21 de agosto de 2013

herbig-haro 46/47



leio que a mil e quatrocentos anos-luz da terra, na constelação vela do hemisfério sul, uma estrela que está acabando de se formar dispara jatos de gás que alcançam velocidades de até um milhão de quilômetros por hora e brilham ao chocar com o gás do seu entorno, e penso que tudo isso, todas estas cores no universo distante, foi mesmo há mil e quatrocentos anos num lugar que nem sei onde, porque por mais que olhe o céu ou a terra e tente entender, não entendo, não reconheço as constelações mais banais, quero dizer reconheço as três marias, o cruzeiro do sul e outro dia ainda vi a cauda de escorpião­, mas não muito mais do que isso, no céu didaticamente escuro em um praia sem luz. meus avós também devem ter estranhado as constelações deste hemisfério, talvez sem nunca saberem embora pudessem intuir que as estrelas nascem e morrem e que há buracos negros e que o universo se dobra sobre si mesmo como quando sentimos uma dor muito forte no estômago, ou quando o sono é tanto que não conseguimos dormir, ou quando um pesadelo nos desperta olhos em lágrimas, ou quando quando quando. como cada um de nós se dobra universo sobre si mesmo, fazendo-se ponto, estrela, buraco negro, fazendo-se uma absurda interrogação.

13 de agosto de 2013

mistério óptico



aos vinte, era insuportável e não sabia esperar a noite das bruxas.
achava a poesia inútil para a pobreza do mundo.
hoje, espero cada noite, que me espera porque também sou bruxa. e como as bruxas, não corto cabelos nem pinto unhas. e ninguém tem nada com isso.
continuo achando a poesia inútil e por isso mesmo tão capaz de reduzir a pobreza do mundo como rosas que se abrem em tardes de chuvas.
quando me dizem: veja, é só um ponto, exercito um aproximar, um olhar bem de perto aquilo, aquele um ponto. sabê-lo orifício mínimo artifício óptico por onde a luz brinca quando do outro lado é luz, por onde a luz brinca quando do outro lado é escuro. o outro lado pode ser luz, o outro lado pode não ser.
toda poesia é um ponto. todo jardim, chuva. toda noite, bruxas.
a luz inverte os caminhos. os pontos.

16 de julho de 2013

no tempo, o amargo é um caule rugoso

em frente a la aljafería de zaragoza, as oliveiras. colher os frutos. experimentar o amargo. a consistência e a cor. é novembro. guardá-los no bolso. conhecer pep e norma e descobrir como se prepara, como se curte. por um mês, submergidas em água trocada a cada dia, trinta bolinhas roxas esperam. passou o natal. passou o ano novo. jogar fora a água pela penúltima vez e cobri-las com uma salmoura já fria, temperos, ervas. um certo instinto de mãos. esperar janeiro. viajar. esperar fevereiro. o calor. esperar março. a páscoa. esperar abril. então maio. e junho. julho e se passaram oito meses. elas estão boas, muito boas. atravessaram águas, existem como árvores. na delicadeza, são quase sementes de pedras. se.

14 de junho de 2013

montanha e mar


(os dois extremos, irreconciliáveis como a água e o fogo:  a montanha  pura e que esconde entre suas dobras os caminhos da libertação / o mar impuro e sem caminhos; o espaço da definição / o espaço da indefinição:  a montanha e sua ondulação petrificada: a permanência / o mar e suas montanhas instáveis: o movimento e suas miragens; a montanha feita à imagem do ser, manifestação sensível do princípio de identidade, imóvel como uma tautologia / o mar que se contradiz sem cessar, o mar crítico do ser e de si mesmo)

octavio paz, o mono gramático
(tradução: lenora de barros e josé simão)

3 de junho de 2013

exercícios de aprender a viver



eu dizia não chore.
depois: ao falar para multidões lembre-se também do seu pé sobre a face da terra.
ou pense no que somos todos, tubos de fazer bosta.
quando for, bata o pó. deixe água em seu lugar.
eu também dizia não demore.

e eu também me dizia não chore.
e eu também me alertava sobre o pé, o pó, a bosta.
sobre a água que ficaria no meu lugar.
quando o  cachorro late, late e seus olhos amarelos me olham muito de perto, a natureza humana se dilui na multidão viva que como uma crosta cobre a terra ferida.
e eu digo não chore, não chore agora.
não chore depois.

