12 de outubro de 2023

para o meu pai

alguns momentos na vida parece impossível fazer o que sempre se fazia. 

um jardim, por exemplo. 

volto de uma longa viagem e encontro muitas plantas mortas. umas secas por falta d’água e outras, por excesso, raízes asfixiadas.

a mesma quantidade de água. como remédios e venenos.

 
meu pai que só cuidava de flores vistosas me dizia pra que buscar a utilidade? quando o que eu buscava nessas ervas rasteiras era perfume pra minha secreta cegueira das horas difíceis.

 

22 de setembro de 2023

para noemi


disse a ela: receba estes estilhaços, e ela os acolheu, irmã que é de passados quase antigos e nesta escrita -- pasto e procura. levou com ela dois pequenos pedaços, sobras de uma casa desmontada em choro, de uma vida transmutada em ocos de paredes vazias.

recolho e distribuo. desmonto e amontoo. sou a guardiã que nao conhece o que guarda. atenta aos movimentos suspeitos da noite, com medo dos ladrões. mas eles passam longe: buscam ouro e joias e eu só tenho trapos e papeis, fotos opacas, livros comidos por traças.

ninguem quer roubar silencios e memórias. cada um que se ajeite com os seus.

 

28 de junho de 2023

quarenta dias e quarenta noites depois



anyu

esta noite minha mãe dormiu entre crisantemos.




sempre chamei minha mãe de mãe em húngaro, anyu.

anyu morreu às cinco e quarenta e tres da manhã do dia 19 de maio de 2023.

aqui já eram dez e quarenta e tres da manhã. eu estava numa terraça tomando um café, estava um dia de sol mas um pouco de chuva. antes esperando a anna, escutei a conversa de duas pessoas, uma delas com sotaque brasileiro fazia uma digressão interessante sobre a situação política da america do sul. tudo parecia de cores intensas. eu mesma deveria ter chegado lá só às dez e meia, mas me equivoquei e cheguei antes, as dez. naquela manhã a vida parecia ter retomado um fluxo, tudo parecia possível. minha mãe sairia do hospital e eu iria para o brasil em junho, estaria com ela na casa dela, cuidaria dos remédios, da alimentação, do ânimo. naquela manhã me sentia super potente para resolver todos os problemas de saúde dela e faze-la voltar a ter ânimo para viver.

antes mesmo que eu voltasse para casa, ela já tinha morrido. mas eu não sabia.


voltei para casa na garoa, peguei metro, conversei com o ricardo, talvez, e quando o telefone tocou e vi o nome do meu irmão, eu já imaginava o que poderia ser. e ele disse exatamente isso: você já sabe. mas eu não queria acreditar que fosse isso.

ela sozinha na uti, sedada e sem ninguém pra dar a mão. eu tão longe dela. tudo parecia um pesadelo, destes tristes. minha vida escorrendo das mãos e ela morta. e eu sem poder ir até lá. e talvez já nem fizesse mais sentido ir até lá. a sensação de solidão foi entrando devagarinho pelos poros, ocupando o pensamento.

choro. por ela, por mim. por tudo que não foi e nunca mais será.

mas também por tudo o que foi. e que permanece, se mantém em mim.

aqui, ninguém sabe quem sou, muito menos quem foi minha mãe. e eu preciso que outras pessoas estejam comigo, que lamentem a morte de uma pessoa que em tantos momentos da vida foi genial, linda, engraçada, acolhedora. minha mãe foi tantas coisas. como todas as mães. como todos nós.




ela morreu no mesmo dia que a dora, sua irmã. tres anos depois. dora viveu 92 anos, minha mãe viveu 84.

minha mãe morreu 22 anos depois da minha avó.

minha avó morreu 22 anos depois da minha bisavó.

as coincidencias numéricas.




no dia seguinte, sábado, foi o velório. minha mãe dormindo entre crisantemos.

na sexta, o bubi tinha me chamado por video para escolhermos uma roupa pra ela. rimos um pouco. mexer nas gavetas proibidas, escolher meia, calcinha, saia, blusa. um morto pode estar bonito?




o velorio não foi em casa. a casa não estava em condições, disseram. seria impossível receber as pessoas ali.




quando meu pai morreu, o velorio foi em casa. e foi bom. mas havia quem limpasse a casa: minha mãe. ela sempre arrumou tudo, organizou a casa, preparava comida para não faltar nada pra gente. quando foi para cuidar de si mesma não viu graça nenhuma. isso: ela existia pelo olhar do outro. o proprio olhar não foi suficiente para manter o desejo de estar viva.




meus irmãos acionaram as cameras do celular pra que os que estavamos longe pudessemos participar ao menos um pouco. vimos anyu entre as flores. as duas coroas, lado a lado. nenhuma vela. o coral cantou haleluiah numa versão brasileira estranha, e ave maria de gounod, que nós não conseguimos ouvir na transmissão do telefone. mas ouvimos os elogios à nossa mãe, ouvimos o padre dizer que ela agora estará nos braços de deus. e tudo isso era mais para nos confortar. não sei se minha mãe estava ouvindo qualquer coisa que fosse.




