Khamsin
... Hoje está um dia de ventanias: é a época do
chamado khamsin, um vento que vem do deserto carregado de areia depois
de ter varrido a Arábia com fúria. Invade irado o Egito e chega ao Cairo
naufragando a cidade em uma imensa nuvem arenosa. Se despenteiam as
palmeiras, o Nilo fica lamacento e muda de cor, o ar fica espesso, os
pássaros sem respirar. Dos terraços caem antenas, roupa estendida,
grades. Da terra se levantam redemoinhos de pó que invadem as ruas e
dificultam o caminhar. A areia finíssima está por todo lado: no
mastigar, no entre a roupa, dentro da cama, na geladeira. Chega
misteriosamente. Uma rajada me folheou os livros abertos sobre a mesa.
Graças a isso descobri uns versos de amor escritos pelo divino Platão
quando era jovem: “Tinha aos lábios a minha alma e quando a beijei, a
infeliz entrou nos seus como para fugir”. Agora mesmo tranquei as portas
para evitar que as rajadas arrebentem os vidros, e antes de me fechar na penumbra do quarto, vi voando umas calças pelo ar... É o khamsin. Basta ter paciência e esperar que em mais cinco ou seis dias se desencalhe e siga avançando
em direção ao ventre mudo do deserto líbio. Saí para tomar um chá no
grande bazar com um amigo. Queria lhe falar dos versos de Platão. Pela
rua todos correm empoeirados a proteger muito bem os olhos, a boca, as
orelhas. Também eu tive que lutar contra o vento entre papéis, bolsas e
nuvens desordenadas de areia. Um galho de acácia me chicoteou a cara.
Por sorte estava toda florida. E assim chegou aqui a primavera...
(Manuel Forcano - Llei d´estrangeria)
o original, em catalão:
... Avui fa um dia ventós: és l´època de
l´anomenat khamsin, un vent del desert que ve carregat de sorra després
d´haver escombrat l´Aràbia amb fúria. Envaeix Egipte irat i arriba al
Caire enfonsant la ciutat en un núvol immens d´arena. Es despentinen
totes les palmeres, el Nil s´enfanga i muda la color, l´aire
s´espesseix, s´alatrenquen els ocells. Dels terrats cauen antenes, roba
estesa, baranes. Del terra s´aixequen
remolins de pols que escombren els carrers i fan difícil caminar-hi.
L´arena finíssima se´t fica pertot: la mastegues, la sents entre la
roba, dins el llit, a la nevera. Misteriosament hi arriba. Una ràfega
m´ha fullejat els llibres oberts damunt la taula. Gracies a això he
descobert uns versos d´amor escrits pel diví Plató quan era jove: ¨Tenia
als llavis la meva anima, i quan el vaig besar, la dissortada va entrar
als seus com per fugir¨. Ara mateix he tancat els porticons per evitar
que més ràfegues m´esbotzin els vidres, i abans no m´he clos en la
penombra de la cambra he vist volant per l´aire uns pantalons... És el
khamsin. Nomes cal tenir paciència i esperar que en cinc o sis dies més
es desencalli i segueix avançant cap al ventre mut del desert libi. He
sortit per anar a prendre un te al gran basar amb um amic. Volia
comentar-li els versos de Plató. Pel carrer tothom corre empolsinat i
protegint-se amb força els ulls, la boca, les orelles. Jo també m´he
hagut de barallar amb el vent entre papers, bosses i núvols desendreçats
de sorra. Una branca sacsejada d´una acàcia m´ha fuetejat la cara.
Encara sort que era florida. Així ha arribat aquí la primavera...
20 de março de 2013
19 de março de 2013
14 de março de 2013
12 de março de 2013
11 de março de 2013
às vezes
o gato, às vezes, fica horas parado num canto. dorme, acorda. depois olha, concentra-se num detalhe do mundo. de
repente se levanta, vem na minha direçao, pula no meu colo. pede
carinho. faço carinho. pede que coce, e eu coço, coço suas costas, sua
barriga, o pescoço, o entre os olhos. ele fica feliz, ronrona, às vezes
se ajeita e dorme no meu colo enquanto escrevo. outras vezes, do nada,
se levanta e vai embora.
às vezes, o gato.
às vezes, o gato.
8 de março de 2013
27 de fevereiro de 2013
chang dai-chien
barack virág ág
esik. a
becsukódo virágok magukba zárnak minden
fényt.
de micsoda öröm
az ha minden
ami él at van itatva
és ujra
kinyilik
-- ilyenkor
megyek ki a kertbe.
galho com flor de pessegueiro
chove. as flores que se fecham guardam em si toda luz.
mas que alegria quando tudo o que vive está encharcado
e novamente desabrocha
-- nessas horas eu vou ao jardim.
minha avó gostava de pintar. paisagens de lagos entre
montanhas nevadas, flores, beija-flores. em geral, copiava pinturas de outros. ou fotos. numa de suas pinturas de flores de
pessegueiro, havia uns ideogramas pintados. junto à pintura, ela guardava um
papel como se fosse a tradução dos ideogramas orientais para o húngaro. do húngaro, traduzi para o português. as chuvas tropicais e o jardim verde e pleno sempre me lembram esta pintura e este texto.
muitos
anos depois de a minha avó já ter morrido, um amigo levou a pintura para seu pai decodificar. e não era nada daquilo que estava escrito. a inscrição dizia sobre um grande general e suas virtudes.
chang dai-chen, por sua vez, assinalado por minha avó como o
autor da pintura que ela estava copiando, e talvez do texto, era um falsificador. como
falsificador, chang criou obras tão perfeitas que chegaram e ser vendidas por
milhares de dólares. suas obras, mesmo depois de serem reconhecidas como
falsificações, permaneceram nos museus para serem admiradas. (wikipedia)
25 de fevereiro de 2013
e me curvo, e me submeto
Iniciação
(Orides Fontela)
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-te
-- és infinitamente mais estranho.