17 de maio de 2013

o cavalo do bandido

um figurante que aparece longe, desfocado, limpando as cacas do cavalo do bandido escreve para me contar que o universo não é infinito, que a quantidade de matéria e energia mantém-se desde a tal grande explosão primeira e que nada, nada se cria a si mesmo - delicadamente ele me lembra que tudo isso já se sabe há algum tempo - e esse figurante também me diz que as galáxias que vemos podem ser reflexos, apenas, e que o universo curvo permite à luz encurvar-se e passar por nós uma e outra vez, e ainda vir a ver-nos bilhões de anos depois, quando na verdade nós já nem estaremos, e todos pensaremos veja, esta luz, nem parece a mesma, como não parecem as mesmas as partículas que desaparecem aqui e aparecem ali e outras que nem se sabem ondas ou partículas. tudo isso para que ele possa, por fim, se dizer quase satisfeito em ser existente nesta escala nada, que vai do tamanho mínimo do átomo ao tamanho indefinido do espaço. e é o quase, este, que o livra de um harakiri.

(inspirado em mensagem de álvaro vianna)

7 de maio de 2013

estrelando


li – onde foi que eu li? – que a vida é mais tranquila se a gente se pensa dentro de um filme sobre a gente mesmo. como somos muitos, somos muitos filmes projetados em muitas telas simultaneamente. no meu filme, sou eu o personagem principal. meus medos, alegrias, aflições, descobertas, raivas, tristezas. minha noite, minha véspera, meu dia seguinte, minha memória. a trilha musical, inclusive, minha. no filme do outro, de qualquer outro, sou só um figurante, aquele que passa de relance com a camiseta da cor exata. no filme do cara que cruzo na rua ou da mulher que compra peixe na feira ou do companheiro ou do filho ou do meu gato ou da árvore, da mãe, do pai, do planeta, do cão, da tempestade, nesses filmes sou só figurante. quando muito, com muito esforço e só por um tempo tempinho, chegarei a ser coadjuvante. com muito talento, um bom coadjuvante. 
na verdade não sei se a vida fica mais tranquila. talvez seja outra coisa: essa ideia ajuda a cavar mais pequenos silêncios no dia. e ser coadjuvante de silêncios. figurante, antes.

2 de maio de 2013

exercícios

foto: adauto araujo


Às vezes me apareces à memória
como uma cidade vista desde o mar:
com a ânsia de aportar aí
ou como o mar visto entre as ruas de uma cidade:
com a ânsia de banhar-me aí.

Às vezes a sua lembrança cresce em mim
como uma cidade que derruba as muralhas
e as novas ruas que se cruzam
dizem o teu nome
e o meu.

Às vezes me esqueço que te foste
e falo contigo como um semáforo
que muda de cores
numa rua deserta.

Às vezes tenho claro
que o único lugar onde pude viver sem o mar
foi o teu corpo.

Às vezes te esqueço
como uma cidade que de noite
não vê o seu mar negro.

E tu também vais me esquecendo
como um porto cada dia com menos navios
com menos mar a cada dia.


manuel forcano - llei d´estrangeria
tradução: veronika paulics


o original, em catalão:

De vegades m´apareixes a la memória
com una ciutat vista des del mar:
amb l´ánsia d´arribar-hi,
o com el mar vist entre els carrers d´una ciutat:
amb l´ánsia de banyar-m´hi.

De vegades el teu record creix en mi
com una ciutat que enderroca les murrales
i els nous carrers que es creuen
duen el teu nom
i el meu.

De vegades oblido que vas anar-te´n
i et parlo com un semàfor
que canvia de colors
en un carrer desert.

De vegades sóc conscient
que l´unic lloc on vaig poder viure sense el mar
va ser el teu cos.

De vegades t´oblido
com una ciutat que de nit
no veu el seu mar negre.

I tu també em vas oblidant
com un port cada dia amb menys vaixells,
amb menys mar cada dia.