como se conta a história de alguem?

meus irmaos e minha irmã foram pra casa juntos, comeram, riram, choraram e eu aqui, longe. eles começaram a desmontar a casa. tirar o lixo, eles dizem. e o que a gente chama lixo diz muito de alguém. o que é que juntamos nas gavetas, nos espaços mínimos de uma casa, nos armários, nos vãos? e o que é que ninguém guarda. como entender o que é importante para o outro?

o que é importante para mim?




aqui tem muita gente que preserva a casa dos pais no pueblo porque a casa não tem valor de venda, ninguém quer comprar. e a casa fica lá, fechada nos invernos, frequentada nos verões. ficam lá os móveis, os tapetes, a louça, as panelas, o cheiro permanece. ha um ponto possível de retorno. muitas vezes desde menina sonhei em ter este lugar. um sótão onde as cartas nos baús, onde as roupas velhas os chapeus, os moveis um pouco destrocados, os quadros, uma foto reveladora. onde a nossa história se mantivesse para não sermos esquecidos.

e por que não quero ser esquecida?

se a vida é um fluxo e todos morreremos da memória do mundo?






quando minha mãe morreu, deixei de ter um país.

quando minha mãe morreu deixei de ser um terrítório.

quando minha mãe morreu entendi que nunca mais eu seria princípio de nada.




quando minha mãe morreu, depois que passou o tranco - sim, um tranco, porque a gente sabe, a gente se prepara, a gente espera, mas a gente sempre se assusta - meu pensamento mínimo pequeno foi: para quem enviarei fotos e notícias do nosso dia a dia? quem quererá saber?

mãe é o nosso primeiro espelho, é nos olhos dela que existimos no começo de tudo. ser gestado e parido, ser amamentado. buscar nos olhos a aprovação, o amor, e ter medo das tempestades que invariavelmente chegam. e agora sei que nem sempre têm a ver com a gente, têm a ver com o amplo da vida que também nossas mães vivem embora sempre pareça que vivem só para nós.




quem se interessará se o aspirador funciona bem, se o arroz daqui não tem a mesma consistencia, se os preços no supermercado são parecidos, coisas bobas e que constituem o cada dia que a gente mal nota.




durante o dia penso: agora seria uma boa hora pra ligar pra anyu. das outras vezes, o cotidiano me engolia ou ainda me dissuadia a ideia de que ela estaria fazendo uma siesta. agora entendo que a qualquer hora que um filho nos procure, estaremos atentas, à espera. mas há uma semana eu ainda não entendia isso.

há muita coisa que a gente demora demais pra entender.




primeiro eu gritei bem alto para não estar sozinha diante da sala vazia, das mãos sem as mãos da minha mãe. sem seu abraço. depois silenciei. agora, digo as coisas nos cantinhos, como aqui. espero que tudo se acalme na tempestade que desaba dentro da minha cabeça e às vezes sai pelos olhos.




desamparo

orfandade

o fim do princípio

os retalhos de memória

o esgarçado do tempo

os ossos

os ossos

ultrapassando a pele. estirando a pele fina como uma seda, antiga como um pergaminho.

era setembro e ela me levou ao aeroporto, dirigindo. ou minha memória inventa e já não foi ela que me levou? foi ela, sim, me lembro que dirigia bem, que me avisou quando chegou em casa. quem eu avisarei que chegamos bem, que o avião pousou, que os meninos estão felizes, que deu tudo certo? quem?

quem se importará em saber com a mesma alegria com que uma mãe se importa?

5 de maio de 2023

o que me habita

submerjo nesta água, não inspiro não expiro não pauso. espero. no fundo, pedras e decantado lodo. a água, este abraço, afunda os dedos em meus cabelos, busca raízes, frestas, invade lentamente as porosidades, transborda meus olhos e, outra vez, o oco da boca vaza meus peitos fartos, fontes, fomes.
pouco a pouco eu toda inundada, pedregosos vãos. esta caverna em meu centro é muitas.

algumas serão luz. a terceira, um obtuso som no escuro úmido e ofegante onde dorme um pequeno monstro devastado, sem presas, sem garras, narinas dilatadas pelo medo.

e uma folhagem brota entre seus olhos vazios.

