10 de dezembro de 2013

quase nada anda a pé




















quase nada, dos irmãos fábio moon e gabriel bá (10 pãezinhos), são tiras de pura poesia. este é o quase nada no.240. no blogue deles (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/) pode-se acompanhar não só as tiras publicadas mas também os caminhos por onde eles andam, os processos de criação, etc. é deles também o lindíssimo daytripper.

9 de dezembro de 2013

prestar atenção, nascer



Lo que queda
-tan poco ya-
sería suficiente
si durase.
(angel gonzalez)

todas as noites ia dormir dizendo que não fumaria mais. nada de cigarros. nem um cigarro. e todas as manhãs, ao se levantar, vestia o casaco, preparava um café e só depois de terminado o primeiro cigarro ou ao acender o segundo e ouvir dúvidas é que se lembrava da decisão da noite anterior. sobrevinha  um incômodo, depois voltava uma certa tranquilidade: pararia. sem dúvida, pararia. não agora. pausa.

enquanto fumava dizia para si mesmo que aquele seria um dia enfim sozinho, que não se exporia a trazer alguém para sua casa, sua  cama. que se permitiria um dia sem querer ser amado. e sobreviveria a isso. porque sempre depois do tal fazer amor sem amor, nem as pernas pareciam bonitas, os peitos, os gestos, a bunda, os olhos, nem o nome soava conhecido, nada o interessava. o amor que ele buscava ao prometer amor era um vazio desofertado. inspira.

sabia que tanto quanto o cigarro da manhã  o lembrava do propósito da noite passada, um rosto quase reconhecível de noite o faria lembrar do propósito da manhã ultrapassada. e se a noite fosse quente, se levantaria aflito a compor uma salada. se noite fria, se afastaria a preparar uma sopa. as mulheres, quase mais que os cigarros, fazem sempre muitas perguntas. expira.

se esconde no banheiro por um minuto. quando entra nos banheiros é sempre nela que pensa. banheiro de qualquer lugar, quaisquer que sejam as portas sempre vê inscrito o nome dela - esse palíndromo que você é – ele diria, o palíndromo estúpido da vida, pensaria - dormir comer trabalhar comer trabalhar comer dormir - a cada dia buscando escapar do círculo que o circunscreve, indefine, confina no tempo e no espaço, fio longo de novelo na fumaça do cigarro, na porra que se perde em camisinhas mãos mulheres desconhecidas. pausa.

refoga uma cebola no azeite até dourar. sinto falta de quem me olhe nos olhos, ele diz, ou ela? coloca água, e às vezes desperto no meio da noite como quem perdeu o desenho de um rosto, descasca duas ou três mandioquinhas, e quanto maior a fome, menores os pedaços e acrescenta. penso na sua mão e os caminhos que a sua mão percorre. e também água, até amolecer. por que não me contento com a voz? desliga o fogo, coloca as folhas de espinafre e tampa. por que quero língua na pele e precipícios? as folhas cozinham no calor? uhum... poderia bater no liquidificador para uma certa uniformidade (mas seria tanto barulho). sou só uma entre milhares de expressões da vida entre tudo o que existe. pensa. prefere as folhas inteiras. me sei incapaz de tantas coisas. se tem roquefort, tempera na própria cumbuca, na caneca, o que estiver limpo. precisaria ter oito ou nove sentidos para captar o mundo em seus matizes? e esse gato, que acaba de entrar, é seu? é uma gata. inspira.

como todas as noites, também naquela foi dormir dizendo que não fumaria mais. nada de cigarros. de manhã ao se levantar, vestiu o casaco, e ao entrar na cozinha para preparar o café, viu a gata em cima da pia, bebendo água de uma das cumbucas. o peito pesado, o coração taquicardindo. precisava de um cigarro. expira.

