20 de março de 2013

no vento que vem dos desertos

Khamsin
... Hoje está um dia de ventanias: é a época do chamado khamsin, um vento que vem do deserto carregado de areia depois de ter varrido a Arábia com fúria. Invade irado o Egito e chega ao Cairo naufragando a cidade em uma imensa nuvem arenosa. Se despenteiam as palmeiras, o Nilo fica lamacento e muda de cor, o ar fica espesso, os pássaros sem respirar. Dos terraços caem antenas, roupa estendida, grades. Da terra se levantam redemoinhos de pó que invadem as ruas e dificultam o caminhar. A areia finíssima está por todo lado: no mastigar, no entre a roupa, dentro da cama, na geladeira. Chega misteriosamente. Uma rajada me folheou os livros abertos sobre a mesa. Graças a isso descobri uns versos de amor escritos pelo divino Platão quando era jovem: “Tinha aos lábios a minha alma e quando a beijei, a infeliz entrou nos seus como para fugir”. Agora mesmo tranquei as portas para evitar que as rajadas arrebentem os vidros, e antes de me fechar na penumbra do quarto, vi voando umas calças pelo ar... É o khamsin. Basta ter paciência e esperar que em mais cinco ou seis dias se desencalhe e siga avançando em direção ao ventre mudo do deserto líbio. Saí para tomar um chá no grande bazar com um amigo. Queria lhe falar dos versos de Platão. Pela rua todos correm empoeirados a proteger muito bem os olhos, a boca, as orelhas. Também eu tive que lutar contra o vento entre papéis, bolsas e nuvens desordenadas de areia. Um galho de acácia me chicoteou a cara. Por sorte estava toda florida. E assim chegou aqui a primavera...

(Manuel Forcano - Llei d´estrangeria)

o original, em catalão:

... Avui fa um dia ventós: és l´època de l´anomenat khamsin, un vent del desert que ve carregat de sorra després d´haver escombrat l´Aràbia amb fúria. Envaeix Egipte irat i arriba al Caire enfonsant la ciutat en un núvol immens d´arena. Es despentinen totes les palmeres, el Nil s´enfanga i muda la color, l´aire s´espesseix, s´alatrenquen els ocells. Dels terrats cauen antenes, roba estesa, baranes. Del terra s´aixequen remolins de pols que escombren els carrers i fan difícil caminar-hi. L´arena finíssima se´t fica pertot: la mastegues, la sents entre la roba, dins el llit, a la nevera. Misteriosament hi arriba. Una ràfega m´ha fullejat els llibres oberts damunt la taula. Gracies a això he descobert uns versos d´amor escrits pel diví Plató quan era jove: ¨Tenia als llavis la meva anima, i quan el vaig besar, la dissortada va entrar als seus com per fugir¨. Ara mateix he tancat els porticons per evitar que més ràfegues m´esbotzin els vidres, i abans no m´he clos en la penombra de la cambra he vist volant per l´aire uns pantalons... És el khamsin. Nomes cal tenir paciència i esperar que en cinc o sis dies més es desencalli i segueix avançant cap al ventre mut del desert libi. He sortit per anar a prendre un te al gran basar amb um amic. Volia comentar-li els versos de Plató. Pel carrer tothom corre empolsinat i protegint-se amb força els ulls, la boca, les orelles. Jo també m´he hagut de barallar amb el vent entre papers, bosses i núvols desendreçats de sorra. Una branca sacsejada d´una acàcia m´ha fuetejat la cara. Encara sort que era florida. Així ha arribat aquí la primavera...

11 de março de 2013

às vezes

o gato, às vezes, fica horas parado num canto. dorme, acorda. depois olha, concentra-se num detalhe do mundo. de repente se levanta, vem na minha direçao, pula no meu colo. pede carinho. faço carinho. pede que coce, e eu coço, coço suas costas, sua barriga, o pescoço, o entre os olhos. ele fica feliz, ronrona, às vezes se ajeita e dorme no meu colo enquanto escrevo. outras vezes, do nada, se levanta e vai embora.
às vezes, o gato.

27 de fevereiro de 2013

chang dai-chien



barack virág ág

esik. a becsukódo virágok magukba zárnak minden fényt.
de micsoda öröm az ha minden ami él at van itatva
és ujra kinyilik
-- ilyenkor megyek ki a kertbe.


galho com flor de pessegueiro

chove. as flores que se fecham guardam em si toda luz.
mas que alegria quando tudo o que vive está encharcado
e novamente desabrocha
-- nessas horas eu vou ao jardim.