 

4 de maio de 2023

silêncio

um silêncio.

seria preciso impor um certo silêncio. impor-me silêncio. colocar-me silêncio que não vem se não houver, em vez de espaço, tempo: silêncio é tempo em prontidão, espera, ausência. o silêncio, o abrir-se nada. impor-se nada. dentro de mim tudo balbucia murmura resmunga, dentro de mim marulhos. queria o instante silêncio que me localiza no mundo – braços. saber-me. o  quem sou.

então, eu o  vejo. a atravessar a rua, o um que escrevo, que procuro escrever. não deveria estar aqui. disse a ele: ei, você não poderia estar aqui, criação minha que é e eu.  me respondeu decidido: se escrevesse fatos sequências, colecionasse a história em si, eu me reduziria ao que fosse mas um alguém, veja-se, que não detém os gestos de seus personagens, não ocupa seu tempo, vai sim me encontrar no atravessar a rua na banca no balcão na biblioteca ainda na janela do carro que passa e para na calçada oposta.

e meu personagem, quando digo vejo, é uma mulher um menino outra vez um homem a multidão que acena raivosa fora de contexto.  penso que o deveria ordenar, organizar o que pode e o que não pode ser, dizer a ele que se decida quem. e que não fale muito, que me sorria e não sinta medo, e se sentir medo que me diga e aponte o dedo para o trecho aquele e o destaque nas páginas me mostre o que é preciso dizer e não sei, como os espíritos a bailar nas florestas negras, a violência a propagar incêndios, o áspero da chuva de granizo e areia, tempestades de absurdo. me repita, sem saber quem sou, que um qualquer escreve porque tem medos e nos escritos se reinventa e se protege e se lança e alcança o silêncio por trás de muros.

 o medo de não se perpetuar também, estou nesse que me vejo a atravessar a linha delirante de uma rua, a frágil distância entre o que sou e o que me queria, entre mar e mundo, o escrito, este lado um e aquele lado outro da calçada, o que digo é quero também ser este que não vê, que pergunto e não responde e não reage e segue não sombra nem abraço no escuro  que somos medo, palavra e música, a mão espalmada um segredo, os olhos o desejo, meu personagem estes todos meus desejos que desfio e teço, que costuro e silencio, neste silêncio de mudos, neste silêncio sempre, este silêncio que guardo, com que me alimento e com que procuro o que sou e não tudo aquilo que temo e quero e peço os pequenos exercícios de ser galho e ramo que nos tornam a cada noite o quem fomos no universo paralelo sendo no obscuro dos gestos grutas gritos minhas mãos mariposas suas mãos surpresas de pedras úmidas de musgos no meu pensamento que o tempo esgota o corpo desiste os cabelos brancos peles opacas rugas lábios beijam dizem venha neste caminho de folhas neste caminho de humus cercas que plantei e quando vejo sei que não deixei frestas construção sem portas casa de só janelas por onde agora eu possa ver o trecho que me leve à fonte onde outras mulheres a lavar a roupa e estende-la a lavá-la roupa e estender a lavar a roupa e entender onde eu me lave roupa e me estenda além do que prisão se anuncia meu corpo que entrego horta que entrego fruto adubo meu pensamento que eu queria além, bem além, que eu queria sol.

um som.

27 de abril de 2023

de livros e rosas



das alegrias que não cabem em fotos:



algumas coisas passam na vida da gente feito um vendaval.

este 23 de abril, dia de são jorge, festa do livro e da rosa na catalunha, foi assim, um vendaval.

uns poucos dias antes, soube que o livro que joan navarro e eu escrevemos entre setembro de 2019 e janeiro de 2022, o liquens, estaria pronto e presente na parada de livros da edicions del buc numa das maiores - se não a maior - festas da cidade de barcelona. e eu, não seria aquela que passa na multidão vendo todos os livros do mundo mundial, todas as editoras, todos os autores, e seria aquela que espera amigos e leitores, para que venham conhecer um livro novo, para que venham conhecer a editora que o acolhe e publica. daí o vendaval.

ao contrário do que costumam ser as apresentações de livro aqui ou os lançamentos de livro no brasil, no dia de são jorge mal dá pra falar do livro, do processo, do conteúdo. mal dá pra falar. proque há uma multidão que passa, pessoas que se amontoam, falam alto, querem ver e saber. querem uma dedicatória mas querem seguir adiante, pra ver o tanto de coisa que há pra ver. muita gente se perde - como eu me perdi um pouco - e depois se encontra.

e foi tão bom, foi tanta gente que passou pra dar um abraço, pra festejar esse momento único, que provavelmente nunca mais se repetirá na minha vida, porque não é fácil coincidir de ter um livro novo justo em abril e estar em barcelona para apresenta-lo. o carinho de quem veio vai ficar registrado na história da minha vida, entre momentos especialmente bonitos. agradeço demais.

me lembro bem do primeiro dia de são jorge que passei em barcelona e os muitos anos que levei até entender a dimensão desta festa no imaginário popular e no comércio de livros. as pessoas compram livros e se dão livros de presente. as pessoas se reúnem e saem a passear pela cidade cheia de livros, de editores, de autores. há uma feira na parte central, mas há outras, muitas, descentralizadas pelos diversos bairros de barcelona. e é festa. este ano caiu no domingo, mas quando cai durante a semana, não é feriado e, mesmo assim, a cidade se movimenta em torno do livro. as pessoas se encontram. as pessoas se alegram. e parece que ninguém pode viver sem ler. e é tanta alegria de primavera, que as pessoas, além de festejar o livro, celebram o amor, com rosas. (não vou discutir aqui a sustentabilidade do modo de produção de livos e de rosas, fica pra um outro dia.) pra se ter uma ideia, segundo dados oficiais, foram vendidos 26 milhões de euros em livros e seis milhões de rosas nesse dia. e o liquens ali, não fazendo feio...