não fumou. estava impregnado de inseguranças e bobagens, aderidas à pele. todos estão. quase ninguém nota. para quem se dá conta, as coisas vão um pouco melhor. ou não. lembrou-se de uma crise de asma. era o medo que o impedia de soltar o ar e era isso que impedia o ar novo entrar. asfixia e mais medo. sabia que era preciso soltar, deixar o ar seguir, não se incomodar com o vazio, com o buraco negro que parece se formar no profundo dos pulmões. os alvéolos fechados, segurando o pouco que tinham, um ar gasto, velho, já inútil. era preciso deixar, deixar-se ficar vazio, um pouco desamparado para que o ar se renovasse. para que ganhasse confiança, para que perdesse o medo. fuma porque tem medo. quando fuma não respira. prende o ar porque não confia. não se entrega? inspira. expira. pausa. a gata pulou da pia. a água ferve. o vapor quente na cozinha fria. esquenta as mãos. esquece o cigarro e fica o medo da noite. do desamor. do não amor. o medo da morte. pausa.

de noite, como toda noite, saiu. preferia isso, vida desastre e dor a se sentir capaz. prender-se às correntes. ninguém preso pensa. não é feliz nem triste. é gris. não é branco. não é preto. nada intenso. como toda noite, saiu. como toda noite foi ao bar. como toda noite, nem tão tarde, voltou para casa com uma mulher, como toda noite, quase desconhecida. assim que entraram, sem seguir o roteiro, ela disse: estou com fome. era uma noite fria. ele falou em preparar uma sopa. ela disse: não gosto de sopa, que tal uma salada. salada? inspira.

o ar que entra, o ar que sai. ela abriu a geladeira, sem qualquer constrangimento e juntou alface, rúcula, agrião, parmesão ralado, nozes, palmito, pimenta biquinho, uns ovos de codorna cozidos, azeitonas. ele pensou isso é o único que sou: o espaço, o lugar onde o ar entra, de  onde o ar sai. pensou fumar um cigarro. deixou de pensar. ela fez um molho misturando azeite limão sal mel mostarda pimenta do reino moída. ele perdeu o ritmo. pensou entrar no banheiro. deixou de pensar. ela conversava contendo palavras. dobrava as folhas com os dedos ajudando o garfo. expira.

quando terminaram a salada, o telefone dela tocou. depois ela disse: preciso ir. e ele se perdeu. ela disse também: meu filho está com febre. e acrescentou: me liga. ele olhou. aspirou o perfume dela. ele se soube um a mais no mundo, um entre bilhões. ele a soube uma a mais no mundo. uma entre bilhões. expressões de vida. para cuidar, querer, e se maravilhar. pausa. 

naquela noite, foi dormir sabendo que não fumaria mais. quando entrou no banheiro foi nela que pensou – vida. foi nela que pensou – morte. o ar que entra o ar que sai. não se preocupar pela morte, prestar atenção, nascer. 

inspira. expira. pausa.

28 de novembro de 2013

e pauso

transito e retransito a cidade em largas avenidas
dia noite dia
mais e mais as árvores me fazem pensar grandes pulmões:
vejo a folha
mas é o invisível que respira
e faz o pequeno milagre da vida

23 de novembro de 2013

dois tempos

por fim silencia o motor de um barco no peito por onde o vento escapa
a respiração retoma o humano ritmo sonolento, filhote nascituro
revolteio
um pequeno guerreiro os músculos do corpo repousam
a energia do universo se condensa neste ponto de luz
intenso
me dá tua mão e vamos
lado a lado como for 
lado a lado nisto que quase muro
lado a lado nesta, esta corda estendida, bamba

6 de novembro de 2013

além do horizonte



escalo a cerca: sete metros
escalo outra: outros metros
subo e desço
mais uma cerca e caio
perco pés e quase
braços
noção
movimento
quase perco aquilo que penso
não ter e quero ganhar
a vida:
por ela me escondo
bicho na gruta no dia
para ganhá-la
não há quem venha me alimentar
bicho
quem venha me salvar
bicho
deste escuro
deste medo
desta fome
deste abismo
que não quero estas cercas
que me separam do paraíso
eu e minha multidão
meu abandono
eu o invisível que somos sem lugar
que por tudo isso
arrisco me escondo
enfrento
para viver escalo: sete metros
a multidão segue: outros metros
subo e desço
mais uma e caio
perco os pés e grito
que neste silêncio sigam
e por um momento - um curto momento -
já sei morrer

9 de outubro de 2013

aula de voo




O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defende o que pensa saber
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de seu casulo.

Até que maduro
explode em voos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mesmo o voo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
e de suas certezas.
É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o voo
é preciso tanto o casulo
                  como a asa.