(Orides Fontela)
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-te
-- és infinitamente mais estranho.
22 de fevereiro de 2013
no cais
sou labirinto obscuro. o caos que se mostra é menos que o
desenho perdido de um mapa – dos inencontráveis. mapa. no mapa, nada de cidades
rotas ruas estradas geografias relevos caminhos nada. nem do labirinto qualquer
sinal. no mapa brilham faróis. um intrincado de luzes intermitentes em um emaranhado
de pétalas em uma rosa – murcha. nós. e um mapa do tempo. o tempo, esta escuridão.
21 de fevereiro de 2013
15 de fevereiro de 2013
work in progress
quando
sei quem já não sou mas ainda não sei quem serei, junto farinha, fermento, sal. amasso. asso. perfume de pão pela casa. a vida pulsa.
pouco a pouco eu chego.
6 de fevereiro de 2013
4 de fevereiro de 2013
água
como um navio se afasta
sem ancorar
de um porto mal vislumbrado:
o todo que sou:
o medo e o medo
do que ainda não
sou mesmo sabendo
que me espera dentro de mim
me espreita mesmo
que eu não queira
o tigre e sua sede
o cão e sua sede
o rato
o medo que de mim mesma – porto –
trago por dentro
ancorada que estou
*
*
*
sem ancorar
de um porto mal vislumbrado:
o todo que sou:
o medo e o medo
do que ainda não
sou mesmo sabendo
que me espera dentro de mim
me espreita mesmo
que eu não queira
o tigre e sua sede
o cão e sua sede
o rato
o medo que de mim mesma – porto –
trago por dentro
ancorada que estou
*
com un vaixell
s’allunya
sense ancorar
d’un port mal
entrevist:
el tot que sóc:
la por i la por
del que encara
no
sóc tot i
sabent
que m’espera
dins meu
m’aguaita tot i
que jo no
vulgui
el tigre i la
seua set
el gos i la
seua set
la rata
la por que de
mi mateixa – port –
porto per dins
ancorada que
estic
[Traducció: Joan Navarro]
como un navío se aleja
sin ancorar
de un puerto mal vislumbrado:
el todo que soy:
el miedo y el miedo
de lo que todavía no
soy asimismo sabiendo
que me espera dentro de mí
me acecha aunque
yo no quiera
el tigre y su sed
el perro y su sed
la rata
el miedo que de mi misma – puerto –
traigo por dentro
ancorada que estoy
[Traducción: Joan Navarro]
mint egy hajó ahogy elhagyja
horgony nélkül
egy alig meg pillantott kikötőt:
az egész ami vagyok:
a félelem és
a félelem
attól, ami még nem
is
vagyok még ha tudom is
hogy vár bennem
leselkedik belőlem még ha
nem is szeretném
a tigris és
a szomjúsága
az eb és a szomjúsága
az egér
a félelem amit
saját magamtól – kikötő–
hozok belülről
lehorgonyozva ahogy vagyok
[lefordítás: skrabák-paulics petra és paulics veronika]
15 de janeiro de 2013
o amor
se oceano
imenso universo infinito, também momento mínimo minúsculo circunscrito, delicado
átomo, partícula de luz desmedida, escultura de mulher a olhar o mar num grão
de arroz. que me alimenta.
(foto: escultura de nicolai syadristy - VXArtNews)
14 de janeiro de 2013
kolozsvár
cluj napoca é a terceira maior cidade da romênia e capital da transilvania. a região já foi hungria e por isso a conheço por um outro nome. só conheço o nome. sobre ela, há três coisas que sei: o padroeiro é são miguel arcanjo, em julho de 2007 eram 310.243 habitantes, e um desses habitantes, algum deles, tem passado a pé por aqui.
11 de janeiro de 2013
viajar
"és mejor retener cosas sencillas. éso permite medir la extensión de lo que se desconoce".
(joann sfar, el gato del rabino 5)
7 de janeiro de 2013
17 de dezembro de 2012
porto (de rio)
o desejo um mundo e como um mundo um círculo seu beijo me afasta de mim num longo caminho e quanto mais distante mais próximo de mim eu sigo seu corpo meu navio
12 de dezembro de 2012
10 de dezembro de 2012
ventos
é preciso
abrir o coração. se não o fizer, nós o faremos, eles dizem.
um pequeno
vão sob as costelas, aquelas, as mesmas que um dia o deus dos homens usurpou
para criar uma eva que também não sou.
e tudo isso
que afinal eles dizem veneno eles dizem proibido – pode ser – nem preenchem
vazios repare – pode ser – o seu contrário que abrem espaços do que não somos
ainda que pareçam expandir-nos.
é preciso.
eles dizem: isso, do coração. e nós o faremos.
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