(pra quem me perguntou mais sobre o liquens, comento rapidamente: é uma correspondência poética com joan navarro, poeta de valência e querido amigo. nos conhecemos há muitos anos e, depois de traduzirmos muitas coisas um do outro e de outros, ele me propôs de escrevermos um livro juntos: ele escreveria um poema, eu responderia com outro poema, ele escreveria, etc. no fim das contas, começamos com um primeiro poema meu, que ele respondeu em seguida e então eu respondi, e seguimos ao longo de dois anos e meio, atravessando inclusive a pandemia. cada um com sua maneira de escrever, compartilhando palavras ou imagens. em catalão o liquens foi editado pela edições del buc e em português está sendo editado pela patuá. deve estar pronto em meados de 2023, se tudo correr como previsto.)

24 de fevereiro de 2023

pra viver sobre as ânforas

para construir o parlamento húngaro, escavaram as colinas sob os vinhedos de um povoado que ficava próximo a buda, na beira do danúbio. toneladas de pedras foram retiradas sem destruir os campos transformando o subsolo num imenso recorrido de cavernas. cavernas extensas que serviram de adegas de vinho e espumante. cavernas que foram casa para os pobres de marre-de-si. covas e grutas abandonadas. resgatadas tempos depois para a produção de champignon, com denominação de origem. instalaram-se ventilações, circuitos de transporte, vias de acesso para caminhões e barcos fazendo funcionar estas fazendas subterraneas de cogumelos. com o passar dos anos, na medida em que o povoado se conurbava com budapest, esqueceram-se vinhedos e cogumelos, cada vez mais e mais casas erguiam-se ocupando os campos e as colinas. algumas destas casas chegam a aproveitar as grutas subterraneas como se fossem porão. em outras casas, que estão a trës ou vinte metros acima do teto da caverna, os moradores às vezes nem suspeitam do oco sob os pès. em outras, ainda, nos jardins os escorregadores das crianças convivem com os respiradouros por onde sai o ar gasto das grutas usadas para sabe-se-lá-o-quê (de clubes de tiro e paintball a adegas, restaurantes, armazéns. fungos. e nadas.) um imenso mundo subterrâneo de grutas úmidas e escuras e misteriosas, repletas de mofo e silêncio, conectadas entre si ou não em um intrincado desenho de caminhos quase desconhecidos. um distrito inteiro vivendo em cima de uma pedra que mais parece um queijo suiço. uma das cidades de calvino. a paisagem, sim, é linda.

3 de janeiro de 2023

no texto dos outros

(Edmond Jabés)

Um dia me dei conta que uma coisa me importava mais que as outras: como me definir como estrangeiro?

E isto foi o objeto do livro que intitulei Um estrangeiro com um livro de bolso sob o braço.

Em seguida me dei conta que, em sua vulnerabilidade, o estrangeiro podia contar tão somente com a hospitalidade que o outro poderia oferecer.

Assim como as palavras se beneficiam da hospitalidade da página em branco, e o pássaro da hospitalidade incondicional do céu.

E é o objeto deste livro.

Mas o que é a hospitalidade?



2 de janeiro de 2023

quando eu ainda era surda



nas noites de ano novo me lembro sempre de uma vez em que os meninos eram pequenos e estávamos na casa dos meus pais,. da varanda da casa, olhando pra direção do mar, dava pra acompanhar a explosão dos fogos de artifício. os meninos não estavam acostumados a ficar acordados até bem tarde, tinham aflição com multidão e muito barulho. estar ali, sentados no aconchego da casa e poder ver no céu o espetáculo dos fogos, era uma boa solução. eu já sabia que os cães não suportam estes barulhos, mas andava ainda um pouco surda pra o que não fosse animal humano. e por estar um pouco surda, podia assistir a explosão de cores no céu.

meu pai tinha sido químico. e sempre gostou de explicar as coisas pra nós. também nessa noite, olhando as cores que explodiam, ele explicava pros meninos que elemento químico gerava cada uma daquelas cores. nunca entendi muito bem como se faz um fogo de artifício, como se organiza os intervalos entre as luzes, mas naquela noite eu sabia exatamente o nome de cada um dos elementos químicos que geravam explosões em cor.

com o tempo me esqueci disso também.

com o tempo permaneceu a sensação do aconchego daquele ano novo. estar entre as pessoas que eu amava e ver nos olhos o brilho de aprender a grandeza do mundo e de se alegrar com a explosão da luz.

agora, que já sou surda aos sons, me comove a memória.