(Mauro Luis Iasi)

7 de outubro de 2013

teoria das superfícies mínimas


no momento mesmo em que me catalogaram - você é uma mulher boa - tudo ficou perdido, todo mito, nesta definição de ponta de dedos, boca nenhuma. e o todo se tornou fracasso: um fracasso leve aéreo, fracasso aerado, musse quase suflê, a bondade em pequenas bolhas esparsas. dentro de cada bolha o oco. a bondade, ali, onde você não se diz. mas alguém sempre se diz. alguém se deixa existir. no colorido das bolhas, o conflito entre ondas de luz antes brancas que se refletem entram ressurgem na superfície, que se constroem e se destroem milhares de tons em incidências desproporcionais ao atravessar a fina pele da parede daquilo onde nada há.
abro o enorme catálogo, entre as últimas letras do alfabeto, vejo a foto: eu, boa mulher que me dizem, na mão escondo uma faca, entre os dentes, as unhas são garras, no anel, veneno, no meu olho cavo a bolha da bondade se esfuma, se esvanece, murcha.
sem luz.
as bolhas do plástico bolha que envolve o catálogo de fracassos me distraem dos meus horrores, da minha incapacidade de olhar o mundo e ver. o mundo. enquanto me distraio e não vejo, pequenas bolhas vazias buscam entre sais e ácidos a menor área para tanto volume nenhum. e me esvaio - líquido pingo - entre as páginas o que não se sabe que sou. lanço o outro aos infernos, querendo, boba, ir direto ao céu. mas é na terra que se firma os pés e bem ali se põe as mãos, alguém diz, sem ser iridescências nasço avessos de escuridão.

27 de setembro de 2013

das coisas mais doces que um homem pode ouvir e comer em sua curta vida

desdobrou o mapa. abriu. abriu novamente e mais uma vez até cobrir a mesa toda. no intrincado de caminhos que pareciam artérias e ondulações que sugeriam planaltos e planícies, ele disse: você está aqui. e apontou com o dedo: o onde eu estava era um ponto. se o lugar era quase invisível, eu era um nada. um suspiro na vastidão.
perguntei das estradas, as condições. ele explicou com calma, naquela luz oscilante, que não era claro se seria possível passar nas partes mais próximas ao rio, ali onde ele se expande. chovia. chovia sem parar. o frio. o argiloso. ardiloso. ácido.
meu olhar caiu desconsolado sobre o mapa, ele me propôs que eu passasse a noite ali, dormisse, no dia seguinte, seria sempre outro dia. aquilo era, por fim, uma coisa doce naquelas últimas horas. eu precisava. e aceitei.
ele me mostrou um quarto, que era uma espécie de depósito, com uma velha mesa de pebolim abandonada, um violão sem cordas, uma poltrona, caixas de conteúdos inexatos. entre a porta e o amontoado, uma cama, que me esperava desde sempre. depois ainda disse: tome uma ducha, se quiser. o banheiro é no final do corredor, já arrumo uma toalha.
saí do banho, a roupa era a mesma mas tudo agora aquecido. e bom. ouvi me chamar e o som vinha da sala onde antes o mapa sobre a mesa. agora, uma sopa grossa de abóbora. três pratos. colheres. faca. pão, manteiga numa vasilha com água. copos. vinho tinto. me apresentou a mulher. que me sorriu. e perguntou. e perguntou. e perguntou enquanto eu respondia, respondia, respondia. depois eles também contaram. e eu perguntei. e logo perguntas, histórias e respostas se confundiam no calor da sopa e do pão. lá fora chovia.
ele tirou os pratos, a panela, as colheres, a faca. ela e eu continuamos desfiando conversas que somos mais capazes com desconhecidos, numa noite fria e chuvosa, num lugar quase inexistente do mapa. ele voltou da cozinha trazendo quindins: amarelos-gema em pequenos pires brancos: como se ovos fritos em doçura. a doçura.
comi o primeiro. enquanto comia em êxtase perguntei – apenas para distraí-la – como se faz quindins assim? e ela me falou, quase num sussurro, de ovos, de separar as gemas, de açúcar fino pó, me falou de coco ralado e úmido. manteiga. eu ouvia, a chuva, a sala em luz obscura, eu via, um ponto no mapa que cresce. eu crescia também.
aos poucos, a doçura fazia fundir aquele cheiro de terra molhada ao vapor antigo da bosta das vacas que a gente pisava no curral, a memória vaga de um cuidado, de uma alegria, de uma solidão, da sombra oscilante de uma lamparina no copo com água no canto do quarto, a madrugada despontando em mugidos. lembrança de pecados e medos espalhados ao pé da cama.
nas mãos de pele fina riscada, as veias como um intrincado de estradas, sobreposição de mapas. o movimento que fazia para dizer em gestos o ralar bem fino o coco, o misturar ao açúcar, à manteiga. um creme. o peneirar as gemas a desviar com delicadeza a película que as envolve. o mexer e remexer, até a consistência de uma gemada.  e quando já comia o terceiro quindim, tudo em mim se perdoara, toda a dor. e ela a insistir nas forminhas: preencha, preencha cada uma, até a boca, sem medo: a chuva sempre preenche os rios. e só às vezes eles vazam.