minha avó gostava de pintar. paisagens de lagos entre montanhas nevadas, flores, beija-flores. em geral, copiava pinturas de outros. ou fotos. numa de suas pinturas de flores de pessegueiro, havia uns ideogramas pintados. junto à pintura, ela guardava um papel como se fosse a tradução dos ideogramas orientais para o húngaro. do húngaro, traduzi para o português. as chuvas tropicais e o jardim verde e pleno sempre me lembram esta pintura e este texto.
muitos anos depois de a minha avó já ter morrido, um amigo levou a pintura para seu pai decodificar. e não era nada daquilo que estava escrito. a inscrição dizia sobre um grande general e suas virtudes.
chang dai-chen, por sua vez, assinalado por minha avó como o autor da pintura que ela estava copiando, e talvez do texto, era um falsificador. como falsificador, chang criou obras tão perfeitas que chegaram e ser vendidas por milhares de dólares. suas obras, mesmo depois de serem reconhecidas como falsificações, permaneceram nos museus para serem admiradas. (wikipedia)

25 de fevereiro de 2013

e me curvo, e me submeto

Iniciação
(Orides Fontela)

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

-- és infinitamente mais estranho.

22 de fevereiro de 2013

no cais



sou labirinto obscuro. o caos que se mostra é menos que o desenho perdido de um mapa – dos inencontráveis. mapa. no mapa, nada de cidades rotas ruas estradas geografias relevos caminhos nada. nem do labirinto qualquer sinal. no mapa brilham faróis. um intrincado de luzes intermitentes em um emaranhado de pétalas em uma rosa – murcha. nós. e um mapa do tempo. o tempo, esta escuridão.

15 de fevereiro de 2013

work in progress

quando sei quem já não sou mas ainda não sei quem serei, junto farinha, fermento, sal. amasso. asso. perfume de pão pela casa. a vida pulsa. pouco a pouco eu chego.

4 de fevereiro de 2013

água

como um navio se afasta
sem ancorar
de um porto mal vislumbrado:
o todo que sou:
o medo e o medo
do que ainda não
sou mesmo sabendo
que me espera dentro de mim
me espreita mesmo
que eu não queira
o tigre e sua sede
o cão e sua sede
o rato
o medo que de mim mesma – porto –
trago por dentro
ancorada que estou



*


com un vaixell s’allunya
sense ancorar
d’un port mal entrevist:
el tot que sóc:
la por i la por
del que encara no
sóc tot i sabent
que m’espera dins meu
m’aguaita tot i
que jo no vulgui
el tigre i la seua set
el gos i la seua set
la rata
la por que de mi mateixa – port –
porto per dins
ancorada que estic
  
[Traducció: Joan Navarro]


*
 

como un navío se aleja
sin ancorar
de un puerto mal vislumbrado:
el todo que soy:
el miedo y el miedo
de lo que todavía no
soy asimismo sabiendo
que me espera dentro de mí
me acecha aunque
yo no quiera
el tigre y su sed
el perro y su sed
la rata
el miedo que de mi misma – puerto –
traigo por dentro
ancorada que estoy

[Traducción: Joan Navarro]


*
 
víz

mint egy hajó ahogy elhagyja
horgony nélkül
egy alig meg pillantott kikötőt:
az egész ami vagyok:
a félelem és a félelem
attól, ami még nem is
vagyok még ha tudom is
hogy vár bennem
leselkedik belőlem még ha
nem is szeretném
a tigris és a szomjúsága
az eb és a szomjúsága
az egér
a félelem amit saját magamtól – kikötő–
hozok belülről
lehorgonyozva ahogy vagyok

[lefordítás: skrabák-paulics petra és paulics veronika]

15 de janeiro de 2013

o amor




se oceano imenso universo infinito, também momento mínimo minúsculo circunscrito, delicado átomo, partícula de luz desmedida, escultura de mulher a olhar o mar num grão de arroz. que me alimenta.

(foto: escultura de nicolai syadristy - VXArtNews)



14 de janeiro de 2013

kolozsvár



cluj napoca é a terceira maior cidade da romênia e capital da transilvania. a região já foi hungria e por isso a conheço por um outro nome. só conheço o nome. sobre ela, há três coisas que sei: o padroeiro é são miguel arcanjo, em julho de 2007 eram 310.243 habitantes, e um desses habitantes, algum deles, tem passado a pé por aqui.

11 de janeiro de 2013

viajar


"és mejor retener cosas sencillas. éso permite medir la extensión de lo que se desconoce".

(joann sfar, el gato del rabino 5)

17 de dezembro de 2012

porto (de rio)


o desejo um mundo e como um mundo um círculo seu beijo me afasta de mim num longo caminho e quanto mais distante mais próximo de mim eu sigo seu corpo meu navio

10 de dezembro de 2012

ventos




é preciso abrir o coração. se não o fizer, nós o faremos, eles dizem.
um pequeno vão sob as costelas, aquelas, as mesmas que um dia o deus dos homens usurpou para criar uma eva que também não sou.
e tudo isso que afinal eles dizem veneno eles dizem proibido – pode ser – nem preenchem vazios repare – pode ser – o seu contrário que abrem espaços do que não somos ainda que pareçam expandir-nos.
é preciso. eles dizem: isso, do coração. e nós o faremos.