1 de janeiro de 2023

dois mil e vinte e três

o ano começou quieto, lento. como um riozinho que mal se vê entre pedras e folhas caídas. o brilho da água. o murmúrio. o que vem depois a gente nunca sabe.

o tempo é sempre um presente que vai se abrindo aos poucos e aos poucos vai se revelando. abre-se a primeira aba de papel e parece uma estatueta de elefante. não, não é. abre-se outra aba e o que parecia uma estatueta de elefante é a ponta de uma tampa de um bule talvez. mas, não. outra parte do papel se desdobra e o que parecia a ponta de uma tampa de um bule é o encosto de uma poltrona, ou é o portal de uma cabana, ou a porta, simples e direta, de um túnel escuro e frio.

o tempo, este presente que vai se desdobrando, nunca deixa de nos surpreender.

que 2023 seja um presente bom. mas se for escuro e frio, que seja também bonito porque "iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás"...

11 de novembro de 2022

elegia (carlos drummond de andrade)

gaveta de guardados. na minha memória, este poema tem a voz do tom jobim que o recitou uma vez nalgum especial de algum programa de tv e eu gravei num k7 que carreguei comigo até os k7 não terem mais serventia.

Elegia (Drummond)
 
Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.
E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.
Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?
Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estela fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando,
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.
Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.
E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.
Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.
Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.
Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.
E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia, em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

9 de novembro de 2022

instruções para dar fim a um embuste

(para gina dinucci)

 

olhou em volta e viu a mata toda queimada, os animais mortos, patas e bicos imóveis, quando viu tudo cinzas, silêncio, carvão, sentou-se e chorou.

toda floresta um dia nasceu. cresceu lenta e lentamente se formou espaço entre árvores, onde novas plantas buscam o sol, e outras preferem a sombra ao rés do chão. o tempo trouxe as epífitas, suas raízes aéreas, e também os bichos que não vemos. insetos minúsculos, aranhas, aves que aí gorjeiam, macacos, onças, preguiças, um tamanduá. tudo, tudo o que nos fez ser floresta, um dia nasceu. e se fez.

depois do incêndio, éramos muitas ali sentadas chorando a devastação.

enquanto chorávamos, raízes e sementes, insistiam, depois de resistir ao fogo. repare.

levante-se, portanto.

tire o poder das mãos de quem incendiou este país.

aguce a vista e busque as ferramentas para afastar as cinzas onde mínimos verdes despontam.

chore pra regar a vida até a próxima chuva.chore e dance.

insista em seu verde, como insistem as sementes e as raízes, até que voltem as aves, os insetos e outros animais, até que a floresta seja. seja sinfonia, cores, sombras, luz. 

 

 

8 de novembro de 2022

o rio

há oito mil dias apostei
num posto avançado de observação da beleza. 


a hipótese? um mistério
que de tanto ser observado
se desvaneceria -- névoa
no mar bandada
de maritacas águas entre os dedos.

sem saber que a beleza era o mistério, em si,
desfazendo-se e fazendo-se a cada manhã
o escuro no caminho dos teus olhos,
a luz acesa
quando ninguem mais me espera,


a palavra que se deposita na boca e sem dizer
nada é toda mistério em sua máxima beleza.

7 de novembro de 2022

palavra lâmina cega

tudo me desconcentra. como se eu fosse ou tivesse um centro, e desde dentro já não conseguisse tecer linhas que como fios de aranhas me conectassem ao em volta e trançados em teia capturassem meu alimento. fico parada no meio das manhãs, sem voz que diga e sem comida.

no quarto onde trabalho as janelas são amplas, é um andar alto, entra muita luz e, nas primeiras vezes em que olhei para baixo, cheguei a ter vertigem. gosto de ver assim do alto a copa das árvores, as pessoas, os cachorros. é uma praça ampla, várias espécies de plantas que vão mudando de cor ao longo do ano. é bonito. e o céu aqui é sempre estonteante.

gosto do barulho cotidiano, de crianças brincando e gritando, cães latindo, pássaros, um conjunto de sons que vai configurando o ruído urbano que ocupa o fundo do pensamento sem que eu me dê conta, como a água nos constitui e nunca pensamos nisso, como respiramos sem fazer esforço ou estendemos a mão para ajeitar o cabelo.

mas há um tempo cada manhã alguém vem à praça e grita, gritos estridentes em curtos intervalos de tempo, é um misto de grito de agonia com pio de ave noturna. como os intervalos não são regulares, sempre me pega de surpresa. e provoca em mim uma espécie de pontada dolorida, que me tira de um centro já tão desfigurado ultimamente. se fosse um pássasro, eu saberia quando vem um próximo grito. mas não é.

outras vezes me irritam o piano incerto e repetitivo de uma aula de música no apartamento vizinho., o barulho de um martelar ininterrupto na parede ao meu lado, uma furadeira, uma britadeira, escavadeiras de bocas imensas derrubando edifícios, a risada nervosa de alguém.

de um momento a outro corta-se o fio da palavra, fica esta lämina agonizante na ponta dos meus dedos que nada tecem nem fiam e nem por isso se vestem desperatando a inveja de nenhum salomão.