no limite entre pedra e musgo

asperamente:
o lamber de cada letra que a palavra é
que a palavra não é
sua irrealidade
sua realidade tocar
o que a palavra quer
ser e não
quer dizer
seu futuro gozo de palavra muda:
sua glória
sua nudez de palavra em concha
a concha:
passar os dedos neste oco que a palavra também é
reorganizá-la em seu úmido
e ouvir na palavra – seca –
seu coração desritmado
sentir na palavra - cega – sua pupila dilatada
o céu da palavra que não se sabe
palavra que agoniza sozinha
sob a noite
sem estrelas

24 de setembro de 2013

hoje: quatro


"O perder-se por esses labirintos, que aos neófitos pode parecer uma ocupação estéril, me parece muito mais prática e com os pés no chão do que investir aos trancos, como um cordeiro, contra circunstâncias estranhas a nós, que se conjuram para nos complicar o lado puramente utilitário de nossa vida que é, sem dúvida, o mais real e inapreensível, dada sua elementar e irremediável idiotice. Para essas especulações dinásticas nada mais propício, pelo menos no meu caso, que o mormaço ardente do trópico, que costuma aguçar meus sentidos e minha inteligência até os limites do visionário e delirante. É aí que o calor e a umidade se conjuram para estabelecer uma noite com ambiente de caldeira e o sono vem, como uma guilhotina aveludada e piedosa, que nos deixa à margem de esquecidas regiões da infância ou de obscuros meandros da história, povoados por figuras que vivemos como fraternas presenças inefáveis." 

(Álvaro Mutis, Ilona chega com a chuva. Tradução: Josely Vianna Baptista)

17 de setembro de 2013

lamparina no canto do quarto

a árvore inveja o vento
que inveja a casa
que inveja o mar.

a árvore pode ser barco
o vento pode ser barco
a casa pode ser barco
o mar é o que barco não é.

um fareja o outro
mar e barco
como um cão fareja o dono
uma criança fareja a mãe.

às vezes todos esses se abandonam
um pensando ser o que o outro é
e outras vezes eles se largam
sendo o que são
sem pensar

então, nesse único instante, o barco se sabe peixe
a casa se sabe teto
o vento se sabe horizonte
e a árvore se reduz a semente
pequena semente que voa para o mar.

16 de setembro de 2013

nada zen


a partir daquele momento, perscruto o mar como um radar busca o navio inimigo, e uma tensão discreta substitui a calma anterior da contemplação. espero: quero adivinhar seu caminho em profundezas de pedra, quero conhecer seu fôlego para que o trajeto dos meus olhos cruze o seu trajeto e eu veja despontar cabeça ou nadadeiras no instante mesmo em que meu dedo apertar um gatilho. ainda que o disparo não a mate, eu e ela morremos um pouco – a tartaruga – quando reduzo sua existência, antes ampla e leve contemplação, a uma inscrição fotográfica: tartaruga recortada do horizonte, amputada pelo meu olhar, meu cálculo, minha visão restrita de mundo.

