26 de outubro de 2020

onde foi que me perdi

volta e meia me pego pensando no que as pessoas querem dizer quando dizem: se eu pudesse voltar no tempo faria tudo exatamente como fiz.

se a vida é um percurso de experiência, e nossas decisões dependem em grande parte da nossa capacidade de discernimento que por sua vez depende do repertório, de que adianta experimentar tantas coisas e ampliar o repertório se ao olhar para decisões feitas há tanto tempo chegamos à conclusão de que faríamos exatamente a mesma escolha?

claro que há quem diga: tudo isso me trouxe aqui e gosto deste aqui. se pensar assim, também eu vou dizer que faria tudo igual, mas a pergunta, ou a análise que fazemos ao olhar para algumas decisões cruciais na vida, é mais filosófica do que uma decisão prática ou de manifestação de querer mudar de vida, inclusive porque até onde se sabe, isso não é possível. embora haja quem mudaria sim, as decisões, justamente para neste momento estar em outra vida.



onde foi que eu me perdi? onde foi que me abandonei ou abandonei o que eu mais queria? por que sinto que foram me tolhendo os passos e aos poucos eu mesma fui buscando espaços menores para ocupar, para que não me cortassem de novo as asas? vejam, agora só estes cotocos nas omoplatas, como galhos mal podados, como ossos de um bicho morto, esticando o saco de lixo desde dentro.



por isso me vejo tanto na história da minha avó. no desejo dela de beleza, de expansão, de alegria e por todo lado alguém interrompe o gesto. o que ela não fez para que o mundo inteiro não caísse sobre as pessoas que ela tanto amou?

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