24 de outubro de 2022

erosão

circundo o castelo

ando pelo fosso

ando pelo muro


é na encosta do mundo que a agua escorre

22 de setembro de 2022

equinocio



quando chega a primavera, a murta na entrada da casa da mãe se enche de florezinhaas brancas e seu perfume entontece qualquer um ao entardecer. nos ocupa em todos os sentidos. mas a erva de passarinho ocupa a murta e a enfraquece se nos esquecermos de, de tempos em tempos, liberar os galhos, disse a vizinha.

um dia me ocupei de tirar a erva de passarinho da murta da entrada da casa da mãe. a erva se enrosca nos galhos, pequenas garras se alimentando da seiva da árvore, parecem mil minhocas relutantes em se soltar da superfície lenhosa da murta, como filhotes agarrados à mãe.

sem pensar muito, meto a mão entre as ramagens, aranco a erva, arranco e a jogo no chão e volto a arrancar dos galhos grossos e dos galhos finos, dos galhos cada vez mais altos. busco uma escada e sigo arrancando, arrancando, arrancando, criando montanhas de plantas arrancadas.

enquanto arranco me pergunto por que prefiro a murta à erva de passarinho.

erva de passarinho é medicinal, diz o oráculo. por outro lado, pode matar uma árvore.

erva de passarinho mata uma árvore?

quem quer uma àrvore viva? no wikihow me assusto ao encontrar a descrição de trës maneiras eficientes de matar uma árvore por atrapalhar a vista, por queremos outra naquele lugar, pela nossa vaidade de decidir quem vive quem morre. os três métodos são violentos – mata-se a árvore – mas dois deles são especialmente cruéis. processos lentos, interrompendo o fluxo da seiva em seu tronco ou abrindo fendas/feridas por onde se verte veneno. ainda no terceiro modo e o mais rápido de matar uma árvore, que é derrubá-la com um machado, o aviso: mate também a raiz, envenene-a, ou a árvore voltará a brotar. 

âs vezes não sei o que dizer.

penso em árvores com as quais convivi por muitos anos. algumas desde que eram mínimas mudas.

tenho saudade. revisito-as quando posso. converso com elas.

por isso cuido da murta. para que não morra. e se arranco a erva que mata, os pássaros ainda teráo frutos vermelhos quando o verão voltar.

frutos vermelhos.

que o verao volte.

vote.

treze.

 

20 de maio de 2022

nós, os pobres

os ricos dizem:

meu bisavô sabia muito

construiu um teatro


ou: este tratado é obra do meu avô

que também era sábio




eu digo:

meu pai sabia o medo

não me salvou da noite

me deu a mão, esteve ao meu lado

-- lado a lado --

até que se acabasse a escuridão.


 

só isso eu sei.

9 de maio de 2022

a pedra que nasci

tem gente que sempre sabe o que está plantando e já faz planos para a colheita. tem gente que até calcula quanto será colhido, para quem entregará os frutos. eu, eu nunca sei o que planto, nem se terei colheita ou quando. para toda semente ou broto ou muda que me chega busco um lugar, um cantinho de vaso, um pedaço de chão. revolvo a terra, rego, evito excesso de pragas, alimento. às vezes as mudas morrem. nem sempre a semente nasce. tudo pode passar ao longo do tempo. mas quase nunca fico pra ver. de vez em quando volto por um lugar onde sei que joguei sementes e vejo frutos. também não sei se é a semente mesma que joguei que frutificou. pode não ser. e pode ser. me alegro pelo fruto. ou pelo verde. ou pela sombra ampla da folhagem. uma vez cheguei a ver um ninho e os filhotes nos ramos de uma árvore que cuidei até crescer. outras vezes esperei rúculas e rabanetes – tão simples – e só folhinhas mirradas que logo secaram. na verdade, nunca sei. e está bom assim também. o tempo é lento e ninguèm vê a pedra quando nasce.

4 de abril de 2022

fazê-la habitável



nos dias de isolamento por causa da covid, há umas semanas, perdi uma parte da mostra de marguerite duras na filmoteca. descobri que numa determinada plataforma estava disponível um filme dela que eu não tinha visto. le navire night. uma mulher telefona para um homem no meio da noite e eles começam uma relação que sempre será por telefone, noites adentro, sem nunca se encontrarem. e o filme é a conversa entre duas pessoas que não vemos, contando esta história, o desenrolar desta história.

como todo filme dela, também este me impressionou. estando tudo à flor da pele, por conta da covid, não só me impressionou como me deu vontade de desmontar o filme, de certa forma devorar a narrativa, cada palavra. mastigar.

encontrei um caderno ainda em branco e revi o filme, anotando todas as palavras ditas. o barco noite avançando num mundo sem amor, construindo o desejo sem imagem. minhas imagens agora são o caderno com a minha letra, apropriando-me das palavras de outra pessoa, engolindo e ruminando, regurgitando e cuspindo de volta para ver se alcanço o núcleo, o caroço, talvez a semente. isso, a semente, porque é tudo muito delicado, construção de penas no vento. ossatura de passarinho.