13 de setembro de 2013

mil novecentos e setenta e sete ou through hardships to the stars



 então eles teriam perguntado o que você colocaria numa mensagem para não sei onde, para não sei quando, para não sei quem, e você poderia ter dito que pensava colocar umas fotos, talvez umas músicas, talvez uns desenhos, talvez, sem saber o que poderiam querer dizer estes tantos não saber, até se dar conta que você era justo o cara que pensava na possibilidade de tudo ser possível, embora todo possível também pudesse ser impossível, e elaborou uma lista, de sonhos, mas também de realidades, e pensou nos lugares mais lindos da terra, e pensou nos pescadores portugueses, e pensou nos pássaros, e pensou no som do vento, e pensou no som da água, e pensou em coisas sublimes, e pensou em outras, banais, e pensou no tempo que devora o espaço, e pensou no espaço que devoraria a nave antes mesmo que você se imaginasse depositado em cinzas ou terra, e pensou nas grandes caravelas atravessando mares, depois, por fim, pensou na estupidez do humano, um pequeno e minúsculo humano, que também não sobreviveria, e não teria seu nome inscrito em lugar algum, pois seu poder foi não deixar o sol dos beatles ir pro espaço, talvez um dia tornando verdade um outro registro desse disco de ouro, a partir deste momento considerado interestelar: many people comin' from miles around to hear you play your music 'till the sun go down maybe someday your name will be in lights... sayin' johnny b. goode tonight...

12 de setembro de 2013

receitas vegetarianas - que me faça andar



o medo, mãe, me paralisa. mãe, me dá uma comida que me faça andar?
meu filho, se há um penhasco às suas costas e um mar desconhecido à sua frente: espera, respira. não há mágica. que a vida siga seu curso.
esse fluir, mãe, preciso disso, que deixe fluir: que comida, mãe, transforma o mundo?
que mundo, meu filho, que mundo? o tanto de mundo que nos cabe é a vida vivida no fluxo, é essa respiração.
mas eu tenho medo, mãe, não consigo me acalmar. meus ouvidos doem.
ouça, ouça este nada, meu filho, o som do mar cada vez mais distante. ouça. o que pode se alimentar de distâncias e contemplações. coma silêncios, meu filho, comidas longas, que esperam no escuro, que esperam no fundo da terra, suspensas no tempo. coma, meu filho, o que sabe esperar sem medo.
uma comida assim, mãe, me dá?
uma polenta, meu filho. porque o milho, veja, os longos colmos a se abrir folhas, uma grama gigante. corredores esvoaçantes é o milharal. o pendão cresce sincronizado com os estigmas e as chuvas: cada pequena futura semente se liga em medo e fio à espera de um pólen, cabelos verdes avermelham e se alongam, estiram-se: pensa se cada uma não espera ávida? em terra seca, nada de grãos. e de nada adiantaria esse um fio, esta esperança. depois, pensa o grão seco: pilão, grão moído, fino, fubá. o medo que morava no grão. a suavidade que é ser fubá. pensa, meu filho, pensa. a água fervente e salgada. mistura o fubá macio com água – fria - e despeja esse creme, devagar para que ferva e permaneça fervente por uma hora, devagar, lento, como um abraço que também afasta o medo. não se esqueça: no fim de tudo, manteiga, que derreta.
a doçura amaina o medo, mãe? faz um bolo de fubá pra mim. doce e cremoso, faz?
meu filho, que doçura? se até os loucos têm medo. o medo preserva a vida como uma faca que se saiba usar. o medo é que dá coragem. sangue farto, gesto rápido e forte, resistência à dor. procure, aí dentro, esse bicho que grita, que relincha, revira, que bate os cascos.
esse bicho sou eu, mãe, fragilidade e ossos, ele não sabe seguir.
sabe, meu filho, esse bicho sabe seguir, e também morde, e mata, e nos faz perigosos. monte-o, meu filho, desmonte-se. entre na floresta escura do seu medo. deixe as armas sobre a mesa.
a faca, mãe, a faca eu sei usar.
com delicadeza, meu filho, não esse cavalo enlouquecido, esse fogo nos olhos. a fúria que ele contém.
a faca, mãe. uma comida que me faça andar.
ali, no chão, procure. os cogumelos não são aquilo que você vê. mas, agora,  procure o que se pode ver, essa quase floração de umidade e calor. uma floração inexata, busque, entre húmus e folhas secas. cuide dos seus passos, dos gestos impensados, não arranque o fino fio que desde baixo os sustém: estrutura que dorme invisível no fundo da terra, no fundo da matéria que orgânica vive sem a gente se dar conta, meu filho, e, mais que tudo, não se confunda, não traga veneno em vez de comida. ali será quase escuro, os olhos se acostumam, todos os sentidos, as mãos. enquanto esporos voam, se esparramam, e novos fios invisíveis sob a terra criarão novas teias, pequenas fissuras. as cores, a forma, meu filho, esteja atento. não arranque, corte, corte delicadamente. esta sua faca. e volte.
...
mãe, eu trouxe, veja. meu medo capturado desde o antigo, e trouxe os cogumelos, lindos.
alguns são venenosos, meu filho.
foi a pressa, mãe, a fome do que me tire o medo.
não tenha pressa, meu filho, espere abrir-se cada momento. não se avança cegamente.
era o escuro, mãe.
era o medo, filho. ponha a panela de ferro no fogo, que esquente. dentro, os cogumelos lavados e sem galhos sem musgos sem restos da terra de onde vieram. e só estes, que não nos fazem mal. depois sal. veja, soltam água, perdem toda a água que trouxeram da umidade das florestas. persevere, meu filho. depois azeite, alho, salsinha. se quiser cebola, se quiser uma pimenta, se quiser, com a polenta, um creme de leite, leve, fresco. quente. porque os mamíferos são esta paciência. não obstrua caminhos, meu filho, não deixe o medo, e ao mesmo tempo, filho, deixe.
...
mãe...