21 de março de 2013

atravessar limpo o ar da manhã


"Era uma loja onde se penhoravam lembranças. Eu sabia desde o início o que queria, mas apesar disso, para evitar qualquer precipitação, perguntei por um dos objetos que estavam expostos. Era uma lembrança guardada no fundo das estantes à esquerda. Podia-se ler o timbre no cartãozinho lacrado que se sobressaía: J. M. H. 1952. Não sei por que me chamou a atenção. Ah, esse!, me disse o empregado, é um dos depósitos mais antigos que temos, senhor, sua proprietária por certo já faleceu, e ninguém pôde ou nem quis recuperá-lo. São lembranças de sua infância em Sidi Ifni. Lembranças provavelmente filtradas pela nostalgia, mas muito bonitas, eu lhe asseguro. Perguntei a ele o preço, mas ele me respondeu com uma amável evasiva. Seu preço está dentro do razoável, me disse. Se tiver interesse é só uma questão de conversarmos, estou certo de que chegaremos a um acordo satisfatório. As lembranças, ele acrescentou, se deterioram com o tempo ou pelo menos se transformam, sabe? Estão aqui, aparentemente imóveis, fora da cabeça de seus donos, mas pouco a pouco se transformam, se refinam, poderíamos dizer. Com eles acontece praticamente o mesmo que acontece com as lembranças que temos em nossa memória. Isso lhes dá uma beleza particular, como se fossem vivas destilações do tempo. Me interessei pelo grupo de lembranças que estava absolutamente ordenado em uma cristaleira, envoltos em papel verde com sua etiqueta correspondente também lacrada. Refere-se a esses daí?, me disse. São alucinações. Mas não pense que admitimos todas, imagine. Só aquelas que são realmente extraordinárias.
Visões desmesuradas da realidade, algumas, autênticas deformações, quase monstruosas. Não é fácil encontrar gente que se desprenda delas. Os proprietários de alucinações verdadeiramente intensas têm muito apego a esse tipo de pensamento. Para nós, têm muito valor e são muito solicitadas. Também os sonhos. Estão bem ao lado das alucinações nesta outra cristaleira. São os dois tipos de lembranças mais valiosas que temos aqui e que as pessoas mais apreciam. Temos uma clientela muito seleta de compradores de alucinações e sonhos.
Tive vontade de interrompê-lo para explicar o propósito que me havia levado até ali, mas me contive e assim lhe dei corda para que me mostrasse a série de lembranças que estavam colocadas nas prateleiras da frente. Aqui o senhor encontra histórias de amor e desamor. São lembranças de amor e desamor em geral, o que poderíamos chamar de paixões. Alguns episódios têm, desde o ponto de vista comercial, uma saída aceitável e chegam a despertar certo interesse, mas, sendo sincero, em sua maioria são histórias de uma enorme vulgaridade. Veja as etiquetas. Ali estava grande parte da escala dos comportamentos amorosos. A entomologia do sentimentalismo, pensei.
Pareceu se animar quando me apontou um grupo de lembranças que se destacava do resto, pela sua quantidade. Estes, disse, mostrando as prateleiras superiores, são muito peculiares e também muito apreciados por nossos clientes. São viagens. Viagens aos lugares mais inesperados do planeta, lembranças de aventuras cheias de riscos e vicissitudes. Algumas são autênticas provas de heroísmo, acredite-me, realizadas por pessoas comuns. Mas nem todas são proezas de muita ousadia, claro. Também há lembranças de travessias plácidas e paisagens muito bonitas, lhe asseguro. E não só a lugares desconhecidos, há lembranças de viagens dentro da própria cidade que surpreendem por sua ternura e complexidade. Me deu a impressão de que exagerava, mas talvez realmente gostasse de falar das lembranças que guardava entre aquelas quatro paredes. Continuou. Também há paisagens de solidão e multidão.
Fez um gesto de me convidar para passarmos a uma sala contígua, para seguir me explicando o resto da coleção. Não consegui entender se ele era o proprietário do estabelecimento ou um simples empregado. Sem dúvida, era uma pessoa sensível, conhecedora de seu ofício. Me explicou que tinham uma amplíssima variedade de lembranças sobre conversas, muitas das quais verdadeiras joias, e outra coleção ampla sobre a morte. O senhor deveria vê-las mais detidamente porque abarcam uma gama muito extensa...
Dei a entender que já era suficiente o que havia visto e demos por concluída a visita. Virou-se um tanto cerimoniosamente, e me perguntou. O senhor sabe o que busca exatamente ou o que é que nos oferece e veremos em que medida podemos ajudá-lo? Aqui tem, de todo modo, nosso catálogo, onde apresentamos a totalidade dos produtos disponíveis, e que atualizamos periodicamente. Fora de catálogo temos... Voltei a interrompê-lo, talvez de uma maneira um pouco abrupta, e lhe disse: Não quero comprar nada. O senhor foi muito amável ao me explicar tudo o que há na loja, com tanto detalhe. Eu quero penhorar todas as minhas lembranças. Absolutamente todas. Não importa quanto me paguem.
Então me respondeu um tanto surpreendido, perdendo momentaneamente a compostura: todas, todas, ele repetia, aqui não há lembranças de vidas completas, somente fragmentos de memória. As pessoas não se desprendem nunca da totalidade de suas lembranças, senhor. Assim me coloca numa situação muito incômoda, deveria pensar melhor em tudo isso. O senhor perderia sua identidade, não se lembraria quem é, nem onde vive. Além disso, enquanto durar o depósito, estas lembranças são nossas e desaparecem de sua mente. Se alguém as compra, o senhor só poderá recuperar o dinheiro, mas não as lembranças. Então eu lhe disse o que realmente pensava desde o princípio, antes mesmo de por os pés naquela casa de penhores.
O que eu quero é começar uma vida sem lembranças. Quero atravessar limpo o ar da manhã, me entende? Ver as coisas, todas as coisas, pela primeira vez."



(Juan Yanes, escritor das Ilhas Canárias, tem dois blogues intensos: maquina de coser palabras, de onde traduzi este texto, e el oscuro borde de la luz em sua terceira edição.)