***



continuo escrevendo letras para músicas. um exercício difícil.

na adolescência escrevia poesia em versos. não que fossem grande coisa. tudo a se jogar fora, exercícios. o principal foi concluir que eu não queria os versos na minha poesia. a poesia sem versificar. uma opção para não afastar quem não gostava de poesia. no fim das contas, afastam-se quase todos: os que gostam de poesia porque não encontram ali os versos, os que gostam de prosa porque não encontram ali a narrativa fluida. um vão: a poesia sem versos é um vão. cuidado com o vão.

quando mergulho na letra para canções, volto pro princípio de uma elaboração poética, ainda mais difícil do que versificar ou rimar, porque o ritmo e as tônicas já estão dadas, já está dada a medida da frase, há uma estrutura metálica encaixada que pede um certo recheio. a palavra como recheio é um exercício mental dificílimo para mim, que nunca escrevi um soneto. e deveria ter escrito, deveria ter feito este exercício mesmo que depois não quisesse permanecer no soneto, mas deveria conhecer a dificuldade de esculpir a pedra da palabra.

depois de alguns exercícios, o compositor das músicas publicou a primeira das canções. e o impacto da reação de quem ouviu: que a letra era complexa demais pra melodia, ou que não era possível entender a letra sem ler, ou que não era alguma coisa que daria vontade de cantarolar ou ficar ouvindo muito tempo.

foi como perder um eixo, me des-locar, o tal perder o rebolado. perdi o rebolado. e perdi a palavra como matéria para fazer um recheio de uma melodia. demorei dias para entender que eu estava diante do que edward hirsch diz da rima: que se a rima ganha, o poeta perde. no caso da canção, se a palavra ganha, a canção perdeu. mas também a música: se a música ganha, a canção perdeu. o desafio numa canção tanto quanto num poema é que não pareça uma criação, não se veja ali as emendas. o segredo é ver no bloco de pedra o cavalo que há dentro, mas não deixar ver a lasca de pedra nem o cinzel.

(não sei explicar melhor. deixo aquí registrado para não perder o desconforto.)

dias depois, ao enviar a gravação de uma segunda canção, que na verdade é a quinta ou sexta desde que começamos esta aventura musical, a reação foi outra: que funcionava, fluía.

o que confirma a minha hipótese de pedra e cavalo e cinzel.



***



ontem a fabiana me mandou um trecho de livro da noemi onde aparece o nome veronica sem k e um trecho entre aspas. a fabiana disse: apesar da grafia equivocada do nome, sei que esta frase é tua. reconheci a frase. fui buscar o email em que a frase estava. depois pensei que os diálogos que a gente vai tecendo na vida não se perdem. para onde será que vão os pensamentos?

minha avó também se interessou por captar e gravar as vozes dos mortos, que apareciam nas ondas de rádio. e eu sempre gostei deste tema. não tanto pelos mortos que falam e mais por pensar que seja nossa energia se desdobrando pelo universo, se refletindo, dando voltas e nossas falas, nossos pensamentos, tudo isso que transformamos na energia da palavra foi ficando por aí, como lixo ou brilho cósmico. tudo o que se disse e se escreveu e se pensou permanece e vai sendo editado e reeditado, em ondas energéticas que nos alcançam construindo novas falas, pensamentos, poemas, a tal musa a soprar nos nossos ouvidos e nos dos não-nascidos ou dos já mortos. a poesia esta palavra destilada de todas as palavras ditas e pensadas, escritas desde que a palavra existe. mesmo que não venha em versos. mesmo que não pareça poesia.



a frase: “sei que a morte vai nos deixando cada vez mais diferentes do que éramos e cada vez mais parecidas com o que somos.”



e me lembro do dia em que formulei isso pela primeira vez.



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cheguei aos cinquenta e cinco. não quer dizer nada em especial, mas gosto dos números assim repetidos 11, 22, 33, 44 e agora 55. mas também gosto dos múltiplos de sete. dos múltiplos de doze, dos redondos, dos primos, dos pares, dos ímpares, da sequencia de fibonacci. quero dizer: gosto muito de estar viva. com todos os medos e frustrações que às vezes me tomam. celebrar um ciclo mais é ficar feliz por ter vivido tanto, um tanto mais.



55, aliás, é o nono na sequencia de fibonacci.



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o próximo livro, com joan, se chama liquens. encontro um poema do “meu amigo hans” chamado liquenologia, que eu já conhecia e tinha me esquecido. são vinte partes. o poema é do final dos anos 60 e é um tratado amplo e maravilhoso sobre os líquens e sobre a palavra.




I

Que as pedras falem

dizem que isso acontece.

Mas o liquen?




II

O liquen se descreve,

se inscreve, escreve

numa escrita cifrada

um silêncio prolixo:

Graphis scripta.




III

É o telegrama

mais lento da terra,

um telegrama que não chega nunca,

já está em todas partes,

também na Terra do Fogo,

também sobre as tumbas.




(…)




XII

Pulmão sem sangue, ferrugento,

açafrão, coral, cor-de-laranja,

pérsio, escarlate, urzela,

tudo sobre fundo cinza,

o fundo cinza,

das Ilhas Spitzbergen.