diga, meu filho...

6 de setembro de 2013

a água escorre do cesto

às sextas, lê-se mais poesia que às segundas. deveria ser o contrário porque a sexta já traz em seu bojo a alegria de pequenos fins e recomeços, ou isso não seria alegria, porque a última caixa a última gaveta a última prateleira são sempre as mais demoradas mas se é no último lugar onde se busca que a coisa é encontrada.
às sextas quase sempre o tempo é bom, e é no domingo que abrimos os olhos à procura.
se penso: estou em pé, os antípodas se descabelam. poderia ser o contrário, embora nem isso seja: verme pegado na pele da terra. o universo que somos um dia, se recriará em outro. e esse dia será uma sexta. e nesse dia a fratura interna se soldará, a pele se consertará cicatriz.
quando ligo, ela atende e quase não respira, quem perde o fôlego sou eu. sua voz é desmedida e os nós dos meus dedos como os seus ficam cada vez mais grossos, com o passar dos anos: nós.
um homem que mata outro homem nem sempre se recolhe em silêncio. às vezes grita. às vezes sexta.

nunca nenhuma poesia.

5 de setembro de 2013

dê flores aos vivos

por conta do medo, há quem distribua suas riquezas aos pobres.
quem funde linhagens, arranque os dentes.
há quem.

por mais que me proteja, o vento vem, revira tudo, fora dentro tempo e medo no abismo rochoso.
tudo o que eu podia fazer eu fiz. podia pouco. fiz menos ainda.
não sou matéria sou fissuras
porosidades
areia móvel. grão.
o vazio onde o molusco se firma.
a explosão do mar.
a espera.
não a pedra.

4 de setembro de 2013

outra vez hubble


saio de manhã cedo e chove. enquanto ando, penso o mundo todo encoberto e cinza e molhado, sem perceber que no meu pensamento obtuso, reduzo o mundo ao pouco que dele sei, no tanto que ignoro. como não sei – talvez porque não vejo – que as estrelas, como as borboletas, também antes foram lagarta e casulo, ambas pequenas explosões de incompreensível e o incompreensível só é assim não compreendido porque nunca antes me debrucei sobre seu mistério, e o mistério, tal e qual um pequeno humano, tem passado e futuro, sendo talvez seu passado o ponto de grafite e seu futuro a palavra. o mistério em seu presente seria o risco cinza que traço no papel antes bem antes de teclas e telas e fibras óticas que nos (des)conectam. incompreensível pode ser a poesia do casulo mágico de uma estrela que alguém vê.



3 de setembro de 2013

a política é o ópio da poesia e o inverso


olhar o mar faz ser margem. nem dor. só este contorno, beira, este risco. transitar a fronteira, qualquer, abismo em seu peso decantado sobre a cabeça. pés molhados. um passo. outro, areia. maresia. orvalho, geada leve, fina neve sobre folhas. o instante poético declina, sem rede ou retaguarda, salta no vazio, levita.

