na casa.

quero paz.

***

me encolho num canto e espero.

respiro. repito o poema que a fabi me mandou: “voragem mamífera da vida”.

sigo.