(…)




XIV

Nâo sei: será que a rocha se defende

contra o líquen?

Não a rompe,

mas a habita,

a faz habitável.




(Hans Magnus Enzensberger, traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan)

19 de março de 2022

não saio de casa



há uma guerra lá fora. sempre há uma guerra lá fora. desde que nasci, desde muito antes, sempre houve uma guerra lá fora. a guerra se afasta, a guerra se aproxima, mas a guerra nunca termina. bombardeios, tiros, escombros, destroços, fome. diásporas. exílios, um eterno recomeçar em outros lugares, passar a ser outra pessoa, recompor famílias feitas de cacos.

desta vez a guerra lá fora é bem perto de onde estou. e me traz à memória memórias que não são minhas, que mamei ao nascer, que ouvi ao dormir e nos almoços familiares dos finais de semana, nos encontros de natal e ano novo. nas cartas que chegavam e nas cartas que nunca mais chegaram. fotos. e o que não cabia nas fotos: por que se guardaria o horror em fotos?

tudo isso me remove.





***




a covid me faz mudar de quarto na casa. daqui, vejo os galhos altos de um plataneiro.

deixo de me ocupar da guerra e me ocupo de um ninho de pega-rabudas. são sempre um casal e pelo movimento, já há filhotes pequenos que pedem comida. o ninho é grande, com vãos como se fossem janelas. entre os galhos que compõem o ninho, vejo o negro e o branco das penas dos pássaros adultos. não sei como são os filhotes, não dá pra ver. ouço o piado. e se desço até a cozinha, dali vejo menos mas ouço ainda mais o piar dos filhotes quando os adultos saem em busca de comida.

são pássaros que se reconhecem no espelho. guardam comidas em vários esconderijos diferentes para buscar nos tempos de escassez.

às vezes eu os vejo sair os dois no mesmo momento e pousam na quina do prédio em frente. e é como se conversassem, se aproximam um do outro, sacodem as asas, o rabo, fazem movimentos com a cabeça. meu filho diz que deve ser algum tema que eles não querem que os filhotes escutem. eu penso que deve ser para aproveitar que os filhotes dormem e conversar sobre qualquer bobagem do dia a dia de um pássaro.

quando venta muito, como tem ventado estes dias, os galhos altos das árvores se movem e é como se a casa se movesse, enorme navio à deriva. eu oscilo. o ninho aguenta firme. e, lá dentro, os pássaros sobrevivendo ao vento.

***


de tanto observar os pássaros, pensei que poderia ser uma boa ideia fotografá-los. nestes tempos em que tudo é imagem, como terei certeza de ter visto o que vi neste ninho se não fizer uma foto? me posto com a máquina e os pássaros não se movem. não saem do ninho se estão dentro, não entram, se estão fora. guardo a máquina, eles aparecem. tento uma vez mais. não consigo. basta guardar a máquina e eles vêm. desisto.

um outro dia, me postei com a máquina entre as plantas atrás da janela e num lampejo fiz a foto da pega-rabuda de penas pretas e brancas em meio aos galhos marrons das árvores de inverno e do ninho. a foto não diz nada dos sons, ou que são dois, ou que haja filhotes. mas me diz de outras coisas que me passavam desapercebidas porque só tinha olhos para o ninho e os pássaros: pequenos brotos verdes já se preparam para a primavera.

que volta.



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os ciclos seguem acompanhando o eixo da terra, ora mais horas de sol, ora menos horas, mas sempre este pêndulo que delicadamente nos inscreve no ritmo do tempo. nosso tempo. com guerras que se aproximam e se afastam. com vírus que nos prostram ou nos matam.

o cachorro dorme ao meu lado, me fazendo companhia neste confinamento quando tudo já parecia ter passado. e me lembro das gaivotas que pousam em bandos no mar e ficam ali, oscilando como pequenas embarcações. de um momento para o outro levantam voo. os pássaros em bandos. quando um se cansa, outro toma a frente da formação em vê. as gaivotas não voam em vê. mas é bonito ver a revoada.

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a covid chegou aqui em casa exatamente dois anos depois do primeiro dia de confinamento. cheguei em casa e li o longo poema da mary jo bang escrito nos piores dias da pandemia - todos trancados em casa, sem saber nada de nada. isolados, assustados e revisitando nossos mortos e antecipando a nossa própria morte num tempo distópico, surreal, áspero. cada uma das linhas do poema começa com a palavra hoje. hoje fiz isso, hoje aconteceu aquilo... formando um imenso hoje cristalizado no espaço do qual não nos movíamos. e no entanto o tempo passava sobre nós. agora que passo os dias no espaço mínimo deste quarto, não é tão desesperador porque há movimento lá fora, há ruídos de humanos, muito além das palmas das oito da noite. som de motor, de música, de gente que passa caminhando. o movimento dos humanos assustando os pássaros e enfrentando a morte. e isso só é possível porque estamos vivos.

estou cansada. estou muito cansada. mas estou viva.