30 de agosto de 2013

quando



Quando a criança era criança

Quando a criança era criança,
caminhava balançando os braços,
queria que o riacho fosse um rio,
o rio uma torrente
e que essa poça fosse o mar.
Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo lhe parecia ter alma,
e todas as almas eram uma.
Quando a criança era criança,
não tinha opinião a respeito de nada,
 não tinha nenhum costume,
sentava-se sempre de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia caretas pras fotografias.
Quando a criança era criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro
não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?
Existe de fato o Mal e as pessoas realmente más?
Como pode ser que eu, que sou eu,
antes de ser eu mesmo não era eu,
e que algum dia, eu, que sou eu, não serei mais quem eu sou?
Quando a criança era criança,
mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.
Quando a criança era criança,
uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.
Quando a criança era criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
mas só quando pensa em trabalho.
Quando a criança era criança,
era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.
Quando criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora, nozes frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha, a busca por uma montanha ainda mais alta,
e em cada cidade, a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores como, com algum orgulho,
ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez diante de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
como ainda espera até agora.
Quando a criança era criança,
arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
e ela ainda está lá, balançando, até hoje.

Peter Handke
(não sei de quem é a tradução)

o original, em alemão:



Als das Kind Kind war,
ging es mit hängenden Armen,
wollte der Bach sei ein Fluß,
der Fluß sei ein Strom,
und diese Pfütze das Meer.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war,
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.
Als das Kind Kind war,
hatte es von nichts eine Meinung,
hatte keine Gewohnheit,
saß oft im Schneidersitz,
lief aus dem Stand,
hatte einen Wirbel im Haar
und machte kein Gesicht beim fotografieren.
Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?
Als das Kind Kind war,
würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
und am gedünsteten Blumenkohl.
und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.
Als das Kind Kind war,
erwachte es einmal in einem fremden Bett
und jetzt immer wieder,
erschienen ihm viele Menschen schön
und jetzt nur noch im Glücksfall,
stellte es sich klar ein Paradies vor
und kann es jetzt höchstens ahnen,
konnte es sich Nichts nicht denken
und schaudert heute davor.
Als das Kind Kind war,
spielte es mit Begeisterung
und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
wenn diese Sache seine Arbeit ist.
Als das Kind Kind war,
genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
und so ist es immer noch.
Als das Kind Kind war,
fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
und jetzt immer noch,
machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
und jetzt immer noch,
hatte es auf jedem Berg
die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
und in jeden Stadt
die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
und das ist immer noch so,
griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einem Hochgefühl
wie auch heute noch,
eine Scheu vor jedem Fremden
und hat sie immer noch,
wartete es auf den ersten Schnee,
und wartet so immer noch.
Als das Kind Kind war,
warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
und sie zittert da heute noch.

29 de agosto de 2013

exercícios


História

Um incêndio florestal é quando um bosque queima.
O calor cai sobre as copas das árvores desde o céu austral:
pacotes de luz envolta em folhas
engolem árvores como as galinhas o estúpido grão.
Naquele instante as árvores estão acabadas
mas ninguém sabe ainda. Como uma porca tragando um punho.
A chama já crepita no bolso de uma camisa, em suas
dobras, e o dia é definitivamente mais brilhante.
Agora no horizonte, em sua espinha dorsal, em seu cabelos
há dois sóis, o maior fareja nesta escuridão.
Nada retém, não vai a lugar algum.
Sem reconciliação; só se acalma quando a fumaça se arrasta
até onde permanece o grão cego. Todas as coisas recobrarão o juízo;
tudo ao meu redor logo se tornará sol,
pensa o sol enquanto conecta os ramos ao ar.
Tronco abaixo fogem para a terra esquilos e serpentes.
O calor, sem saber seu próprio nome, baixa até uma realidade
suave e o tronco pulsa, pleno de pássaros
em uma mesma loucura . Agora do tronco salta uma fera.
Devora a casca e as copas por fim rompem a superfície.
Agora a árvore, em seu profundo silêncio, grasna.
Um outro dia aponta, ansioso demais por passar.
Depois o calor reduz a marcha. Encolhe-se, imperceptível,
entre as raízes, uma cerimônia perseguida até seus começos,
até a sábia juventude. Um desejo de si mesmo inunda o fogo.
Estende-se por entre as plantas altas como o amanhecer sobre o céu
escuro, uma saudação numa sala  lotada e vazia.
Lambe as folhas, lambe a casca, lambe a raiz, lambe
um pouco de tudo. Aproxima-se disso e daquilo.
ao alto ao baixo, primeiro rapidamente,
depois segue seu árduo trabalho. Agora tudo se sacode:
nada mais entre o ar e a terra permanece em pé.
Alguns animais se foram, outros ficaram
onde estavam. À sua volta o bosque inteiro se converte em algo
intangível, água termal que limpa e drena, uma
sujeira que foge, mas não desaparece, cerra fileiras.
E tudo está em algum lugar, tudo está em nenhum lugar, e tudo está iluminado.
Um incêndio florestal é quando um bosque queima. Um incêndio
é quando queima.

Marko Pogačar 
(tradução: veronika paulics)



26 de agosto de 2013

um redondo e sonoro "ah!"

Era uma vez um homem que um dia decidiu ser escritor. E o leitor pergunta: “Que homem, exactamente?” E eu respondo: “Um homenzinho pequeno, sólido, na casa dos quarenta, com óculos de lentes grossas, dessas que tornam os olhos muito pequenos e distantes, e uma cabeça em forma de pêra, a alongar-se para o céu e a ameaçar desprender-se do corpo a qualquer momento.” E o leitor pergunta: "Em que dia precisamente decidiu ser escritor?" E eu respondo: "Precisamente no dia 28 de Julho."
Pois bem, o homem dedicou-se então a inventar uma técnica que lhe permitisse cumprir esse desejo sem grande esforço. Colocou as mãos nas têmporas, adoptou o ar meditativo de um sábio alemão (jamais esquecerei o seu ar meditativo de sábio alemão) e, duma só vez, inventou várias técnicas. A mais simples consistia em engolir grandes quantidades de palavras até soltar um redondo e sonoro "Ah!" de satisfação.
O homem recolhia esse “Ah!” e colocava-o entre as páginas de um caderno em branco. Em pouco tempo o “Ah!” transformava-se, secretamente, numa história.
E o leitor, fazendo uma pregazinha irónica com a boca, pergunta: “Mas como se passava a coisa, objectivamente?” E eu respondo, tirando dos lábios o resto de uma beata: “Objectivamente, ninguém sabe como a coisa se passava. E embora não seja muito experiente nesta matéria nem tenha a pretensão de a esgotar por completo, o que me parece é que as histórias cresciam a partir desse ‘Ah!’ como uma semente e o seu rebento. A palavrinha crescia e transformava-se numa longa e maravilhosa história.”
E eu pergunto: “A coisa passar-se-ia realmente assim?” E eu respondo: “Por um lado, talvez sim, por outro, talvez não. Mas é provável que não.”


(rui manuel amaral, daqui)

21 de agosto de 2013

herbig-haro 46/47



leio que a mil e quatrocentos anos-luz da terra, na constelação vela do hemisfério sul, uma estrela que está acabando de se formar dispara jatos de gás que alcançam velocidades de até um milhão de quilômetros por hora e brilham ao chocar com o gás do seu entorno, e penso que tudo isso, todas estas cores no universo distante, foi mesmo há mil e quatrocentos anos num lugar que nem sei onde, porque por mais que olhe o céu ou a terra e tente entender, não entendo, não reconheço as constelações mais banais, quero dizer reconheço as três marias, o cruzeiro do sul e outro dia ainda vi a cauda de escorpião­, mas não muito mais do que isso, no céu didaticamente escuro em um praia sem luz. meus avós também devem ter estranhado as constelações deste hemisfério, talvez sem nunca saberem embora pudessem intuir que as estrelas nascem e morrem e que há buracos negros e que o universo se dobra sobre si mesmo como quando sentimos uma dor muito forte no estômago, ou quando o sono é tanto que não conseguimos dormir, ou quando um pesadelo nos desperta olhos em lágrimas, ou quando quando quando. como cada um de nós se dobra universo sobre si mesmo, fazendo-se ponto, estrela, buraco negro, fazendo-se uma absurda interrogação.